Recentemente a minha Mãe partiu… digo “partiu” e não “morreu”, porque apenas deixou de estar fisicamente junto de nós. Sei que continua viva nas nossas vidas a acompanhar o marido com quem viveu 60 anos, os filhos, noras, netos e tantos amigos que deixou deste lado.

A sua “presença faz-se presente” em pequenos gestos que vou tendo, em respostas que vou encontrando para as minhas dúvidas, no conforto de um acompanhamento que se tornou permanente e constante, nos recomeços que vou testemunhando e nas memórias que se vão construindo.

Sinto que estou a viver um “luto branco”. É “luto” porque sinto a saudade física, porque por vezes sem esperar sinto um vazio repentino, porque há dúvidas que surgem, porque há nostalgia, memórias, incertezas… Mas é “branco” porque há a certeza de que vive agora para a Eternidade, porque há uma enorme Paz, porque há Esperança de que vamos continuar a percorrer caminho juntos, porque se reforça a Fé no momento da perda, porque há um Amanhã que se antevê luminoso…

As aprendizagens deste “luto branco” fizeram-me ver que também podemos viver os nossos insucessos, erros e desilusões não como “perdas”, mas como momentos para reforçarmos a nossa fé naquilo em que acreditamos, quer seja transcendente quer esteja dentro de nós. Podemos (devemos) procurar aprender de forma diferente através das nossas fraquezas e dificuldades. Há por vezes a tentação de ficar amarrado ao erro, ao que correu mal ou ao sofrimento que alguém nos causou. Deixamo-nos aprisionar pela mágoa e facilmente caímos no julgamento, na crítica ou na retaliação. Deixamo-nos amarrar pelo lado escuro (dark side) do que nos rodeia.

Também ao nível profissional vemos, não raras vezes, organizações e os seus líderes a cair na tentação de castigar, ostracizar e retaliar perante o erro, a debilidade ou o insucesso. Ao fazê-lo criam-se culturas perigosamente assentes no medo, na ameaça e até na dilação. Mata-se a liberdade de pensar diferente e o gosto em inovar. Perdem todos… perde a organização e as pessoas. Sabemos que essas culturas destroem mais valor do que criam, tendem à desresponsabilização e levam a resultados indesejáveis que muitas vezes se traduzem em erros fatais, falhas graves de segurança e, no limite, ao definhamento da própria organização. A questão não está em ignorar o erro, a debilidade ou o insucesso, mas sim em perceber como é que lidamos com os mesmos. Punimos ou procuramos ajudar? Responsabilizamos ou acusamos? Procuramos soluções ou apenas culpados? Ouvimos ou julgamos? Fechamo-nos nas nossas “certezas” ou procuramos perceber a outra pessoa?

Sem prejuízo da resposta que cada um encontrará a estas questões, acredito que há outro caminho possível se soubermos olhar para essas dificuldades com a certeza de que tudo tem uma solução, com a paz de espírito (e coração) que nos acalmará a alma e o raciocínio, com a esperança de que iremos superar esses desafios com fé em nós próprios e nos outros.

Dizem-me, por vezes, que sou ingénuo. Gosto de pensar que essa ingenuidade é fruto da confiança, ou se quiserem da fé, que tenho nas pessoas. E quando alguma circunstância ou alguém me desilude, peço sempre que essa fé saia reforçada. Prefiro abraçar o “branco” a deixar-me aprisionar pelo “negro”. Assim tenho procurado encarar os momentos mais difíceis que tenho vivido em termos profissionais e pessoais. Não só não me arrependo, como convido quem quiser a experimentar. Da minha parte, não tenho dúvidas que o caminho é por aí

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Sobre o autor

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Diogo Alarcão tem feito a sua carreira essencialmente na área da Gestão e Consultoria. Foi Chairman da Marsh & McLennan Companies Portugal e CEO da Mercer Portugal. Foi Diretor da Direção de Investimento Internacional do ICEP, de 1996 a 2003.... Ler Mais