Opinião

A travessia do deserto das ex-colónias

Eugénio Viassa Monteiro, professor da AESE-Business School*

Os últimos 26 anos foram importantes para a população indiana. Mostraram como ela era capaz de ultrapassar as dificuldades e tomar iniciativas para fazer frutificar os seus recursos.

Antes, no intervencionismo, o Governo usurpara o protagonismo ao cidadão e fora um período de desespero para a população.

Talvez razões de peso tenham levado Nehru a escolher o intervencionismo:

– A população na miséria, espremida pelo colonizador inglês;
– Os empresários ingleses exploraram até ao tutano e isso não se podia repetir;
– O modelo tipo soviético atraía: concentrar meios de produção, para bem do povo…

Resultado: aumentou a burocracia para a atribuição das Licences Raj, para as atividades económicas. E com a burocracia, veio a corrupção, em busca de influências. O país ficou paralisado, produzindo sem qualidade, por não haver competição; contudo, vendia-se tudo, porque a oferta era pouca, fraca e sem alternativas. As taxas de crescimento foram irrisórias, de 3,5%, insignificante para a economia destruída.

O arranque para o desenvolvimento

Com Narashima Rao, em 1991, ao ter que abrir a Economia, os empreendedores começaram a atuar logo no primeiro pacote de reformas de Manmohan Singh. A economia começou a mexer a um ritmo acelerado, chegando a taxas elevadas, com picos de 9%, antes da recessão de 2008.

As reformas foram aprofundadas por Vajapyee e os partidos já não discutem ideologias e sabem que o caminho a seguir é este: iniciativa ao povo. Na falta de infraestruturas, muitos engenheiros de TI começaram a atuar, recebendo trabalhos de BPO – Business Process Outsourcing, que facilmente se enviavam pela internet. Antes, motivado pelo bug do ano 2000, os engenheiros indianos eram procurados nos EUA, com notoriedade e confiança na sua agilidade intelectual, no software, sendo, por isso, mais e mais engenheiros chamados para os EUA. Ao mesmo tempo, mais trabalho vinha para a Índia. Muitos empreendedores indianos com clientes nos EUA instalavam-se na Índia, onde tinham o seu centro de operações, e entregavam via internet e afinavam o software ao gosto do cliente.

Foi determinante haver um escol de Engenheiros, Informáticos, Matemáticos, Fisicos, Biológos, Farmacêuticos, cujo valor chamou empresas dos USA a instalarem-se na Índia. Hoje, quase todas as multinacionais de TI, eletrónica e I&D têm operações com muitas pessoas a trabalhar na Índia. Cito a IBM que terá mais de 150.000. Há mais de 1100 Multinacionais a fazer I&D na Índia.

Em TI e I&D o trabalho é de alto conteúdo e saber. Criam-se mais postos na indústria, por unidade de investimento, menos especializados. Contudo, na Índia, o número de postos indiretos é de 5 vezes os diretos e o arranque por via de Seviços teve impacto na economia do país, com ondas de otimismo que levaram a novas aventuras.

Desenvolvimento ‘inclusivo’ e I&D

Os primeiros destinatários dos produtos e serviços são os estratos mais abastados. Na Índia, houve preocupação de que produtos/serviços fossem de fácil acesso para os mais pobres. Assim, um volume mais numeroso de pessoas poderia adquiri-los, reforçando a sua rendibilidade.

Um caso típico foi do setor de telecomunicações móveis: havia 5,3 milhões de linhas de rede fixa em 1991, com as empresas de comunicação todas estatizadas. Em 1995, liberalizou-se; mais tarde, em 1999, foram concedidas muitas licenças de operação: 4 licenças por cada área metropolitana, Delhi, Mumbai, Kolkota e Chennai, e 4 em cada um dos 18 distritos em que a Índia foi dividida. Com a competição que se seguiu e com os inovadores modelos de negócio, os preços das chamadas e o custo de aquisição do aparelho foram caindo drástica e constantemente.

Como consequência, há 850 milhões de linhas de rede móvel ativas e mais de 35 milhões de linhas fixas. Todos falam e todos ganham: ganham os operadores pelo maior número de chamadas, ainda que ganhem menos com cada chamada. Ganham os utilizadores, os que chamam e os que atendem. Um produtor de legumes pode ter agora melhor preço, pois tem ao seu alcance os preços da praça próxima.

Além disso, podem ter acesso a uma ampla variedade de serviços à disposição, como comprar bilhetes de comboio, chamar táxis Olá, descarregar filmes ou notícias, fazer pagamentos, transferências e mandar mensagens.

A atitude de investigar para reduzir custos e preços é geral, chamando-se ‘frugal innovation’. Há empresas como a GE, que tem um grande centro de I&D em Bangalore para estudar, inventar e registar novas patentes que reduzam custos de operações ou de produtos. O carro Nano é o carro mais barato, projetado por uma equipa de engenheiros do grupo TATA, para que a família, que habitualmente se desloca de moto, com o pai, a mãe e os filhos na mesma moto, possa viajar em segurança, num carrinho muito barato, mas estável, com 4 rodas.

O que se pode aprender da Índia?

Quando se quer dar o melhor aos cidadãos, os países emergentes podem aprender visitando os que são bem-sucedidos – que passaram pelo mesmo tipo de vicissitudes, explorados pelos colonizadores – falando com pessoas destacadas das empresas e dos Governos, para verem o que aprender, imitar e transpor para o seu país; ou em que medida solicitar ajuda, para adaptar as ideias. É importante o bem-estar dos cidadãos, pelo que tudo quanto possa proporcionar instrução generalizada aos mais novos, melhor saúde, postos de trabalho, estará na primeira linha das prioridades. Depois, produtos úteis, mais acessíveis, para se ter uma vida menos esgotante e com tempo para a família, para as ocupações culturais e espirituais, para o desporto e, em geral, para as atividades que devem integrar o dia a dia do cidadão que quer ser feliz.

Nota: Amanhã, dia 15 de agosto, assinala-se o 70º aniversário da Independência da Índia.

* Professor da AESE-Business School e dirigente da AAPI – Associação de Amizade Portugal-Índia

Comentários
Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”, publicado em português, espanhol e inglês. Foi diretor-geral e vice-presidente da AESE (1980 – 1997), onde teve diversas responsabilidades. Foi presidente da AAPI-Associação de Amizade Portugal-India e faz parte da atual administração. É editor do ‘Newsletter’ sobre temas da Índia,... Ler Mais..

Artigos Relacionados

Miguel Henriques, vice-presidente do Clube de Business Angels de Lisboa
Ricardo Luz