Opinião

Ainda faz sentido trabalhar de casa quatro anos depois?

Ricardo Teixeira, fundador e CEO da CompuWorks

Há quatro anos que a nossa vida mudou e para sempre. No dia 13 de março de 2020, fomos (quase) todos trabalhar para casa. Sem grande tempo para reflexão, fomos obrigados a pensar em novos métodos de trabalho, em formas de nos relacionarmos com os outros e em cumprir objetivos de outra forma. Teve de ser assim.

Mas agora já não tem, ou será que sim? Vou-vos contar que a minha experiência e reflexão sobre este tema começou em 1997, quando eu trabalhava na Microsoft, e esta quis fazer uma experiência de teletrabalho, tendo eu sido uma das cinco pessoas que participaram nesse projeto-piloto. Conheço e estudei os prós e os contras desta forma de trabalho e, na minha opinião, requer reflexão:

  • As casas cada vez são mais pequenas e pensadas para passar pouco tempo, ou seja, para dormir e pouco mais. Não foram planeadas para serem um ambiente de trabalho e não são amigas da concentração e do desenvolvimento, as cadeiras da sala ou da cozinha não foram feitas para passar oito horas, por isso é que nas empresas temos cadeiras cada vez mais bem pensadas para não doerem as costas, monitores elevados para estarmos numa posição direita. Em casa tudo isto não existe.
  • As pessoas precisam de ter interação umas com as outras. Ao resumirmos a vida profissional apenas a ecrãs, não se criam relações, e o pior é que nem mantemos as que tínhamos, seja com colegas de trabalho, seja com clientes, tudo depende das relações entre as pessoas. Deixamos de falar sobre o tempo, sobre as crianças, sobre o futebol. As pessoas precisam de mais pessoas por perto. É por isso que evito ter reuniões online e desloco-me aonde for necessário para estar cara a cara com as minhas pessoas, clientes e parceiros, só assim criamos relações fortes.
  • Como podemos fazer uma boa equipa estando separados? Imaginem uma equipa de futebol em que cada jogador treina individualmente em sua casa e que ao fim de semana se reúne com os outros para jogar. Alguém esperaria os mesmos resultados? Impossível. Agora imaginem que integração podemos fazer das novas pessoas se os colegas de trabalho estão em casa e muitas das vezes a trabalhar em horários diferentes e que mais lhes convêm.
  • As pessoas ao trabalharem em casa ficam mais individualistas. Encomendam refeições, compras de supermercado, protegem-se da chuva e nem precisam de dizer bom dia ao vizinho de quem não gostam. O isolamento leva a mais isolamento e, nas empresas, só há um isolamento bom: é quando seguimos na liderança, destacados da concorrência. Nenhum dos outros tipos de isolamento é benéfico.
  • Cada vez conheço mais histórias de pessoas que prejudicaram a sua saúde mental desde o isolamento. E muitas vezes não foi por causa do aumento do volume de trabalho. Foi porque ficaram presas ao seu dia. Não descarregaram no trânsito, não reclamaram dos maridos ou das mulheres, não se atrasaram, porque havia trânsito à porta da escola dos filhos, e nem têm com quem falar mal do seu chefe. Todos precisamos de desabafar e de partilhar.
  • Ao trabalharmos em casa não há tempo para fazer o switch e mudar o chip do trabalho para casa e de casa para o trabalho. Este tempo de mudança é fundamental e nunca deverá ser menor que 30 minutos, para que os temas do trabalho fiquem no trabalho e a atenção que devemos dar em casa à nossa família se dê por inteiro.
  • Há casos em que um casal trabalha em casa, oito horas por dia, e vive em casa nas restantes 16 horas. Se a rotina já era um problema para muitos casais, imaginem num cenário em que ambos trabalham em casa…
  • Penso que as pessoas não estão a considerar este tema, mas, na verdade, quem está em teletrabalho será mais fácil despedir quando houver essa necessidade. Essas pessoas são aquelas com quem as equipas têm menos contato e relação. Com a inteligência artificial a desenvolver-se a este ritmo e com as profissões em risco, quem é que acham que será o primeiro excluído? O que fica no conforto de sua casa e do qual, quando desaparece, ninguém dá pela ausência, ou o que sai todos os dias para trabalhar em equipa e meter a mão (fisicamente) no trabalho?

São alguns dos aspetos que devemos considerar, pois há quatro anos não houve tempo para preparar, refletir e fazer de forma progressiva, e agora as pessoas não querem voltar atrás.

No entanto, defendo que é preciso criar um equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal. Por exemplo, antigamente, tínhamos as mães e as avós em casa para ajudar com as tarefas de casa e filhos. Hoje as mães e avós também trabalham, logo, é necessário haver uma maior disponibilidade por parte dos pais. É por isso que sou grande adepto do trabalho híbrido maioritariamente no local de trabalho, mas em casa sempre que é necessário. Os tempos e as consciências mudaram e hoje o trabalho também tem de se adaptar à vida das pessoas, e não apenas o contrário.


Com quase 30 anos de um percurso empreendedor, Ricardo Teixeira iniciou a carreira na Microsoft na área de suporte técnico a clientes empresariais. Em 2000, no auge da era das dot-com, decidiu deixar a Microsoft para arriscar no mundo empresarial e fundou a Webdote.com, uma das primeiras empresas de marketing digital em Portugal. Em 2006 foi vendida ao Grupo Strat, onde permaneceu como CEO até 2009. Movido pela busca constante pelo crescimento, deu o passo definitivo em 2010, tornando-se um empreendedor em série e além-fronteiras. Ao longo dos anos, criou e vendeu empresas em diversas áreas, desde a área tecnológica a um restaurante de frango assado ou uma empresa de construção civil. Em 2002 que abriu a CompuWorks, a única empresa a permanecer até hoje no seu portefólio de empresas há mais de 20 anos. Ao longo destes quase 30 anos fez projetos para mais de 80 grandes empresas em Portugal e Inglaterra, tais como ABF, Vodafone, UK Post Office, WPP Group, EDP Group, Vinci Airports, Accenture, etc.

No entanto, a vida de um empreendedor não é por si fácil, à qual acrescenta o facto de ser tetraplégico desde os 17 anos, o que não o impediu de concretizar os seus sonhos e objetivos. Hoje, é casado e pai, acreditando que o seu maior legado é o exemplo de superação e determinação perante as adversidades. “O homem nada mais é do que aquilo que faz de si mesmo” – revejo esta citação de Jean-Paul Sartre a minha atitude na vida, impulsionando-me a transcender limites e inspirar outros a não se deixarem deter pelas “pedras no caminho”. Felizmente comecei cedo e estou apenas a meio do meu caminho, o difícil foi começar…”.

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