Entrevista/ “Não trabalhamos só madeira, também trabalhamos ideias”

Margarida Cunha e Tiago Perreira, CEOs da Woodmade

Dois jovens portugueses uniram esforços e criaram a Woodmade, uma start-up que recuperou o tradicional ofício de marceneiro. Mais do que a madeira, também trabalham ideias.

Margarida Cunha, 26 anos, e Tiago Pereira, 27 anos, tiveram a ideia de lançar uma marca 100% made in Portugal, com uso de técnicas artesanais de marcenaria e design inovador que conseguisse aliar inovação e tradição. Puseram mãos à obra e criaram a Woodmade, um projeto familiar que dá continuidade ao legado deixado pelos mestres marceneiros portugueses e que se alicerça na construção artesanal de peças de mobiliário de luxo e na realização de projetos à medida. Por cada peça produzida, a Woodmade irá plantar uma árvore, numa parceria com a associação Plantar uma Árvore. O projeto também quer levar a arte da marcenaria portuguesa além-fronteiras comprovando o que de melhor se faz em Portugal.

Em que é que consiste a Woodmade?
Margarida Cunha
: A Woodmade é uma marcenaria artesanal e uma marca de mobiliário de madeira, que usa técnicas artesanais de marcenaria para criar peças únicas, aliando tradição e contemporaneidade. Para além disso desenha e constrói móveis por encomenda e faz restauros. Pretendemos dar a conhecer ofícios tradicionais através de peças com história, feitas como antigamente, mas adaptadas às realidades atuais.

Como surgiu?
Tiago Pereira
: A marca surgiu naturalmente. Depois de termos estudado e trabalhado em Inglaterra, apercebermo-nos da forma como este tipo de trabalho de marcenaria artesanal, que tem como base os saberes tradicionais, é valorizado em Inglaterra, por transmitir um legado cultural.

M.C.:  E surgiu-nos então esta vontade de podermos transmitir este legado (que consideramos tão rico e interessante) em Portugal, em simultâneo com a ideia de que poderíamos ter potencial para inovar, se aliássemos essas técnicas a um design mais atual.

De que forma os vossos percursos pessoais e profissionais influenciaram o lançamento da marca Woodmade?
T.P.
:  Eu nasci numa família de marceneiros, pelo menos cinco gerações conhecidas tiveram esta profissão, que me foi passada pelo meu avô. Cresci na oficina de marcenaria, no meio da madeira, a ver trabalhar madeira e sempre tive curiosidade e paixão por este trabalho. Trabalhei alguns anos com o meu avô, Soares Pereira, que era mestre marceneiro e tinha uma experiência muito diversificada. Ele começou a trabalhar neste ofício com oito anos. Deixou-nos os ensinamentos e a oficina, e depois eu trabalhei e estudei para me poder aperfeiçoar, algo que continuo a fazer e sei que farei durante a vida toda.

Desde cedo soube que queria trabalhar madeira. Passei  pela Escola de Recuperação de Património de Sintra, depois pela Fundação Ricardo Espírito Santo, onde fiz o curso de Marceneiro Entalhador, e estudei Bench Joinery (marcenaria artesanal) em Leicester, em Inglaterra. Para além desta formação, aprendi muito (e ainda aprendo) em cada trabalho e projeto que tenho em mãos. Durante os anos em que estive a trabalhar, antes de lançar a Woodmade, fiz alguns projetos de marcenaria ligada à construção, mobiliário por medida e restauro e em todos ganhei conhecimentos que me possibilitaram a criação da marca.

M.C.: Eu estudei Comunicação Cultural e trabalhei em museus. Sempre tive um grande fascínio pelas artes, por conhecer a história dos objetos. Em Inglaterra fiz um mestrado em Gestão de Eventos Culturais, no qual estudei gestão de negócios, uma disciplina fundamental para que a nossa ideia de criar uma marca começasse a ganhar forma e estrutura. Por outro lado, o estar noutro país e ter contacto com outras realidades culturais foi também um grande impulso para percebermos o potencial do que tínhamos em mãos e também uma grande motivação para criar uma marca capaz de mostrar o saber-fazer português.

Como carregam o peso da história?
T.P.:  A história não nos pesa de maneira nenhuma, olhamos para ela como inspiração para sermos melhores a cada dia.

Consideram que a profissão de marceneiro pode ter os dias contados, tendo em conta a vasta oferta que existe no mercado de mobiliário acessível em lojas como IKEA, ou consideram que, pelo contrário, há mercado a explorar visto que os portugueses estão cada vez mais exigentes e procuram peças únicas?
T. P.
: O mercado oferece soluções rápidas, fáceis e baratas o que à primeira vista pode parecer vantajoso, mas que se reflete em peças indiferenciadas e que, pelo uso de materiais de baixa qualidade não são duradouras. Por essa razão, acredito que, de uma forma geral, os portugueses estão a ter mais vontade de procurar peças únicas, com qualidade e durabilidade. Quem nos procura sabe que vai encontrar uma solução 100% personalizada, o que pode não ser a solução mais barata, mas que, em determinados espaços, é a que mais sentido faz e, por isso, a marcenaria será sempre uma mais-valia que oferece peças especiais, duradouras e a possibilidade de personalização.

É fácil inovar, mantendo o modo artesanal de produzir peças de mobiliário?
M.C.
: A inovação é fruto da abertura e da capacidade de olharmos para os desafios de forma a vermos todas as possibilidades, mesmo aquelas que não são visíveis a uma primeira vista. Esta capacidade é algo que vamos treinando através da experimentação, do uso de outros materiais e do design. O maior inimigo da inovação é pensar que já foi tudo inventado. Há sempre margem para fazer algo novo se nos predispusermos a experimentar, a pensar fora da caixa e a sermos flexíveis. Este é o espírito que caracteriza a marca Woodmade. Nós não trabalhamos só madeira, trabalhamos também ideias. Para nós é fácil inovar porque trabalhamos o lado criativo de uma forma muito próxima à produção, o que torna o projeto muito aberto à experimentação, ingrediente que consideramos fundamental para inovar.

Onde podemos encontrar os vossos produtos?
T. P.
: Estamos a preparar um showroom em Lisboa, mas, neste momento, é possível ver e encomendar os produtos no nosso site ou sob marcação na oficina de marcenaria, em Sintra.

Como caraterizam o tipo de cliente que procura a Woodmade?
M.C.
: O cliente da Woodmade é exigente, valoriza um trabalho perfeito, procura móveis de qualidade e tem um gosto eclético que pode ir do mais clássico ao mais contemporâneo.

Falando em números, quanto faturaram até ao momento?
M.C
.: O projeto é recente e tem vindo dar prioridade à otimização técnica da oficina e à criação de protótipos para alargar a produção (fase que ainda está em desenvolvimento neste momento). Entretanto, iniciámos a faturação este mês com projetos sob medida e tendo em conta as encomendas que já tivemos, contamos faturar três mil euros neste primeiro mês de faturação.

Quais as maiores dificuldades que encontraram no caminho?
T.P.
: A maior dificuldade até agora tem sido ajustar a capacidade de produção à urgência de alguns pedidos.

E o maior desafio?
M.C
.: O maior desafio (e mais motivador) é espalhar o ADN da nossa marca e saber-fazer português além-fronteiras.

Se pudessem, o que teriam feito de diferente?
M.C
.: Se pudéssemos teríamos planeado mais a longo prazo os passos a dar em cada etapa do lançamento da marca e da criação e desenho de novas peças. A marca surgiu de uma forma muito orgânica e olhando para trás, teríamos investido mais tempo no planeamento.

Faz parte da estratégia da empresa internacionalizar a Woodmade?
T.P.
: Sim, este é um objetivo que temos desde que a ideia surgiu, porque consideramos que o produto que oferecemos faz bastante sentido e tem procura em mercados no exterior.

Quais os próximos passos a dar?
M.C.: Os próximos passos a dar são a internacionalização e trabalhar com outros designers portugueses para criar peças diversificadas.

Respostas rápidas:
O maior risco: 
A compra de 12 m3 de madeira.
O maior erro: Não ter estruturado melhor o processo criativo no início.
A melhor ideia:  Uma peça que se chama ladybug, mas que ainda é segredo (terão de nos acompanhar para descobrir!
A maior lição: A importância de nos mantermos fiéis aos nossos valores.
A maior conquista: Os elogios que temos vindo a receber.

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