Opinião

A sustentabilidade da GRH. “Mais do mesmo” ou o despertar de um novo paradigma?

Mário Ceitil, presidente da APG

A “sustentabilidade” é um tema que tem vindo a assumir um papel da maior relevância num mundo que começa a ter uma consciência mais aguda de que os recursos (todos eles) são por natureza limitados e que se torna cada vez mais imperativo promover, a todos os níveis, políticas, estratégias e práticas que garantam percursos consistentes nos diferentes domínios do chamado “desenvolvimento sustentável”.

Nesses percursos, e a nível “macro”, as instituições globais têm assumido o papel de definir as grandes metas para esse desenvolvimento que se destinam a ser adotadas, a nível “meso”, pelos diferentes países que, por sua vez, estabelecem as grandes orientações das “políticas de sustentabilidade” ajustadas às suas respetivas condições e realidades.

Todo este processo tem vindo já a ser desenvolvido há vários anos, com maior ou menor perseverança e também com maior ou menor consistência. Cabe agora, a nível “micro” dinamizar as empresas e organizações para, de forma generalizada, promoverem ações concretas nos domínios da “Sustentabilidade Corporativa”, dando um indispensável contributo para que a respetiva filosofia e as práticas com ela alinhadas, possam disseminar-se por todo o tecido social dos respetivos stakeholders e, através da riqueza e variedade das suas contribuições, possibilitar a transformação de uma “boa ideia” em práticas realmente consistentes e eficazes.

É justamente no contexto da “Sustentabilidade Corporativa” que tem vindo a ganhar cada vez mais força e expressão o papel determinante da GRH na concretização das metas definidas pelas empresas relativamente a essa temática, levando mesmo alguns autores a propor que a “sustentabilidade apresenta um grande potencial estratégico para a Gestão de Recursos Humanos”.

Como nenhuma filosofia ou estratégia organizacional pode ser viabilizada sem a mediação das pessoas que, através do seu trabalho, dão à estratégia um sentido quotidiano e vivem o seu quotidiano com sentido estratégico, assiste-se hoje a um movimento tanto a nível concetual como no das práticas de intervenção organizacional, que vem defendendo que a GRH deveria ter um papel mais específico e interventivo nos programas de “Sustentabilidade Corporativa”, através de um novo redesenho da função ao qual tem vindo a ser atribuída a designação de “Sustentabilidade da GRH”.

No contexto desta perspetiva, a GRH deixa de ser pensada apenas como um “auxiliar” ou um “facilitador” da “Sustentabilidade Corporativa”, mas deve tornar-se o seu verdadeiro “driver”, uma vez que quaisquer projetos de “SC” passam necessariamente pela mediação da ação humana, cujos comportamentos concretos vividos no quotidiano dão ou fazem perder o sentido de quaisquer estratégias orientadas para a sustentabilidade (e não só). Nesta linha, alguns autores assinalam mesmo que esta é uma grande oportunidade para a GRH demonstrar a sua própria legitimidade e reafirmar a relevância do seu posicionamento estratégico.

A “Sustentabilidade da GRH” consiste, então, numa nova forma de organizar as políticas e as práticas da Gestão das Pessoas, alinhada com uma perspetiva de desenvolvimento sustentável que vai mais além daquilo que a sua aceção mais comum propõe, ao defini-lo como um “desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de criarem condições para satisfazerem igualmente as suas próprias necessidades”.

Numa visão mais ampla, a “Sustentabilidade da GRH” propõe-se dinamizar práticas de Gestão das Pessoas que não só possibilitem a satisfação das necessidades do presente, mas que potenciem a capacidade das gerações atuais para gerarem um efeito multiplicador que não se limite apenas a “não comprometer a capacidade das gerações futuras”, mas que contribuam proactivamente para que as gerações futuras possam vir a criar um futuro melhor.

Alguns poderão achar que se trata apenas de um pequeno subterfúgio estilístico.

Mas gerir pessoas de modo que se tornem verdadeiros agentes multiplicadores para a criação de um futuro melhor, é diferente de gerir pessoas para se manterem apenas eficazes de modo sustentável: é preciso visão, é necessário sonho e é exigida renúncia a certas prerrogativas do presente.

E disso, nem todos são capazes; e a isso nem todos estão dispostos.

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Mário Ceitil

Mário Ceitil

Licenciado em Psicologia Social e das Organizações pelo ISPA, Mário Ceitil é consultor e formador na CEGOC desde 1981, tendo participado em vários projetos de intervenção, nos domínios da Psicologia das Organizações e da Gestão dos Recursos Humanos, em algumas das principais empresas e organizações, privadas e públicas, em Portugal e em países da África lusófona. Integrou, como consultor, equipas internacionais do grupo CEGOS, em projetos europeus. É professor universitário, desde 1981, nas áreas da Psicologia das Organizações e da... Ler Mais..

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