Mais do que uma plataforma de entrega de comida ao domicílio, o Cookoo assume-se como um kitchen hub. Criado há pouco mais de um ano, o projeto já reúne uma dezena de restaurantes e cerca de 20 mil clientes registados. Em entrevista ao Link To Leaders, Pedro Sanches, partner e cofundador do Cookoo, acredita que a restauração tradicional vai ter que se reinventar e alerta para o facto de a dependência de algumas das plataformas atuais ser destrutiva para o setor.

Apesar da pandemia, a start-up de Lisboa conseguiu ver o seu volume de negócios aumentar mais de 50% e, nos 12 primeiros meses de operação, atingiu uma faturação acima dos 300 mil euros. O arranque do kitchen hub Cookoo foi marcado pela procura crescente do seu serviço de food delivery, e este ano as perspetivas apontam para ultrapassar os 600 mil euros no fim do ano.

Pedro Sanches, partner e cofundador, está otimista e acredita que o projeto vai crescer pois os portugueses estão cada vez mais recetivos a este tipo de alternativas à restauração tradicional. Os seus planos futuros envolvem a expansão geográfica e o aumento do número de restaurantes.

O Cookoo define-se como um kitchen hub. O que é um kitchen hub exatamente?
Um kitchen hub é um espaço que agrega diversas cozinhas, as chamadas “dark kitchens”, restaurantes virtuais que não existem fisicamente, não têm salas e nem empregados de mesa, têm apenas cozinhas com pratos que chegam aos clientes através de serviços de home delivery. Esta é já uma tendência no setor de food service em países como o Brasil, Inglaterra e EUA. Em Portugal o conceito está ainda a dar os primeiros passos, sendo o Cookoo o primeiro kitchen hub do país.

No momento da criação do Cookoo, optámos por elevar o conceito de dark kitchen a um outro patamar, sendo que não nos limitamos a ser uma cozinha para delivery, mas temos também um espaço que é visitável e onde se pode fazer take away. Por outro lado, toda a logística é própria, o que nos permite controlar a cadeia de fornecimento de A a Z, desde a cozinha à entrega. Optámos também por apostar em diversos estilos gastronómicos no mesmo espaço, dando assim uma oferta mais diversificada a quem gosta do nosso serviço. Desta forma, ao contrário de outras plataformas, os clientes têm a oportunidade de, numa só encomenda, pedir comida de vários restaurantes, respondendo a gostos distintos.

Este tipo de plataforma vem também facilitar a criação de novos restaurantes, já que não há necessidade de um novo espaço e é possível ter sinergias a nível de produtos e receitas. Apesar de sermos os pioneiros do setor em Portugal, acreditamos que este possa crescer significativamente.

Geograficamente onde estão a operar?
O nosso hub, situa-se na zona do Alto dos Moinhos, local com bons acessos às diversas zonas da Área Metropolitana de Lisboa, o que nos permite chegar já à maioria das localidades. Neste momento, além de abrangermos a área mais central da cidade, entregamos em inúmeros locais dos arredores, tal como Alfragide, Amadora, Odivelas, Restelo, Algés, Miraflores, Linda-a-Velha, Carnaxide, Queluz e Ramada. Em maio, começámos também a levar refeições ao Parque das Nações, Alto de São João, Olaias, Moscavide, Portela e Prior Velho.

Em todas estas regiões, o serviço de delivery pode ser pedido para casa, para o escritório ou mesmo para entregas em locais públicos, como jardins ou parques, ideais para piqueniques. Para quem preferir, temos ainda a opção de takeaway, que permite que as pessoas que não vivem no perímetro abrangido possam provar os nossos pratos.

Continuamos a trabalhar para podermos chegar a mais pessoas, aumentando o nosso alcance e levando a nossa solução a outras localidades, não deixando nunca de ter como prioridade a qualidade de todo o processo de entrega e dos produtos.

Quantos restaurantes integram a plataforma?
O Cookoo é atualmente composto por nove restaurantes, com conceitos e identidades diferentes, o que permite que numa mesma encomenda se possa provar pratos diversos tipos de cozinha. São eles o Rosita, de inspiração mexicana e com tacos e burritos, a Trattoria Torto, que, além de pizzas, tem também lasanhas e almôndegas, o Crudo, com fish burgers e o restaurante de sushi ZAO.
Além destes, temos o MOM, com comida da mãe, o espaço totalmente dedicado a opções vegetarianas, o Garden Gourmet, a Croqueteria (croquetes), a hamburgueria UNITED e o mais recente Pokay, que tem diversas opções de poké bowls. Uma vez que todos os restaurantes estão no mesmo espaço, existe sinergias entre cozinhas, partilhando-se produtos e permitindo também alguma poupança e, sobretudo, combate ao desperdício alimentar.

“Nós controlamos todo o processo de entregas do início ao fim, de forma a garantirmos a segurança de todo o processo e que a comida chega nas melhores condições às pessoas”.

Sendo um serviço de food delivery, como funciona a vossa estrutura de entregas? Outsourcing?
Nós controlamos todo o processo de entregas do início ao fim, de forma a garantirmos a segurança de todo o processo e que a comida chega nas melhores condições às pessoas. Esta opção também se aplica aos nossos motoristas, que constituem parte da nossa frota, que trabalham com material e veículos apenas utilizados por nós. Desta forma, conseguimos controlar melhor tudo o que está relacionado com a segurança dos motoristas, com o bom estado dos veículos e com a higiene de todo o processo, aspeto ainda mais importante neste momento pandémico e que exigiu um esforço extra do nosso lado.

A par da nossa plataforma, temos os restaurantes também disponíveis na UberEats e aí a equipa de entregas já é a dessa plataforma.

“Passado um ano, duplicámos o número de restaurantes no hub, temos, neste momento, cerca de 20 mil clientes registados na nossa app e já entregámos mais de 30 mil pedidos (..)”.

Quantos são atualmente os vossos clientes?
Desde que abrimos portas, há cerca de um ano, temos sentido um crescimento progressivo na procura dos nossos serviços e no número de clientes, o que nos fez também aumentar a nossa oferta, com a criação continua de novos restaurantes. Fazemos assim um balanço muito positivo deste período. Passado um ano, duplicámos o número de restaurantes no hub, temos, neste momento, cerca de 20 mil clientes registados na nossa app e já entregámos mais de 30 mil pedidos, perfazendo uma média de 60 mil refeições, o que é muito positivo para o começo de uma start-up. Além disso, desde janeiro, que a nossa taxa de repetição, ou seja, a percentagem de pessoas que pediu repetidamente Cookoo, ultrapassou os 45%, o que é algo que só nos pode deixar orgulhosos.

Nesta fase de pandemia qual a percentagem de aumento de procura dos vossos serviços?
Ao contrário do que ocorreu com muitos negócios e setores, a pandemia teve até agora um impacto positivo no Cookoo. Como a chegada da pandemia a Portugal deu-se um pouco mais tarde do que noutros países, conseguimos antecipar alguns cenários e prepararmo-nos da melhor forma para manter o nosso funcionamento, reforçando todas as medidas de higiene e segurança, desde a receção de alimentos, à confeção, até serem entregues ao cliente.

À segurança dos consumidores, aliou-se a sua necessidade e alteração dos hábitos de consumo. Estando em casa, a população precisou de ter contato com os pratos que mais gostam e sendo o Cookoo uma plataforma democrática, conseguimos levar refeições que satisfizessem todos os membros das famílias em confinamento.

Desta forma, sentimos um aumento progressivo no número de clientes – mais de 200 novos clientes por semana – o que se reflete no contínuo crescimento do volume de negócio.

“No início da pandemia, tivemos um aumento de mais de 50% de volume de negócio, com os pedidos a duplicarem sobretudo aos fins de semana”.

E como é que isso se refletiu em termos de volume de negócios?
No início da pandemia, tivemos um aumento de mais de 50% de volume de negócio, com os pedidos a duplicarem sobretudo aos fins de semana. Depois do período de confinamento, em que as pessoas começaram a ter outras opções, este crescimento estabilizou-se nos 30%, mas sempre positivo comparativamente com o volume de vendas anterior à pandemia.

Nos primeiros 12 meses de operação, registámos uma faturação acima dos 300 mil euros. Este ano estamos muito acima: nos primeiros cinco meses de 2020 atingimos esse valor e perspetivamos ultrapassar os 600 mil euros no fim do ano.

“Ao contrário dos consumidores internacionais,os portugueses têm ainda uma barreira em fazer downloads de novas aplicações nos seus dispositivos móveis (…)”

Os consumidores portugueses são recetivos a estas novas propostas alternativas à restauração tradicional, ou estamos perante uma tendência pontual, devido à pandemia?
Esta não é uma situação pontual provocada pela pandemia e os portugueses estão cada vez mais recetivos a este tipo de alternativas à restauração. No entanto, sentimos que ainda há trabalho a fazer para que esta tendência seja mais estabelecida no mercado, sendo um hábito e algo menos pontual. Ao contrário dos consumidores internacionais, os portugueses têm ainda uma barreira em fazer downloads de novas aplicações nos seus dispositivos móveis, o que faz com que seja mais desafiante adquirir novos clientes. Felizmente, o Cookoo está também disponível para fazer as encomendas através do site de forma fácil e rápida, o que vem facilitar esse acesso.

“A dependência a algumas das plataformas atuais é claramente destrutiva para o setor, com comissões pesadíssimas, com grande destruição da cadeia de valor (…)”

Sendo uma start-up, com um perfil mais inovador, o que acha que a restauração tradicional sendo um dos setores mais afetados, deveria fazer para se reinventar?
Infelizmente, a restauração vai ter, forçosamente, que se reinventar. Será um processo difícil de adaptação, pelo que há que ser criativo e empreendedor para explorar novos modelos. O delivery vai naturalmente ser um passo importante, mas há que ser meticuloso. A dependência de algumas das plataformas atuais é claramente destrutiva para o setor, com comissões pesadíssimas, com grande destruição da cadeia de valor, e será certamente difícil para a grande maioria dos restaurantes aguentar um modelo compatível com custos de logística a 25% da receita. Claro que estes modelos levam muitos dos intervenientes a procurarem subterfúgios para que eles próprios possam sobreviver. É natural. É preciso encontrar modelos sustentáveis para a restauração.

“(…) vendemos a alguns dos nossos parceiros, familiares e amigos esta ideia inovadora e única no mercado. Numa fase inicial, foram eles que investiram neste negócio (…)”.

Como surgiu o projeto Cookoo? Quem são os seus fundadores/investidores?
O Cookoo surgiu em maio de 2019 com o intuito de ser um home delivery democrático, fácil e com comida sempre fresca e de grande qualidade. A plataforma foi lançada por mim, pelo chef Manuel Perestrelo e pelo empresário Francisco Sanches, todos nós com vivências e experiências profissionais sempre muito relacionadas com o mundo das start-ups.

A vontade de criarmos este projeto deveu-se também ao facto de sempre termos passado temporadas fora do país, nomeadamente no Brasil e em Londres, locais onde o mercado de delivery está muito desenvolvido, o que nos despertou para a necessidade de oferecer melhores soluções de delivery em Portugal.

Olhámos para o mercado nacional e percebemos que já existiam diversas plataformas de entrega ao domicílio, mas muito focadas nisso mesmo, na entrega, sem ter preocupação se a comida chega fria ou quente, se chega em boas condições ou se oferece um serviço que possa dar resposta a várias necessidades e gostos em simultâneo. Com o Cookoo, quisemos mudar isso, focar também na comida, na qualidade e nas necessidades e gostos das pessoas e dar-lhes uma melhor experiência de consumo.

Tanto eu como o Francisco [Sanches] trabalhamos no setor imobiliário e, literalmente, vendemos a alguns dos nossos parceiros, familiares e amigos esta ideia inovadora e única no mercado. Numa fase inicial, foram eles que investiram neste negócio, tendo esse investimento uma grande importância para o desenvolvimento do Cookoo e para chegarmos onde estamos hoje.

Quais as perspetivas de crescimento, em termos abrangência geográfica e de oferta?
De uma forma geral, a nossa ambição é angariar novos clientes como também fidelizar os atuais, consolidando a nossa presença na cidade e na sua envolvente. Pelo que, como qualquer negócio, temos a ambição de crescer e fazer mais, mas também melhor. Nesse sentido, sendo uma das nossas premissas a qualidade, pautamo-nos por um crescimento moderado e sustentado, para que consigamos manter os padrões de exigência de sempre.

No que respeita à abrangência geográfica, temos vindo a alargar o nosso raio de entregas e o objetivo é que o continuemos a fazer, sendo que a expansão para outras zonas fora de Lisboa não está posta de parte, até porque o projeto tem um forte potencial de expansão. A par disso, estamos também a preparar a criação de um novo hub de finalização, replicando a nossa cozinha num ponto estratégico da cidade, o que nos permitirá preparar a comida e entregá-la na temperatura ideal a zonas que ainda não alcançamos.

Por outro lado, continuaremos a apostar em conceitos e marcas diversificadas, criando restaurantes que venham ao encontro das tendências gastronómicas, porque, à mesa, o nosso objetivo é deixar todos os nossos clientes satisfeitos sem que tenham de fazer cerimónia a pedir algo que não seja aquilo que mais querem.

Respostas rápidas:
O maior risco: garantir a sustentabilidade de um negócio.
O maior erro: estar em muitas frentes em simultâneo.
A maior lição: apostar na equipa certa.
A maior conquista: é sempre a mais recente, mas os últimos oito anos de trabalho foram uma conquista constante em várias frentes.

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