Opinião
A lusofonia como plataforma da diplomacia científica
Vivemos um momento particularmente desafiante para a cooperação internacional. A crescente fragmentação geopolítica, a competição global pelo talento, a disputa pela liderança científica e tecnológica e o enfraquecimento de alguns modelos tradicionais de cooperação internacional estão a redefinir a forma como os países e as instituições se relacionam entre si.
Neste novo contexto, o conhecimento tornou-se um ativo estratégico e as Universidades passaram a desempenhar um papel que ultrapassa largamente a sua missão tradicional de ensinar e investigar.
Durante muito tempo, as Universidades foram frequentemente entendidas como instituições cuja missão se esgotava na produção e transmissão de conhecimento, relativamente afastadas das dinâmicas económicas, sociais e políticas que as rodeavam. Hoje, resultado das profundas alterações que o Ensino Superior tem vindo a sofrer a nível Europeu e a Nacional, as Universidades precisam de estar cada vez mais interligadas à sociedade e ao mundo onde estão inseridas, funcionando como pólos de atração e de conhecimento.
A inovação determina a competitividade das economias, o talento tornou-se um dos recursos mais disputados à escala internacional. Os países competem para atrair estudantes, investigadores e profissionais altamente qualificados, conscientes de que a capacidade de produzir conhecimento será determinante para o seu desenvolvimento económico, científico e tecnológico. O Ensino Superior não pode limitar-se a competir pelo talento, deve também assumir a responsabilidade de o formar, desenvolver e colocar ao serviço do progresso coletivo. Acredito que as instituições de Ensino Superior constituem um dos principais instrumentos da Diplomacia Científica.
Segundo a definição proposta pela The Royal Society (2010), a Diplomacia Científica corresponde à utilização da ciência para promover a cooperação entre Nações, enfrentar desafios comuns e fortalecer relações internacionais através do conhecimento. Mais do que um conceito académico, representa uma nova forma de compreender o papel das instituições de Ensino Superior num mundo cada vez mais interdependente.
Quando as Universidades estabelecem redes internacionais de investigação, promovem a mobilidade académica, colaboram na formação de recursos humanos, participam na construção de políticas públicas ou desenvolvem soluções científicas para problemas comuns, estão a fazer muito mais do que internacionalização. Estão a criar pontes de confiança entre países, a fortalecer capacidades científicas e a contribuir para um desenvolvimento mais equilibrado. É precisamente nesta perspetiva que vejo o percurso do Grupo Lusófona.
Muito antes de a Diplomacia Científica ocupar um lugar central na agenda internacional, o Grupo Lusófona desenvolvia já um projeto assente numa visão de cooperação entre países unidos pela língua portuguesa. A visão fundadora do meu pai, Manuel de Almeida Damásio, nasceu da convicção de que o Ensino Superior poderia constituir um instrumento de desenvolvimento, promovendo não apenas a formação de profissionais qualificados, mas também a criação de instituições sólidas, a produção de conhecimento científico e a valorização das capacidades locais.
Ao longo das últimas décadas, esta visão consolidou-se através de uma rede Universitária presente em três continentes, construída numa lógica de parceria e não de dependência. A Universidade Lusófona nos países onde está presente é tida como uma Instituição que está ao serviço daquela comunidade, próxima e isenta de qualquer ideologia política ou religiosa.
O espaço lusófono possui condições únicas para afirmar uma estratégia de Diplomacia Científica. A Lusofonia não representa apenas uma comunidade linguística. Constitui um espaço de circulação de conhecimento entre Europa, África, América do Sul e Ásia, oferecendo condições únicas para desenvolver investigação em áreas como a saúde tropical, a biodiversidade, os oceanos, as alterações climáticas, a Educação ou a transformação digital.
Num tempo em que tantas relações internacionais são marcadas pela competição, a cooperação científica pode afirmar-se como um dos instrumentos mais eficazes de aproximação entre povos e na resolução de problemas glocais1.
Estou convicta de que o futuro do Ensino Superior será determinado menos pela capacidade de competir isoladamente e cada vez mais pela capacidade de cooperar de forma diversificada com os diferentes atores da sociedade. Contudo, esta ambição exige que os decisores públicos criem um enquadramento legislativo e institucional que favoreça a cooperação entre as instituições de Ensino Superior, o tecido empresarial, a administração pública e a sociedade civil, reconhecendo a Diplomacia Científica como um eixo estratégico para o desenvolvimento sustentável.
1 Glocalização é um neologismo resultante da fusão dos termos global e local. O “local” foi definido por Manuel Castells como os “nós” — nós de valor acrescentado aos fluxos econômicos e lugares de vida social. Segundo Paul Soriano, no “glocal”, o “local” representaria os “nós” da rede global e integraria não só as resistências, como também as contribuições das formações identitárias locais e regionais à globalização.
Bibliografia:
The Royal Society, & American Association for the Advancement of Science. (2010). New frontiers in science diplomacy: Navigating the changing balance of power.








