Opinião
A confiança é o único activo que a sua PME não consegue comprar
Portugal tem, actualmente, mais de um milhão e meio de empresas activas. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, existiam em 2024 exactamente 1.593.415 empresas em actividade no país, das quais 246.589 nasceram nesse mesmo ano.
Este número, por si só, poderia parecer motivo de optimismo. Mas há um facto que os relatórios do INE confirmam, ano após ano, com uma regularidade quase cruel: a maior parte destas empresas nasce, luta, e desaparece antes de consolidar algo parecido com um legado.
As micro, pequenas e médias empresas representam 99,9% do tecido empresarial não financeiro português. É este o verdadeiro retrato da nação empresarial: milhões de pessoas a gerir negócios sozinhas, sem estrutura, sem retaguarda, sem alguém em quem confiar quando a decisão é difícil. Os dados do próprio INE mostram, ano após ano, que a taxa de sobrevivência das empresas individuais continua muito inferior à das sociedades, sobretudo três e quatro anos após o nascimento. Não falta talento em Portugal. Falta sustentação. Durante anos assumi, como fundador da M2UP, que o problema do empresário português era a falta de contactos. Achei que bastava ligar pessoas a pessoas, encher salas, multiplicar cartões de visita. Estava enganado. O que descobri, sala após sala, foi outra coisa. O empresário português não sofre de falta de rede. Sofre de excesso de rede vazia.
Um estudo publicado no Journal of Finance em 2017, conduzido por Karl Lins, Henri Servaes e Ane Tamayo, mediu o capital social de centenas de empresas ao longo da crise financeira de 2008. As empresas com mais confiança acumulada, e não mais visibilidade, resistiram entre quatro a sete pontos percentuais melhor do que as restantes. Antes e depois da crise, essa vantagem desaparecia. A confiança só se revela indispensável quando tudo o resto colapsa.
Qualquer empresário português que tenha atravessado os últimos anos sabe exactamente do que falo. Sabemos também, graças ao maior estudo alguma vez feito sobre redes profissionais, publicado na Science em 2022 por uma equipa do LinkedIn, do MIT e de Harvard, que mais contactos não significa mais valor. Existe um ponto óptimo, e a partir dele o excesso de ligações destrói o próprio benefício que persegue. Coleccionar contactos é, provavelmente, a estratégia empresarial menos eficaz que um português pode escolher em 2026.
A ideia que sustenta a M2UP nunca foi juntar mais gente. Não é negar a importância da rede, é devolver a essa rede aquilo que o networking tradicional lhe retirou. A pessoa. Foi sempre a mesma ideia, desde o primeiro dia em Aveiro, em 2011. Construir conexões com estrutura, onde a confiança se acumula devagar e nunca se despenha em segundos.
O estado da nação empresarial portuguesa não vai melhorar com mais eventos de networking, nem com mais perfis optimizados no LinkedIn. Vai melhorar quando o empresário português perceber que a vantagem competitiva do seu negócio não está em quantas pessoas conhece. Está em quantas pessoas o conhecem verdadeiramente, e continuariam a atender o telefone no pior dia da sua vida profissional.
Essa é a escolha que proponho aos empresários portugueses. Não networking. Conexão.








