Em dezembro marquei presença no “SuperReturn Africa” em Cape Town, na África do Sul, um dos maiores encontros do continente para empresas de capital de risco e capital privado, hedge funds, fundo de fundos (fund of funds), entre outros.

Ao participar pela primeira vez no evento de uma comunidade que parece ser bastante restrita no continente, consegui notar algumas coisas sobre os negócios em África.

Nenhum país de língua lusófona marcou presença
A menos que me tenha escapado alguém, acho que não encontrei nenhum orador ou participante com origem num país de língua lusófona. Questionei-me: Será que a campanha de marketing do SuperReturn não chegou a Angola, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe?

A resposta é mais complexa que isso, mas no geral consigo destacar dois motivos. Primeiro a existência de uma barreira linguística que ainda não foi possível derrubar. A África lusófona, de uma maneira geral, fala pouco inglês. Em segundo lugar, as ex-colónias portuguesas continuam a ver Lisboa como um bilhete de ouro. E não é que tenham o foco voltado para a Europa, é quase exclusivamente para Portugal. Como um investidor me disse durante o evento, e com razão, os gestores de fundos e investidores angolanos não estão no SuperReturn, mas provavelmente estariam numa conferência equivalente realizada em Lisboa.

A dimensão e o peso de África na economia global vs. o investimento que atrai
Recuperando as estatísticas que Jean-Marc Savi de Tove partilhou durante a sua participação num painel “Roadblocks and resolutions” com Sheila Kyarisiima, Adesuwa Kunbo Rhodes e Faridah Usman, o PIB de África e o da Índia têm praticamente o mesmo valor, cerca de 3 biliões de dólares, mas no ano passado a Índia investiu 70 mil milhões de dólares, enquanto que África investiu apenas 7 mil milhões. Como é que África está a produzir o mesmo produto interno bruto que a Índia investindo literalmente 10 vezes menos em si mesma?

Um dos motivos apontados ao facto de esse investimento não acontecer é a falta de união entre os países do continente. Como disse o académico guineense Carlos Lopes em entrevista ao Diário de Notícias, “se as pessoas soubessem que África é do tamanho dos Estados Unidos, da China, da Índia e da Europa Ocidental e do Japão juntos, as pessoas teriam uma outra imagem do continente em termos de diversidade”. O problema é que se trata de um conjunto de países “muito pequeninos do ponto de vista económico, à escala mundial, e, portanto, se não houver semblante de unidade para poder dar, digamos, estofo, para que esses países possam evoluir, desenvolver-se, negociar… é muito difícil”.

A dor de cabeça da saída
As empresas africanas que se tornam grandes ainda estão a cortejar a Europa e os EUA quando se trata de saídas. Quando se tornam grandes, já ninguém em casa as pode pagar. A Índia resolveu este problema e agora tem investidores domésticos que são suficientemente grandes para comprarem empresas de crescimento doméstico.

Se me perguntarem a mim, ou a muitos dos participantes da conferência, porque é que as coisas funcionam desta forma, muitos de nós não temos respostas, correções ou explicações para o problema. Mas como se costuma dizer, se quiserem resolver uma questão complexa, comecem por fazer a vocês próprios as perguntas certas.

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Clara Armand-Delille é fundadora da ThirdEyeMedia, uma agência de comunicação estratégica e de relações públicas para start-ups e empresas de capital de risco. A empresa apresenta um portefólio de projetos de sucesso que envolvem start-ups europeias e que consistem em... Ler Mais