História inspirada em factos reais e recentes. O João está a trabalhar há dois meses numa empresa e acabou de comunicar que iria sair.

Com 29 anos, formado numa boa escola e cheio de energia, tinha começado entusiasmado e até agradecido por ter tido esta oportunidade na “era COVID”! A sua expetativa era que ali iria aprender, crescer e, quem sabe, chegar rapidamente a um lugar de maior responsabilidade.

Mas agora a decisão era definitiva e quando falei com o João, para entender porque me dizia “Assim, não dá mais!”, as razões não me surpreenderam.

Começou por ser recebido com um rápido “Bem-vindo” no primeiro dia, dado por alguns colegas e passou a primeira semana a aguardar uma reunião com a sua chefia, que tardava em acontecer – falta de tempo, urgências a surgir a todo o momento e outras justificações perfeitamente compreensíveis, claro está… Ocupou o tempo a ver os movimentos dos colegas, a pedir-lhes alguma informação para ir lendo, a sugerir ir a uma ou outra reunião quando se apercebia que estas iam acontecendo. E reuniu com os Recursos Humanos para tratar da “papelada”.

As semanas seguintes começaram esperançosas: reuniu finalmente com a sua chefia, que lhe falou da empresa, da área onde tinha sido integrado, apresentou-o à equipa e disse-lhe para ir vendo com eles o trabalho que ali se fazia. Falariam depois, com mais tempo, noutro dia. Mas os dias foram passando e as únicas vezes que interagiam era quando a chefia passava a correr pelo posto de trabalho do João e lhe perguntava “Então, tudo bem? Ainda gosta de cá estar?”, com um humor a que o João respondia acenando positivamente com a cabeça, até porque não tinha “tempo de antena” da chefia para mais conversa.

Percebendo que o chefe era muito ocupado, o João tentou aproximar-se dos colegas e com eles ir percebendo a empresa e como poderia contribuir. Várias vezes tentou falar com o chefe, que “tem sempre a porta aberta”, enviou emails, tentou discutir algumas ideias que lhe iam surgindo, mas sempre sem sucesso. Falta de tempo, urgências a surgir a todo o momento e outras justificações perfeitamente compreensíveis, claro está…

O desânimo no final do dia de trabalho, a caminho de casa ia crescendo, mas o João foi dando razões a si próprio para continuar, para “aguentar” mais um pouco. No entanto, o “golpe fatal” acabou por chegar, quando o chefe marcou uma reunião com o João, com o objetivo de lhe dizer que esperava mais dele, que não estava a ver grande dinamismo da sua parte, que ele precisava mostrar mais trabalho e que tinha de “acordar para a vida”, caso quisesse chegar a algum lado naquela empresa.

O João ouviu tudo e, a caminho de casa, percebeu que o chefe tinha toda a razão: ele tinha de “acordar para a vida”! No dia seguinte, entregou a carta de demissão.

Saber receber um novo colaborador é fundamental, não só pela primeira impressão que transmite, como pelo impacto que tem no futuro desempenho e dedicação dessa pessoa. Recordo com um enorme carinho que quando comecei a trabalhar numa das empresas a que me dediquei depois muitos anos, o presidente reunia comigo nos primeiros meses, de 15 em 15 dias, à roda de um café, colocando-se à minha disposição para tirar todas as dúvidas que me iam surgido. Eram verdadeiras aulas, que me foram fortalecendo enquanto profissional. E isto, sim, é saber receber um novo colaborador!

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Sobre o autor

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Isabel Viegas é professora na Universidade Católica e Membro do Conselho Estratégico da Formação de Executivos da FCEE da mesma universidade. Foi Diretora-Coordenadora de Recursos Humanos do Grupo Santander em Portugal, de 2003 a 2016, bem como Diretora de Recursos... Ler Mais