A afegã Zarifa Ghafari e o britânico Daniel Susskind partilham a sua visão do mundo no LSP 2021

A edição deste ano da Leadership Summit Portugal trouxe para a ordem do dia a reflexão sobre questões relacionadas com o planeta, humanidade e democracia.

A 5.ª edição da Leadership Summit Portugal foi dedicada ao tema “Back To Politics – Um novo rumo para o Planeta, para a Democracia e para a Humanidade” e reuniu, na última terça-feira, no Casino do Estoril, um painel diversificado de oradores nacionais e internacionais que partilharam experiências e a sua visão dos temas centrais do evento: planeta, humanidade e democracia.

Zarifa Ghafari, a afegã que foi a mais jovem presidente de Câmara no Afeganistão e que atualmente se encontra refugiada na Alemanha, foi uma das convidadas do período da manhã. Numa conversa com Ayumi Aoki, presidente da Women in Tech International, e com o tema “Ser mulher a líder no Afeganistão” como ponto de partida, Zarifa Ghafari falou da sua história de vida e analisou o estado atual do seu país.

“Não usamos armas, temos as nossas vozes” é o lema desta afegã que com apenas 26 anos foi a única, entre 127 homens, candidata às eleições autárquicas tornando-se na mais jovem presidente da Câmara do seu país. Ativista dos direitos humanos e da igualdade, em agosto deste ano conseguiu fugir para a Alemanha e tornou-se porta-voz do povo afegão, em particular das mulheres, as primeiras vítimas do regresso dos talibãs ao poder.

Em 2019, quando tomou posse, recebeu ameaças de morte. Em 2020, como represália, assassinaram o pai. “mataram-no para me fazerem desistir, mas eu não o vou fazer, tenho de continuar”, reforçou. Teve de fugir do país depois da tomada do poder pelos Talibãs. Hoje, percorre o mundo para obter apoios e lutar pelo direito à educação dos milhões de mulheres afegãs.

Zarifa Ghafari

Zarifa Ghafari explicou ao auditório da Leadership Summit que desde criança teve a perceção de as mulheres eram tratadas de maneira diferente. Para além disso, a temática do empoderamento das mulheres no Afeganistão “é algo usado para benefício pessoal de algumas organizações, como um negócio” e que na prática não corresponde ao real. Para se ser mulher naquele país é “preciso ter um coração mais forte do que os homens” e se quiser ter presença na sociedade é-se alvo de ataques e ameaças. “Facilmente podemos perder a nossa vida”, afirma, “se sairmos de nossa casa temos de trazer o caixão connosco”.

Reforçou a sua vontade de falar com os talibãs, de negociar com os mesmos homens que há pouco mais de um ano mataram o seu pai à porta de casa. É necessário aceitar a realidade de que tão cedo o governo talibã não irá abandonar o poder, e por isso, diz, “é importante falar com eles”. No Casino do Estoril lançou um pedido de ajuda pelas mulheres e pelas crianças que estão a viver no meio de uma guerra, convidando todos a aderir à petição que lançou no seu site.

Daniel Susskind e o futuro do trabalho
Num registo completamente diferente, coube a Daniel Susskind – fellow em Economia no Colégio Balliol, da Universidade de Oxford, onde desenvolve a atividade de professor e investigador, e autor dos livros “Um mundo sem trabalho” e “O futuro das profissões” – falar do futuro do trabalho na Era Covid-19.

Susskind tem-se dedicado ao estudo do impacto da tecnologia – em particular da inteligência artificial –, no contexto laboral e na sociedade, e na Leadership Summit falou acerca do futuro do mundo do trabalho e da disrupção tecnológica. E ficou patente na sua apresentação que não tem dúvidas de que a automação é atualmente responsável pela maior transformação a que assistimos no mundo do trabalho.

Daniel Susskind

A pandemia acelerou o que muitos até podiam considerar inimaginável, mas a mudança cultural está instalada e não haverá retorno ao modelo pré-pandemia, garante também o professor da Universidade de Oxford. A grande dúvida, agora, afirma é perceber que impacto terá no emprego o aumento da velocidade na automação, quando estiver resolvida a crise pandémica. Sobretudo, quando as empresas trocarem os apoios à manutenção dos postos de trabalho pelos incentivos à automação. Nos livros que já escreveu sobre este tema, Daniel Susskind defende que não depender de um ordenado não tem de ser uma tragédia. Pode ser sinónimo de progresso e liberdade pessoal. Mas é necessário preparar os trabalhadores para esta revolução tecnológica e nem todos estão a cumprir, nomeadamente ao nível do ensino.

“Uma das coisas pouco saudáveis que fazemos quando pensamos no futuro do trabalho, que de certa forma disfarça esta tecnologia disruptiva, é a tendência para falarmos nas diferenças entre o tipo de profissões. Falamos de advogados, médicos, professores, contabilistas, arquitetos e outros, e perguntamos qual destas profissões corre mais riscos com a automação. Nos próximos anos, será difícil que qualquer destas profissões desapareça”.

Na opinião de Susskind é muito mais provável uma alteração significativa do tipo de tarefas e atividades exigidas nestes empregos, mas não haverá mão-de-obra qualificada suficiente para manter todos empregados. “Estou preocupado que o trabalho mude ao ponto de deixar de ser acessível a uma parte dos trabalhadores e não haver procura suficiente para manter todos empregados e bem pagos”, frisou.

Neste momento, alertou, há claramente muita incerteza sobre o futuro. “As medidas para conter a pandemia, acabaram por piorar a situação económica. Os desafios com que temos sido confrontados nesta pandemia são exatamente aqueles que têm sido apontados por quem se preocupa com a automação. A minha esperança é que os últimos meses sirvam de lição, sobre o que correu bem e o que falhou, para respondermos melhor ao desafio da tecnologia, que nos espera no século XXI”.

Democracia e liderança
O dia foi marcado também pelas participações dos oradores como Ali Tabrizi, autor do documentário Seaspiracy da Netflix; Anabela Vaz Ribeiro, Executive Director da Global Compact Network; James Robey, Global Head of Environmental Sustainability na Capgemini; Mariana Pereira Silva, Head of Sustainability na Sonae MC; Jennifer Motles Svigilsky, Chief Sustainability Officer for Philip Morris International (PMI); Ziya Tong, jornalista do Daily Planet Discovery Channel e vice-presidente da Worldlife Fund Canada; Bal Gill, Employee Experience & Inclusion Director, na Capgemini; Patrícia Santos, CEO da Zome; Diogo Vieira da Silva, Curador Lisbon Hub Global Shapers World Economic Forum; Isabel Barros, Vice-Presidente CIP e Administradora Executiva Sonae MC;  José Miguel Leonardo, CEO da Randstad; Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal; Armando Cabral, fundador e diretor criativo da Armando Cabral; Michael Baum, Senior Fellow na University of California Berkely’s Institute for European Studies e professor Catedrático na Universidade Católica Portuguesa; António Saraiva, presidente da CIP; Ana Catarina Mendes, Deputada; Francisco Assis, presidente do Conselho Económico e Social; Adolfo Mesquita Nunes, Advogado; Carmo Palma, Managing Director na Axians; e Gouveia e Melo, Vice-Almirante e ex-coordenador da Task Force.

Coube a este último encerrar o dia de Leadership Summit onde deixou a mensagem de que a “liderança é um ato de exemplo, proximidade e camaradagem”.

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