Opinião

O “berro” e a ascenção do ”ideal extrovertido”

Mário Ceitil, formador e professor universitário
Foto: Mário Ceitil

Uma das tendências que parecem caracterizar o tempo em que vivemos é a assunção do “berro” como técnica legítima, e pressupostamente eficaz, de exercer influência.

Para comprovar esta ideia, basta-nos passar algum tempo a ver televisão e, todos os dias, invariavelmente, assistimos a “cenas” em que certos interlocutores exibem aquilo que parece ser um novo tipo de competências para influenciar, sob a forma de intervenções que, à semelhança de certas peças musicais, se caraterizam pelo aumento progressivo de decibéis nos seus timbres vocálicos, até chegar mesmo à sua expressão de maior ressonância: o “berro”.

De notar que a exibição das descargas de “adrenalina verbal” são, habitualmente, acompanhada por gestos, posturas e comportamentos,  cujas modelações fazem uma arquitetura coerente com os sons produzidos: expressões ameaçadoras, trejeitos de rejeição, invetivas violentas que, dependendo  da imaginação de cada um e da sua capacidade expressiva, têm, por conjunto, uma mesma, e só, finalidade: transmitir a ideia de que o outro interlocutor é um idiota, completamente desprovido de inteligência e cujos referenciais e argumentos são mais ou menos considerados como produtos de uma qualquer patologia mental.

Se bem que estas cenas sejam mais comuns entre políticos, que têm na Assembleia da República um espaço privilegiado para a exibição das suas capacidades histriónicas e da sua total incapacidade de escutar os outros, tal é a intensidade do ensurdecedor ruído dominante, é ainda mais preocupante quando esta mesma tendência para usar o “berro” como meio de comunicar e como técnica para influenciar, ou dominar, é extensiva a outros domínios da vida, designadamente na esfera pessoal e profissional.

O que é estranho, é que, por outro lado, vivemos numa época em que há uma grande insistência na importância da comunicação e da geração de empatia, competências que são recomendadas para toda a gente nas organizações e, em especial, para os seus líderes.

Apesar disso, se estivermos atentos a certos debates que surgem nas televisões, seja entre políticos, comentadores, jornalistas e líderes, não deixa de ser espantoso ver como é que certas “técnicas de manual “de comunicação, são violadas nesses debates de forma constante, sistemática e, o que é mais grave, declaradamente intencional. Em vez de empatia e capacidade de escuta, o que vemos é um quase destilar de ódio e uma preocupação obsessiva em calar e achincalhar os interlocutores.

Vejamos alguns exemplos:

Como é sabido, uma das técnicas de comunicação face-a-face que se aprendem nos cursos de formação sobre estes temas, é, tão somente, aquela coisa simples de “olhar para o outro”, manter o olhar, de forma natural e sem o “brilhozinho da reprovação, ou do desafio”, não interromper o interlocutor e apresentar as suas ideias de forma clara e, se possível, sem grande adjetivação.

Pois é tudo isto que…não acontece em certos (e muitos) debates, a tal ponto que, mesmo antes de começar, ou pelo menos logo no seu início, começamos a perceber qual é o posicionamento específico de cada interlocutor, apenas pela sua “pose”: como se senta, como olha para o interlocutor, a sua expressão facial, o “sorrisinho canalha” que oferece quando o interlocutor está a intervir, etc.

E se, logo ao princípio, o debate ainda começa de forma relativamente “civilizada”, esse “halo civilizacional” desaparece rapidamente, dando início a uma verdadeira “luta de galos”, onde apenas o que interessa é mostrar aos espectadores quem tem mais razão do seu lado.

Como, entretanto, o fluxo comunicacional se torna bastante abundante, e os decibéis começam a aumentar, sobrepondo-se uns aos outros numa cacofonia instrumental difícil de acompanhar para quem está de fora, o que fica é, muitas vezes, a “impressão” de um “vencedor” que apenas o parece ser,  pelo efeito de uma voz mais ensurdecedora do que as outras.

Ou seja, quem parece ter mais razão, é aquele que…” berra mais”.

O problema que se coloca é que estes homens e mulheres que nos representam nas instâncias institucionais e os comentadores e jornalistas que influenciam as mentes dos espetadores ou interlocutores, estão, quer queiramos, quer não, a” dar um exemplo”. A questão que se coloca é, concretamente, que tipo de exemplo é que estão a dar.

O que parece é que, apesar de vivermos numa sociedade cada vez mais polifacetada, caracterizada por uma explosão da diferença de pontos de vista e diversa na sua composição demográfica, onde seria expectável existir uma maior tolerância em relação a hábitos, posturas e credos diferentes, emergem cada vez mais fenómenos de rejeição do outro, que, nalguns casos, redundam mesmo em atos de violência, a uma escala cada vez maior.

E o “berro”, qualquer que seja a sua forma, é sempre uma manifestação de rejeição e intolerância em relação ao outro.

E, talvez pelos maus exemplos que vêm “de cima”, seja dos políticos, dos comentadores, dos influencers, das chefias, o que é facto é que parece que a cultura do berro é uma coisa que tem tendência a proliferar, até nas manifestações mais “banais” de, por exemplo,  refeições nos restaurantes, onde parece haver sempre gente que usa os decibéis exuberantes para demonstrar, seja pela sua alegria tonitruante, seja pelos ditos sardónicos sobre referência alheias, que são “o centro das atenções” e pouco se importam com o possível incómodo que geram nos outros.

É por isso que é de assinalar as contribuições de alguns autores, que têm escrito livros e textos de investigação sobre a importância do silêncio, num mundo que não para de falar (1).

É o caso de Susan Cain, que, no seu livro, “Silêncio”, assinala que o aumento do ruído nas interações humanas está relacionado com aquilo que designa como “a ascensão do Ideal Extrovertido”, um tipo de cultura que pretende “transformar todas as pessoas em vendedores capazes de vender não apenas a última novidade da sua empresa, mas também a eles próprios”. Este perfil, que deriva das novas condições de um mercado cada vez mais agressivo, configura um arquétipo de “um novo tipo de homem” que é um “vendedor, um operador social, alguém com um sorriso pronto, um poderoso aperto de mão e a capacidade de se dar bem com os colegas, ao mesmo tempo que os eclipsa.

Este novo tipo de homem, onde se valoriza a extroversão, a ca    pacidade de fazer de si próprio um espetáculo e a de ser tornar, em permanência, um “ser em representação”, inscreve-se num perfil decorrente daquilo que Cain assinala como “a Cultura da Personalidade”, cujos atributos são os de ser, ou não ser,” magnético, fascinante, espantoso, atraente, brilhante, dominador, vigoroso e enérgico”.

O problema destes atributos que, obviamente, não são sem si mesmos negativos, é que podem, por via das pressões de uma sociedade e de empresas muito competitivas, tornar-se, digamos, excessivos e darem lugar a modalidades mais extremadas de tentativas de dominação e a usar o “berro” e o insulto como manifestações mais perversas desse “Ideal Extrovertido”.

É preciso, por isso, e para evitar que estas manifestações perversas possam vir a tornar-se modalidades dominantes de interações social, fazer o contraponto com a “Cultura do Caráter” onde o “ser ideal é sério, disciplinado e honrado”. “Neste tipo de Cultura, “o que conta não é tanto a impressão que cada um causa no público, mas sim o modo como (cada pessoa) se comporta”. Ou seja, é uma Cultura em que, no que respeita à Liderança, não é só importante o Líder “estar líder”, mas sim, também “ser líder, sendo as suas práticas orientadas por valores como “cidadania, dever, trabalho, boas ações, honra, moral, boas maneiras, e integridade”.

É por isso uma Cultura onde não cabem os insultos como tática e os “berros” como forma dominante de comunicação.

Até porque, e para além do mais, nas interações humanas, “num mundo que não para de falar”, é e será sempre, o Carácter que “fala mais alto”.

Referências
CAIN, Susan, (2012). Silêncio – O Poder dos Introvertidos Num Mundo Que Não Para de Falar. Temas e Debates. Círculo de Leitores.

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Mário Ceitil

Mário Ceitil

Licenciado em Psicologia Social e das Organizações pelo ISPA, Mário Ceitil é consultor e formador na CEGOC desde 1981, tendo participado em vários projetos de intervenção, nos domínios da Psicologia das Organizações e da Gestão dos Recursos Humanos, em algumas das principais empresas e organizações, privadas e públicas, em Portugal e em países da África lusófona. Integrou, como consultor, equipas internacionais do grupo CEGOS, em projetos europeus. É professor universitário, desde 1981, nas áreas da Psicologia das Organizações e da... Ler Mais..

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