Opinião

Ensinar medicina quando “a IA já sabe responder”

Belén de Vicente, CEO da Medical Port

Nas minhas leituras matinais fiquei a pensar sobre o estudo da KFF tracking poll sobre o uso de chatbots de LLMs para questões de saúde (Fev – Mar 2026). A amostra inclui 1400 americanos.

Não é importante se o estudo é ou não representativo da nossa realidade, mas o pensamento que me provocou e que aqui partilho.
Os principais resultados são:

  • 32% dos adultos afirmaram ter u.lizado um chatbot de IA para obter aconselhamento ou informação sobre saúde no último ano.
  • 29% u.lizaram-no especificamente para questões de saúde física.
  • 13% fazem upload de informação de exames/testes/análises

A discussão acesa nas redes sociais, maioritariamente entre médicos, apresenta claramente dois lados opostos, os que acham que é natural que os pacientes consultem a IA e os que acham mal porque a informação que obtêm não é sempre confiável.

Mas a verdadeira discussão não é essa, até porque antes de haver IA já havia outros métodos para validar sintomas de saúde, desde as nossas avós e as suas receitas naturais (mezinhas), até ao Dr. Google na era da internet. Assim parece normal que na era da IA os pacientes usem chatbots para verificar sintomas.

Não encontrei nenhum estudo específico na Europa sobre este assunto, mas certamente a prática também estará a ganhar adesão. Na minha opinião há dois temas que é importante perceber:

porque recorremos a alternativas de pré-diagnóstico antes de ir ao médico
como deve mudar a educação médica neste novo modelo de funcionamento que veio para ficar: sintoma – LLM – decisão de ir ou não ao médico – ida ao médico (se aplicável).

Relativamente ao primeiro assunto, há vários motivos que saltam logo à vista:

acessibilidade – a demora no acesso aos cuidados de saúde faz com que procuremos alternativas. Ter um diagnóstico preliminar torna-se muito mais fácil e rápido.
preço – nem sempre se justifica pagar por uma consulta
curiosidade/ansiedade/necessidade de informação – tenho mesmo de ir ao médico?

Eventualmente vou acabar por ir ao médico, mas mesmo nesse caso há necessidade de ter acesso a mais informação para poder construir uma narrativa e discutir com ele e entender o que me vai ser dito. O gap de informação reduz-se, claramente.

O estudo também revela que a variável ter ou não seguro de saúde, não influencia a decisão de consultar o chatbot nas questões de saúde física. A variável mais determinante na utilização do chatbot é a idade (41% os adultos menores de 30, 28% os maiores de 65).

O futuro é claramente híbrido e saber ajustar as duas componentes é uma arte que vai fazer a diferença entre os prestadores e os profissionais de saúde, por isso o segundo tema, o ensino médico, tem de prever que isto vai acontecer. A minha opinião, baseada no conhecimento e experiência dos últimos 35 anos a trabalhar com instituições académicas, de saúde e com médicos, é que há três grandes temas a trabalhar para preparar os futuros médicos.

a) O elementar e incontornável: Aprender sobre IA
Entender como funcionam os modelos de IA, as suas limitações, como interpretar os dados, como perguntar, quando desconfiar dos resultados, como iden.ficar os enviesamentos (biases). Algumas faculdades de medicina já estão a incorporar estes temas nos seus programas.

b) O que não muda nem pode mudar: Humanidade e empatia, o saber cuidar.
Absolutamente essencial para saber escutar e ajudar pacientes
com informação e opinião sobre a sua saúde, que fazem questões e questionam a terapêutica.
que precisam de ser “tocados e olhados nos olhos”.
que precisam de compreensão.

Este aspeto deveria ser obrigatório no processo de seleção dos alunos para as licenciaturas e Mestrados integrados na área da saúde. Claro que estas componentesse trabalham, mas tem de exis.r uma base de par.da e tem de ser explicitamente abordados e treinados. Sempre foram, mas mais do que nunca estes factores serão diferenciadores na prestação de cuidados de saúde.

c) O que a IA exige: pensamento crítico e capacidade de decisão

Numa jornada híbrida onde o que a IA e o médico podem fazer é muito superior a cada uma das partes, o médico tem saber “ler” a informação , questionar e decidir o caminho a seguir. Para fazer isto tem de exis.r um conhecimento profundo. A questão que se me coloca, é como é que as novas gerações vão conseguir adquirir esse conhecimento tão lato e consolidá-lo durante a formação médica. Antigamente adquiria-se ao longo da vida, agora esta aprendizagem e criação da base de conhecimento e experiências tem de ser muito mais rápida.

Os programas devem privilegiar:

  • aprendizagem baseada em casos;
  • simulação clínica com modelos de vários tipos;
  • resolução de problemas complexos;
  • integração multidisciplinar (em equipa minimiza-se a necessidade de conhecimento mais alargada que é necessária à partida)

Surgem-me outras várias questões: vai ser necessário ensinar a pensar e avaliar como o médico constrói o seu raciocínio. Vai ser necessário mudar o acesso à universidade, porque enquanto as alíneas a) e c) se podem ensinar tecnicamente, a b) tem mesmo de existir ou ser ensinada explicitamente, a IA não consegue ainda tocar e olhar o paciente com humanidade e empatia.

Vão ter de ser revistos os programas curriculares para funcionarem à volta de uma nova forma de estar perante o paciente. Vai ser necessário trabalhar em equipa com outras faculdades para criar multidisciplinaridade de forma natura.

Esta na altura de avançar já.

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Belén de Vicente

Belén de Vicente

Belén de Vicente é fundadora e diretora geral da Medical Port, a porta de entrada para cuidados médicos em Portugal, para quem vem de outros países. É também fundadora da Stuward Health. Foi diretora do MBA Lisbon, contando com mais de 20 anos de experiência em consultoria de gestão na Península Ibérica e na gestão de parcerias internacionais nos setores do Ensino Superior e da Saúde. É apaixonada por projetos desafiantes que envolvam transformações com pessoas e para pessoas.

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