Opinião

O ROI da Inteligência Artificial

Pedro Celeste, diretor-geral da PC&A
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Nos primeiros anos da inteligência artificial generativa (IA), as empresas preocuparam-se sobretudo em experimentar, testar ferramentas e perceber onde a tecnologia poderia ser aplicada. Agora que a IA começa a assumir tarefas concretas e a entrar efetivamente nos processos de negócio, a questão mudou. Já não basta perguntar quanto custa utilizar a IA. A pergunta decisiva é outra: que valor está a gerar para o negócio e para o cliente?

Esta mudança de perspetiva é particularmente importante porque o custo de utilização dos modelos de IA tende a diminuir, fruto da forte concorrência e da evolução tecnológica. Ao mesmo tempo, o consumo aumenta, porque a tecnologia começa a ser utilizada em tarefas cada vez mais sofisticadas. Por isso, medir o custo de um modelo, de um agente ou do número de tokens utilizados diz pouco sobre o verdadeiro impacto da IA. O que verdadeiramente interessa saber é quanto custa realizar uma determinada atividade e, sobretudo, que resultado empresarial essa atividade é capaz de produzir.

É aqui que muitas organizações ainda estão a medir a IA de forma errada. Uma empresa pode ter um chatbot, um assistente de programação e vários agentes desenvolvidos pelas diferentes áreas do negócio e saber exatamente quanto está a pagar pelos respetivos consumos. Mas isso não significa que saiba quantificar o valor que está a obter. A tecnologia pode estar a ser utilizada intensivamente e, ainda assim, não estar a alterar nenhum dos indicadores estratégicos relevantes para o negócio.

A resposta está, por isso, muito mais centrada no marketing e na estratégia comercial do que na tecnologia. Imagine-se uma empresa que utiliza um agente de IA para preparar propostas comerciais. É possível medir o custo mensal da ferramenta, mas essa é apenas uma parte da equação. Será muito mais relevante saber quantas horas foram poupadas, quantas propostas adicionais puderam ser preparadas, se melhorou a qualidade da argumentação comercial, se diminuiu o número de erros e, sobretudo, se aumentou a taxa de conversão, o valor médio das propostas ou a margem obtida.

A mesma lógica pode ser aplicada à gestão da relação com o cliente. Se a IA permite analisar dados de comportamento, antecipar necessidades e personalizar uma proposta, o seu valor não está no número de interações automatizadas. Está na capacidade de aumentar a relevância da oferta, melhorar a experiência, aumentar a satisfação e, em última análise, gerar mais retenção, frequência de compra ou valor do cliente ao longo do tempo.

No serviço ao cliente acontece o mesmo. Automatizar milhares de contactos só representa criação de valor se conseguirmos perceber o que mudou no negócio, como por exemplo, saber em quanto diminuiu o tempo de resposta, quanto baixou o custo de servir o cliente, em quanto melhorou o seu grau de satisfação ou quanto tempo foi libertado aos colaboradores para atividades onde a intervenção humana acrescenta mais valor. A questão não é, portanto, quantos contactos a IA consegue tratar, mas que impacto essa capacidade produz na experiência do cliente e na performance da empresa.

É neste ponto que a IA deixa de ser apenas uma ferramenta de eficiência e passa a ser uma questão de estratégia competitiva. A empresa que utiliza a IA apenas para reduzir custos pode conseguir uma vantagem temporária, ao passo que a empresa que a utiliza para compreender melhor o cliente, criar uma proposta de valor mais relevante, acelerar a resposta comercial ou desenvolver modelos de negócio que os concorrentes ainda não conseguem replicar está a construir uma vantagem potencialmente muito mais significativa.

Nesse sentido, esta perspetiva obriga também a repensar os KPIs associados à IA. Os indicadores técnicos continuam a ser importantes, mas devem estar ligados aos indicadores de marketing, vendas e negócio que realmente interessam. Uma melhoria na velocidade de resposta só é estratégica se contribuir para melhorar a conversão ou a satisfação. Uma redução do tempo de preparação de propostas só é relevante se permitir aumentar a capacidade comercial, melhorar a qualidade da oferta ou libertar recursos para oportunidades de maior valor.

Recordemos que o ROI (return on investment) é um indicador de gestão composto, porque resulta da relação entre o investimento realizado e os resultados que esse investimento é capaz de produzir. No caso da IA, esses resultados podem refletir-se na margem, nas receitas, na produtividade comercial, na retenção de clientes, na experiência ou na capacidade de crescimento.

É por isso que a pergunta “quanto custa a IA?” produz respostas insuficientes. A verdadeira questão estratégica é saber quanto valor estamos a criar com esse custo. Se uma empresa não consegue dizer qual é o indicador do negócio que a sua IA pretende mudar, talvez ainda não tenha uma estratégia de IA, mas apenas uma tecnologia à procura de uma utilidade.

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Pedro Celeste

Pedro Celeste

Doutorado em Gestão pela Universidade Complutense de Madrid. Diplomado pelo INSEAD, London Business School, Wharton School, University of Virginia, MIT Management Sloan Management School, Harvard Business School, Imperial College of London, Kellogg School of Management de Chicago e IESE Business School. Na Católica Lisbon School of Business & Economics é Diretor Académico dos Executive Master in Management e coordenador do Programa Avançado de Marketing para Executivos, do Programa de Gestão Comercial e Vendas, do Programa de Gestão em Marketing Digital... Ler Mais..

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