Opinião

Ligamos a IA. Desligamos o homem? E a liderança?

José Crespo de Carvalho, presidente do Iscte Executive Education
Foto: José Crespo de Carvalho, presidente do Iscte Executive Education

Leão XIV publicou a Magnifica Humanitas para lançar uma pergunta central: conseguiremos continuar humanos na era da inteligência artificial? Eu acrescentaria outra. Conseguiremos continuar líderes e a moldar lideranças?

A IA promete rapidez. Escala. Previsão. Eficiência. Decide antes de nós. Escreve por nós. Seleciona pessoas. Avalia desempenhos. Propõe despedimentos. Distribui oportunidades. E é precisamente por estes meandros que começa o perigo.

Um líder pode passar a gerir números e deixar de ver pessoas. Pode chamar racionalidade à distância. Pode achar que produtividade é medo. Pode designar transformação à destruição de vidas.

A encíclica é clara. Quando a técnica se torna o critério absoluto, a pessoa passa a ser tratada como um dado, uma peça ou uma mercadoria. Este é o ponto central. Não é a máquina que desumaniza sozinha. São os homens que a usam para não terem de olhar os outros nos olhos.

Liderar nunca foi apenas calcular. É decidir. Assumir. Ouvir. Proteger. Corrigir. Dar sentido. Reconhecer no outro alguém que não pode ser reduzido ao seu custo, à sua produtividade ou ao seu perfil digital.

A Magnifica Humanitas lembra que uma máquina não conhece compaixão, misericórdia, perdão ou esperança na mudança de uma pessoa. Por isso, decisões sobre trabalho, crédito, reputação ou acesso a oportunidades não podem ser entregues, de forma cega, a sistemas de inteligência automatizada.

Eu não temo uma IA demasiado inteligente. Antes pelo contrário. Temo, isso sim, líderes demasiado preguiçosos para pensar. Demasiado cobardes para decidir. Demasiado fascinados pela eficiência para perceber o sofrimento que provocam.

A responsabilidade não pode desaparecer dentro dos algoritmos. Alguém tem de responder. Explicar. Corrigir. Reparar. Leão XIV insiste na transparência, na prestação de contas e no controlo humano. Sem isso, a tecnologia transforma-se em poder sem rosto.

Também não aceito que se apresente o homem como uma versão defeituosa da máquina. Não mesmo. O limite humano não é uma avaria. É parte da nossa condição. Precisamos dos outros. Erramos. Aprendemos. Sofremos. Mudamos. A liderança nasce precisamente aí. Na relação. Na confiança. Na responsabilidade pelo outro. No cuidar do outro.

A encíclica rejeita a ideia de um homem “aperfeiçoado” ou ultrapassado pela tecnologia. Quando o ser humano passa a ser visto como matéria a otimizar, alguns tornam-se rapidamente menos úteis, menos desejáveis e menos dignos.

É por isso que precisamos de liderança humana. O líder da era IA deve dominar a tecnologia. Mas deve, sobretudo, impor-lhe limites.

Deve perguntar quem ganha. Quem perde. Quem fica invisível. Quem paga o preço. E quem responde quando tudo corre mal.

Leão XIV pede-nos que permaneçamos profundamente humanos. Nenhuma máquina poderá substituir essa humanidade. A liderança começa aqui. Quando colocamos a pessoa no centro. Não no discurso. Antes na decisão.

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José Crespo de Carvalho

José Crespo de Carvalho

Licenciado em Engenharia (Instituto Superior Técnico), MBA e PhD em Gestão (ISCTE-IUL), José Crespo de Carvalho tem formação em gestão, complementar, no INSEAD (França), no MIT (USA), na Stanford University (USA), na Cranfield University (UK), na RSM (HOL), na AIF (HOL) e no IE (SP). É professor catedrático do ISCTE-IUL, presidente da Comissão Executiva do ISCTE Executive Education e administrador da NEXPONOR. Foi diretor e administrador da formação de executivos da Nova SBE e professor catedrático da Nova SBE (Operations... Ler Mais..

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