Opinião
Quando os números mudam, muda a realidade?
Costuma dizer-se que existem três espécies de mentiras: as mentiras, as mentiras sagradas e as estatísticas. A frase atravessou gerações não porque as estatísticas mintam, mas porque existe uma tentação antiga, e profundamente humana, de lhes atribuir uma autoridade que nunca podem ter por inteiro.
Os números conferem conforto, disciplina e aparência de objetividade; por isso mesmo, tornam-se perigosos quando deixam de ser instrumentos de análise e passam a ser tratados como substitutos da realidade.
A estatística é uma fotografia em construção. Capta o mundo com os instrumentos disponíveis num determinado momento, mas raramente o revela em toda a sua extensão. À medida que surgem novos dados, mudam os contornos da imagem, corrigem-se sombras, redefinem-se proporções e aquilo que parecia nítido revela-se, afinal, uma aproximação conveniente. Não é apenas uma questão técnica. É uma questão de humildade perante a complexidade.
A história económica está cheia destas ironias. Muitas recessões só revelam a sua verdadeira dimensão quando já terminaram. Nos Estados Unidos, por exemplo, há evidência de que, em períodos recessivos, as primeiras estimativas do PIB tendem a subestimar a profundidade da contração, sendo posteriormente revistas à medida que a informação disponível se torna mais completa. A economia não piora no momento da revisão; simplesmente passamos a vê-la com menos nevoeiro.
Também entre nós, a recente revisão da população residente recorda essa mesma lição. Portugal não acordou mais pobre no dia em que o indicador foi revisto. As empresas não produziram menos riqueza, os salários não caíram durante a noite e os trabalhadores não se tornaram subitamente menos produtivos. O que mudou foi a forma de medir uma realidade que já existia antes de ser estatisticamente corrigida.
É precisamente aqui que começa o verdadeiro problema. Confundir uma estimativa com um facto absoluto é um erro de análise; construir grandes narrativas políticas sobre essa estimativa é um erro maior. Um número pode ser tecnicamente correto e, ainda assim, insuficiente para explicar a complexidade de uma economia. Pode iluminar uma parte do problema e, ao mesmo tempo, ocultar tudo o que fica fora do seu campo de visão.
Nenhum gestor responsável aprovaria um investimento estratégico com demonstrações financeiras incompletas, inventários incorretos ou previsões cuja fiabilidade desconhecesse. Sabe que a qualidade da decisão depende da qualidade da informação, mas também da capacidade de interpretar as suas limitações. A má informação raramente produz apenas más análises; produz más decisões, investimentos errados, prioridades distorcidas e uma falsa sensação de controlo.
Paradoxalmente, quando passamos da gestão de uma empresa para a gestão de um país, essa prudência parece evaporar-se. O debate público vive cada vez mais refém do culto do indicador único. Um décimo de crescimento do PIB, um ponto percentual na dívida pública, uma taxa de desemprego ou um rácio de produtividade transformam-se em matéria suficiente para decretar sucessos, fracassos ou mudanças de rumo. É a economia reduzida a marcador desportivo.
Mas um rácio continua a ser apenas uma fração. O PIB per capita não é mais do que a riqueza produzida dividida pela população. Os rácios são instrumentos poderosos porque condensam informação complexa numa leitura simples. Mas são excelentes indicadores apenas até ao momento em que um dos lados da fração está mal medido. Nesse instante, muda o indicador, muda a narrativa e, para muitos, muda até a perceção da realidade.
Só que a realidade não muda porque mudou uma folha de cálculo.
Os números são indispensáveis para governar, como são indispensáveis para gerir uma empresa. Sem dados, a decisão transforma-se num exercício de intuição; sem informação rigorosa, a gestão torna-se refém da perceção, da conveniência ou da ideologia. Mas governar apenas pelos números é tão perigoso como gerir uma empresa olhando apenas para uma linha da demonstração de resultados: pode oferecer uma narrativa simples, elegante e aparentemente objetiva, mas dificilmente permite compreender a realidade na sua complexidade.
A boa gestão começa nos dados, mas a boa decisão começa quando compreendemos as suas limitações. Talvez a maior mentira das estatísticas nunca tenha estado nas estatísticas. Está na nossa convicção de que um número, por si só, consegue explicar a complexidade de uma economia, substituir o juízo crítico e dispensar a difícil tarefa de pensar.








