Opinião

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João Sevilhano, Estratégia & Inovação na Way Beyond
Foto: João Sevilhano

Proponho-me reflectir sobre a forma e a intenção do meu uso de modelos de linguagem no que concerne à escrita. A preocupação que me move é simples de formular e difícil de resolver: receio estar a sofrer as consequências negativas do que critico nos textos que tenho publicado.

Ao usar estas ferramentas, há vezes que tenho a sensação — mais medo do que outra coisa — de que não sou eu quem escreve e, pior, não serei eu quem sequer tem as ideias.

Não se trata, a meu ver, de uma questão de direitos de autor mas de concepção existencial. Não é o plágio nem a originalidade que estão na primeira linha de preocupação. É, antes, a mistura entre autoria e autoridade perante as putativas ideias. Questiono-me, portanto, sobre a autoria das minhas próprias ideias — e a palavra “minhas”, nesta frase, já duvida de si mesma.

Recentemente, a pedido da minha equipa, a preparação de uma pequena oficina sobre o tema fez-me reler o que tenho escrito. Foi uma revisita da forma como uso estes sistemas. As leituras, as conversas e as minhas incessantes e inúteis reflexões deixaram-me mais atento à minha própria prática — e, em particular, à escrita.

Uma linha de pensamento leva-me a considerar que estarei, por vezes, a delegar “apenas” a tarefa de escrita: oriento bastante os sistemas a partir de ideias minhas, proporciono-lhes acesso a coisas que já escrevi, e não aceito de forma cega os resultados que produzem. Dedico tempo a rever e a editar. Mas e se não estiver apenas a delegar o que julgo? E se for a atenção, a presença — cuja qualidade tem repercussões na capacidade associativa e na memória, para não mencionar a qualidade das relações, quando outras pessoas estão envolvidas — que estiver a ceder?

Preocupa-me estar a tornar-me cada vez mais num editor e, de forma consequente e progressiva, menos num escritor. É trabalho na mesma — implica esforço, atenção e dedicação —, mas não é o mesmo tipo de trabalho.

Escrever é, tantas vezes, o encontro com os bloqueios, com as falhas e as lacunas do meu raciocínio, e com o natural desafio de traduzir sentimentos em palavras que contenham profundidade e abrangência, mas que sejam simples de ler e de entender. Melhor ainda se ficarem nos pensamentos de quem lê e se a memória desses tiver espaço e interesse para os salvar do esquecimento ou, pior, da indiferença. Um escritor pensa para criar algo que julga ser original, nem que seja um ponto de vista; pensa para comunicar, para partilhar aquilo que lhe parece digno de ser pensado por outrem; pensa para entender melhor o que lhe aparece complexo, para atribuir e partilhar sentido. Claro que há outras razões: motivações narcísicas, exibicionistas ou transaccionais.

Um editor não parte do nada. Parte do que já existe — e o seu trabalho é melhorá-lo. Para tal, tem de juntar reconhecimento e crítica ao acto criativo e à criação em si. Será esta uma forma de criatividade? Parece-me que sim. Mas não é gémea, nem sequer irmã, da criatividade-escrita. A criatividade-edição é prima, porventura.

É para mim óbvio que usar estes sistemas representa uma forma de evitar o desconforto da página em branco, mas também outro tipo de desconforto: o que resulta da dúvida sobre a qualidade do que se criou. Apanho-me a procurar justificações — o cansaço, as circunstâncias, a falta de tempo para pensar — e a censurar-me por estar a listar desculpas em vez de enfrentar a questão.

O que me ocupa a seguir são as prováveis consequências. Estará a minha capacidade de abstracção comprometida? Estará a ser ampliada? Estarei a ser preguiçoso — no sentido de não querer despender a energia que trará frutos a médio e longo prazos? Estarei a ser eficiente na forma como gasto a minha atenção, ou estarei a confundir eficiência com economia?

Sinto estas dúvidas no momento em que escrevo estas palavras — e esta frase, pelo menos, sei que é minha.

Tornar-nos-emos cada vez mais editores? Há quem acredite ou deseje que essa seja a realidade próxima. Se tal acontecer, serão as máquinas a escrever por nós? E se forem, de onde virão as ideias? Antes disso, quanto tempo estaremos dispostos a esperar até a nossa tendência natural para a economia de energia tomar conta do discernimento, do gosto, do orgulho — e do risco — da autoria?

Por ora, contento-me com o exercício de continuar a escrever, sem ajuda de modelos de linguagem além do que tenho em mim. E com a subsequente tarefa de rever e de editar o que acabei de escrever, sem me esquecer de esperar um pouco, de dar tempo e distância entre os dois tipos de criatividade.

O uso dos modelos de linguagem não-humanos dá-nos distância, ou pelo menos a sua ilusão. Resta saber do que poderemos ficar mais perto.

Este texto foi escrito originalmente em português, sem recurso a modelos de linguagem. Apesar disso, foi publicado primeiro na sua adaptação inglesa — em The Useful Uselessness, a 4 de Abril de 2026, sob o título “writer-editor-writer” (useful-uselessness.com/writer-editor-writer) —, cuja produção já contou com a ajuda desses modelos. O que encena, mais do que resolve, a tensão aqui descrita.

Baseado em Escrita, pensamento e LLM
Publicado em inglês writer-editor-writer

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João Sevilhano

João Sevilhano

É licenciado em Psicologia Aplicada, área de Psicologia Clínica. Exerceu funções em instituições de saúde na área da Psicologia Clínica. Trabalhou igualmente como técnico de recursos humanos passando por vários departamentos onde se destacam as atividades de criação e implementação de programas formativos, counseling de gestores e equipas e a gestão de R.H (SONAE Distribuição). Desenvolveu a sua atividade na Escola Europeia de Coaching (EEC), agora Way Beyond, onde foi sócio-gerente, director pedagógico, coach e facilitador. Na Way Beyond é... Ler Mais..

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