Opinião
escritor-editor-escritor
Proponho-me reflectir sobre a forma e a intenção do meu uso de modelos de linguagem no que concerne à escrita. A preocupação que me move é simples de formular e difícil de resolver: receio estar a sofrer as consequências negativas do que critico nos textos que tenho publicado.
Ao usar estas ferramentas, há vezes que tenho a sensação — mais medo do que outra coisa — de que não sou eu quem escreve e, pior, não serei eu quem sequer tem as ideias.
Não se trata, a meu ver, de uma questão de direitos de autor mas de concepção existencial. Não é o plágio nem a originalidade que estão na primeira linha de preocupação. É, antes, a mistura entre autoria e autoridade perante as putativas ideias. Questiono-me, portanto, sobre a autoria das minhas próprias ideias — e a palavra “minhas”, nesta frase, já duvida de si mesma.
Recentemente, a pedido da minha equipa, a preparação de uma pequena oficina sobre o tema fez-me reler o que tenho escrito. Foi uma revisita da forma como uso estes sistemas. As leituras, as conversas e as minhas incessantes e inúteis reflexões deixaram-me mais atento à minha própria prática — e, em particular, à escrita.
Uma linha de pensamento leva-me a considerar que estarei, por vezes, a delegar “apenas” a tarefa de escrita: oriento bastante os sistemas a partir de ideias minhas, proporciono-lhes acesso a coisas que já escrevi, e não aceito de forma cega os resultados que produzem. Dedico tempo a rever e a editar. Mas e se não estiver apenas a delegar o que julgo? E se for a atenção, a presença — cuja qualidade tem repercussões na capacidade associativa e na memória, para não mencionar a qualidade das relações, quando outras pessoas estão envolvidas — que estiver a ceder?
Preocupa-me estar a tornar-me cada vez mais num editor e, de forma consequente e progressiva, menos num escritor. É trabalho na mesma — implica esforço, atenção e dedicação —, mas não é o mesmo tipo de trabalho.
Escrever é, tantas vezes, o encontro com os bloqueios, com as falhas e as lacunas do meu raciocínio, e com o natural desafio de traduzir sentimentos em palavras que contenham profundidade e abrangência, mas que sejam simples de ler e de entender. Melhor ainda se ficarem nos pensamentos de quem lê e se a memória desses tiver espaço e interesse para os salvar do esquecimento ou, pior, da indiferença. Um escritor pensa para criar algo que julga ser original, nem que seja um ponto de vista; pensa para comunicar, para partilhar aquilo que lhe parece digno de ser pensado por outrem; pensa para entender melhor o que lhe aparece complexo, para atribuir e partilhar sentido. Claro que há outras razões: motivações narcísicas, exibicionistas ou transaccionais.
Um editor não parte do nada. Parte do que já existe — e o seu trabalho é melhorá-lo. Para tal, tem de juntar reconhecimento e crítica ao acto criativo e à criação em si. Será esta uma forma de criatividade? Parece-me que sim. Mas não é gémea, nem sequer irmã, da criatividade-escrita. A criatividade-edição é prima, porventura.
É para mim óbvio que usar estes sistemas representa uma forma de evitar o desconforto da página em branco, mas também outro tipo de desconforto: o que resulta da dúvida sobre a qualidade do que se criou. Apanho-me a procurar justificações — o cansaço, as circunstâncias, a falta de tempo para pensar — e a censurar-me por estar a listar desculpas em vez de enfrentar a questão.
O que me ocupa a seguir são as prováveis consequências. Estará a minha capacidade de abstracção comprometida? Estará a ser ampliada? Estarei a ser preguiçoso — no sentido de não querer despender a energia que trará frutos a médio e longo prazos? Estarei a ser eficiente na forma como gasto a minha atenção, ou estarei a confundir eficiência com economia?
Sinto estas dúvidas no momento em que escrevo estas palavras — e esta frase, pelo menos, sei que é minha.
Tornar-nos-emos cada vez mais editores? Há quem acredite ou deseje que essa seja a realidade próxima. Se tal acontecer, serão as máquinas a escrever por nós? E se forem, de onde virão as ideias? Antes disso, quanto tempo estaremos dispostos a esperar até a nossa tendência natural para a economia de energia tomar conta do discernimento, do gosto, do orgulho — e do risco — da autoria?
Por ora, contento-me com o exercício de continuar a escrever, sem ajuda de modelos de linguagem além do que tenho em mim. E com a subsequente tarefa de rever e de editar o que acabei de escrever, sem me esquecer de esperar um pouco, de dar tempo e distância entre os dois tipos de criatividade.
O uso dos modelos de linguagem não-humanos dá-nos distância, ou pelo menos a sua ilusão. Resta saber do que poderemos ficar mais perto.
Este texto foi escrito originalmente em português, sem recurso a modelos de linguagem. Apesar disso, foi publicado primeiro na sua adaptação inglesa — em The Useful Uselessness, a 4 de Abril de 2026, sob o título “writer-editor-writer” (useful-uselessness.com/writer-editor-writer) —, cuja produção já contou com a ajuda desses modelos. O que encena, mais do que resolve, a tensão aqui descrita.
Baseado em Escrita, pensamento e LLM
Publicado em inglês writer-editor-writer








