Propósito, adaptação e coragem vão definir a liderança do futuro, defendem líderes
A capacidade de combinar tecnologia, pessoas e adaptação será decisiva para responder a um ritmo de mudança sem precedentes, defenderam líderes empresariais no Change Summit 2026, que decorreu em Lisboa.
A liderança do futuro será cada vez menos uma questão de controlo e cada vez mais uma capacidade de adaptação. Num contexto marcado pela aceleração tecnológica e pela transformação permanente das organizações, os líderes terão de tomar decisões rápidas, mobilizar equipas em cenários de incerteza e manter culturas fortes capazes de sustentar a mudança.
Estas foram algumas das principais conclusões do Change Summit 2026, que reuniu líderes empresariais e especialistas no Corinthia Lisbon, em Lisboa, para refletir sobre o futuro do trabalho, da liderança e da cultura organizacional. Sob o mote “Redefining Work, Leadership and Culture”, o encontro promoveu uma reflexão sobre a forma como as empresas podem redesenhar estruturas, processos e modelos de gestão para responder a um contexto em permanente transformação.
Na sessão de abertura, Carlos Sezões, managing partner da Darefy e promotor do evento, defendeu que a mudança deixou de ser um processo pontual para se tornar numa condição permanente das organizações. Recuperando uma reflexão de Jim Lovell – “Há pessoas que fazem as coisas acontecer, há pessoas que veem as coisas acontecer e há pessoas que se perguntam o que aconteceu” –, alertou para o risco de as empresas permanecerem presas à nostalgia de um passado aparentemente mais simples.
“Os líderes que estão a destacar-se são aqueles que conseguem navegar com sucesso na ambiguidade e na volatilidade”, afirmou Carlos Sezões.
Neste contexto, defendeu que os líderes já não podem assumir o papel tradicional de detentores de todas as respostas. “Os líderes que estão a destacar-se são aqueles que conseguem navegar com sucesso na ambiguidade e na volatilidade, fazem as perguntas certas para orientar as equipas, promovem a aprendizagem contínua e garantem consistência na execução”, frisou. Mais do que gestores do status quo serão os arquitetos da transformação, considerou.
A transformação começa nas pessoas e não na tecnologia
Apesar da crescente importância da tecnologia, a mudança continua a depender, sobretudo, das pessoas, da cultura e da capacidade de adaptação das empresas.
Céu Mendonça, que integra a equipa de liderança da Microsoft Portugal como Partner Development Manager (Enterprise) para a região da Europa do Sul, identificou o tempo como a maior pressão que atualmente se faz sentir na sua organização. A responsável destacou o ritmo acelerado da evolução da inteligência artificial e a necessidade de as empresas aprenderem e acompanharem esta transformação.
Alertou ainda para os riscos de uma adoção desorganizada da inteligência artificial, defendendo a necessidade de repensar processos, definir regras claras de utilização e preparar as pessoas para novas formas de trabalhar.
Já Sérgio Soares, CEO da Transdev, apontou a dimensão humana como o principal desafio da sua organização. Numa empresa onde oito em cada dez novos motoristas contratados são estrangeiros, a integração de equipas cada vez mais diversas tornou-se uma prioridade. Ao mesmo tempo, o aumento dos custos da habitação está a afastar trabalhadores dos locais de emprego, criando desafios para a mobilidade e para as lideranças.
Perante este contexto, defendeu estruturas mais próximas do terreno, capazes de responder às especificidades locais sem perder alinhamento estratégico, partilha de conhecimento e uma cultura comum.
Pedro Nazareth, CEO do Electrão, identificou o contexto regulatório como o principal fator de pressão sobre a organização. Num setor diretamente ligado à gestão de resíduos e à economia circular, a empresa é obrigada a adaptar-se continuamente a novas diretivas e regulamentos europeus, o que exige um acompanhamento permanente e uma capacidade constante de ajustamento. Para responder a este contexto, defendeu que a transformação organizacional vai muito além da adoção de tecnologia ou da revisão de processos.
Propósito e cultura são cada vez mais decisivos para reter talento
A cultura organizacional surgiu como um dos temas recorrentes ao longo do evento. Para Rui Paiva, Executive Advisor da Mobileum, a mudança deixou de ser uma etapa da vida das empresas para se tornar numa realidade permanente. Nesse contexto, a liderança deve garantir que a organização consegue evoluir sem perder identidade, alinhamento e capacidade de execução. “A cultura é a cola da organização”, referiu.
Na sua perspetiva, as empresas retêm talento quando conseguem criar um propósito claro, valores partilhados e uma cultura transparente que permita às pessoas identificarem-se genuinamente com o projeto organizacional.
Para Isabel Borgas, People & Organization director da NOS, a mudança sempre fez parte da realidade das organizações. O que distingue o contexto atual não é a sua existência, mas a velocidade a que ocorre.
Neste contexto, defendeu que o propósito assume um papel central na liderança e na capacidade de mobilizar equipas. Ao mesmo tempo, considerou que os líderes terão cada vez menos tempo para analisar exaustivamente todas as variáveis antes de decidir.
Na sua perspetiva, competências como a coragem, a capacidade de assumir riscos e a confiança na própria intuição tornar-se-ão cada vez mais relevantes. “A intuição não deve ser vista como o oposto da racionalidade, mas como um complemento essencial à análise, sobretudo quando as organizações enfrentam situações novas para as quais não existem fórmulas que permitam prever resultados com segurança”, explicou.
Gerir a incerteza tornou-se uma competência essencial da liderança
Miguel Leocádio, Executive Board Member da Glintt Global, defendeu que a liderança do futuro terá de assentar num propósito claro, numa comunicação transparente e na capacidade de preparar as organizações para um contexto profundamente marcado pela inteligência artificial. O responsável alertou ainda para uma transformação estrutural na relação entre pessoas e tecnologia, à medida que muitos profissionais passam a assumir funções de coordenação, validação e supervisão de sistemas inteligentes.
Defendeu também que os líderes do futuro terão de ser cada vez menos gestores de certezas e mais gestores de complexidade.
Por seu turno, Rita Fontinha, diretora do World of Work Institute da Henley Business School, defendeu que as transformações organizacionais devem ser introduzidas de forma gradual e acompanhadas por um forte trabalho de envolvimento das equipas. Com base na investigação que tem desenvolvido sobre flexibilidade laboral e nos projetos-piloto da semana de quatro dias, argumentou que mudanças profundas dificilmente terão sucesso quando são impostas às organizações ou aos trabalhadores.
A especialista sublinhou que modelos inovadores exigem uma adaptação dos processos, das práticas de gestão e da própria organização do trabalho. O sucesso, considerou, depende menos da mudança em si e mais da forma como esta é comunicada, implementada e apropriada pelas equipas.
A criatividade como motor da inovação
André Luís, cofundador e CEO da Trojan Horse Was a Unicorn, protagonizou uma das intervenções mais provocadoras do evento. Num painel intitulado “Creative Hub – How can Creativity Save the Corporate World?”, defendeu que a inovação nasce do encontro entre pessoas com percursos, competências e visões distintas, argumentando que os maiores avanços surgem quando se eliminam barreiras entre áreas de conhecimento e se criam comunidades capazes de reunir talento diverso em torno de problemas comuns.
Numa análise crítica à realidade portuguesa, alertou para aquilo que considera serem alguns dos principais bloqueios ao desenvolvimento e à inovação: “falta ambição, falta capacidade de decisão, as pessoas são lentas, são medrosas”, rematou André Luís.
O programa incluiu ainda o painel “Can Madness Drive Change?”, onde Catarina Gomes, do Manicómio – projeto que promove a inclusão social e profissional de artistas com experiência em doença mental –, sustentou que a inovação não nasce apenas da tecnologia ou dos processos, mas também da capacidade de questionar o que parece normal, criar alianças improváveis e transformar vulnerabilidades em fontes de criatividade e impacto social. Para a responsável, “a loucura pode ser um catalisador de mudança, de disrupção e também de esperança”.
Já nas notas de encerramento, sob o tema “Change, Communicate…and walk the talk!”, Mara Fontoura, CEO da The Agency, sublinhou que o principal desafio da inteligência artificial é humano e não tecnológico, defendendo que a diferenciação continuará a depender da inteligência emocional e da capacidade crítica das pessoas. “Num contexto em que toda a gente tem acesso à mesma inteligência artificial, a verdadeira diferenciação será a nossa inteligência emocional”, concluiu.







