Opinião

Liderança, marketing e estratégia: o problema começa quando deixamos de aprender

Pedro Celeste, diretor-geral da PC&A

Persiste a ideia de que liderança, marketing e estratégia são áreas separadas. Na prática, são dimensões inseparáveis da mesma realidade.

Uma empresa não consegue construir uma estratégia consistente sem liderança capaz de criar uma forte cultura empresarial e sentido de pertença. Não consegue ter liderança relevante sem compreender o mercado. E não consegue gerir o marketing de forma eficaz se continuar a reduzir o seu papel à comunicação.

Quando estas três dimensões deixam de estar alinhadas, instala-se um dos maiores desvios organizacionais da atualidade, e que consiste na perda de foco no cliente.

Curiosamente, poucas empresas assumem esta realidade de forma explícita, afirmando estar “centradas no cliente”. O problema é que quando se confunde intenção com prática e o foco incide, sobretudo, nos processos internos, estruturas hierárquicas, departamentos, métricas operacionais e dinâmicas políticas. O cliente transforma-se num conceito institucional, presente em apresentações e slogans, mas ausente das decisões reais.

É precisamente aqui que liderança e estratégia se encontram. Uma liderança madura não existe para proteger egos, defender zonas de conforto ou alimentar estatutos. Existe para garantir alinhamento entre cultura, mercado e propósito. E isso implica uma enorme capacidade de escuta, observação e aprendizagem contínua. Porque o mercado muda todos os dias, os clientes mudam todos os dias, bem como as expectativas.

O problema começa quando as empresas acreditam que já sabem demasiado. Muitas deixam de evoluir, não por falta de competência técnica, mas por excesso de certezas. A experiência, quando mal interpretada, cria arrogância estratégica e isso incita ao afastamento da realidade.

Por isso, a humildade tornou-se uma competência de gestão. Reconhecer o que não se sabe deveria ser um princípio orientador da liderança moderna. Não como sinal de fragilidade, mas como demonstração de inteligência e maturidade.

Esta humildade torna-se ainda mais importante quando se fala de marketing. Ainda hoje, em muitos casos, reduz-se o marketing à comunicação, às redes sociais ou às campanhas publicitárias. E esse é um dos maiores equívocos da gestão contemporânea. O real papel do marketing é muito mais profundo, assente na compreensão do mercado e focado na otimização de toda a relação entre a organização e os seus públicos.

Marketing significa compreender necessidades, comportamento, valor percebido, experiência, posicionamento, confiança, relação e decisão. Significa garantir coerência entre aquilo que a empresa promete e aquilo que efetivamente entrega. Significa perceber porque é que as pessoas escolhem, abandonam, recomendam ou ignoram uma marca. Quando o marketing é reduzido a comunicação, a empresa perde capacidade estratégica. Passa a preocupar-se mais com aquilo que diz do que com aquilo que realmente faz. E nenhuma campanha consegue compensar uma experiência pobre, uma cultura interna tóxica ou uma liderança desligada das pessoas.

Ora, isto exige liderança com valores claros. Liderança não é popularidade nem proximidade seletiva. Não é proteger quem gera mais afinidade pessoal. Liderança é respeito. É reconhecer mérito, conduta, profissionalismo e caráter. É valorizar quem trabalha bem, quem contribui, quem eleva a cultura da organização e quem demonstra brio naquilo que faz.

Um artigo recente da McKinsey & Company sobre o livro Critical Connections de Tracy Brower deixa uma ideia muito relevante para a liderança contemporânea. As organizações não falham apenas por falta de estratégia, tecnologia ou eficiência. Muitas vezes falham por ausência de ligação humana.

Talvez por isso continue tão atual uma frase repetida por uma figura muito respeitada do mundo empresarial “Não somos CEO’s, estamos CEO’s.” Esta premissa é válida para um CEO, para uma direção intermédia, para um coordenador ou para qualquer pessoa que tenha impacto sobre outras. Nenhum cargo é propriedade da identidade pessoal. Ele apenas lhe confia, durante algum tempo, a responsabilidade de servir a organização, as equipas e o mercado com competência e integridade.

No final, liderança, marketing e estratégia convergem no mesmo princípio: criar valor humano e relevância sustentável. As empresas que conseguem fazê-lo são normalmente aquelas que continuam disponíveis para aprender. Que não se deixam aprisionar pelas próprias certezas e que escutam mais do que proclamam. São aquelas que compreendem que a maior vantagem competitiva não está centrada exclusivamente na tecnologia, dimensão ou investimento, mas na capacidade de manter uma cultura de respeito, curiosidade e foco genuíno nas pessoas.

As organizações que deixam de aprender acabam, inevitavelmente, por deixar de compreender o mercado. E quando isso acontece, deixam lentamente de ser relevantes.

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Pedro Celeste

Pedro Celeste

Doutorado em Gestão pela Universidade Complutense de Madrid. Diplomado pelo INSEAD, London Business School, Wharton School, University of Virginia, MIT Management Sloan Management School, Harvard Business School, Imperial College of London, Kellogg School of Management de Chicago e IESE Business School. Na Católica Lisbon School of Business & Economics é Diretor Académico dos Executive Master in Management e coordenador do Programa Avançado de Marketing para Executivos, do Programa de Gestão Comercial e Vendas, do Programa de Gestão em Marketing Digital... Ler Mais..

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