Opinião

A corrida à GenAI vai bater na parede da qualidade

Eduardo Amaral, Quality Management, DevOps & Automation Senior Director da Noesis

A inteligência artificial generativa deixou de ser um tema experimental. Em poucos anos, passou de prova de conceito a prioridade estratégica, alimentando investimentos significativos, expectativas elevadas de produtividade e uma nova corrida à transformação empresarial.

Mas, à medida que a adoção acelera, torna-se evidente uma realidade menos confortável: muitas empresas estão a tentar escalar IA sem nunca terem conseguido escalar qualidade. Durante demasiado tempo, a qualidade foi tratada como uma etapa final do desenvolvimento aplicacional — um processo de validação técnica antes da entrada em produção. Num contexto dominado por GenAI, essa abordagem deixou de ser suficiente. Quando copilots, agentes autónomos e modelos generativos participam em processos críticos, a qualidade deixa de ser apenas uma preocupação operacional e passa a representar uma condição de confiança.

A questão já não está apenas na capacidade de gerar código, automatizar tarefas ou acelerar entregas. Está na capacidade de garantir que sistemas inteligentes continuam previsíveis, explicáveis, resilientes e governáveis à escala. E é precisamente aqui que muitas organizações enfrentam as suas maiores limitações.

Os dados confirmam-no. Segundo o estudo “Quality at Scale: Excellence in an App Centric World, 2025/2026 Edition” da IDC, apenas 37% do tempo das equipas de desenvolvimento é dedicado à criação de nova funcionalidade — o restante é consumido por tarefas manuais, debugging e integração de ferramentas. Numa era em que se fala de aceleração por IA, 64% das organizações EMEA ainda demoram até três semanas a responder a um simples pedido de mudança do negócio. A velocidade prometida pela IA contrasta, de forma reveladora, com a lentidão estrutural de quem a tenta adotar.

Estes números revelam problemas estruturais que antecedem a própria GenAI: arquiteturas fragmentadas, dívida técnica acumulada, processos manuais em excesso e modelos operacionais pouco preparados para ciclos contínuos de automação. A IA não elimina essas fragilidades. Em muitos casos, amplifica-as. Quanto maior a velocidade, maior o impacto potencial do erro.

É neste contexto que 2026 poderá representar um ponto de viragem. A nova fase de aplicação do AI Act europeu introduz exigências concretas de transparência, rastreabilidade, supervisão humana e gestão de risco, num momento em que muitas organizações ainda operam sem níveis consistentes de observabilidade ou governance. A conversa sobre IA começa, finalmente, a deslocar-se da experimentação para a disciplina operacional.

Esta mudança está também a transformar a forma como o mercado olha para quality engineering. O foco já não está apenas em testing tradicional ou deteção de falhas antes da produção. A qualidade passa a estar integrada ao longo de todo o ciclo de vida do software, desde o desenho da arquitetura até à monitorização contínua em ambientes reais. Validar comportamento, garantir consistência e aumentar previsibilidade tornam-se capacidades estratégicas num cenário onde sistemas inteligentes operam com níveis crescentes de autonomia.

É precisamente neste ponto que começa a emergir o conceito de Continuous Confidence Engineering. Mais do que automatizar testes ou acelerar pipelines, trata-se de construir mecanismos contínuos de validação, observabilidade, governance e resiliência ao longo de todo o SDLC. Num ecossistema dominado por GenAI, onde modelos evoluem, comportamentos variam e decisões passam a ser parcialmente autónomas, garantir confiança deixa de ser uma atividade pontual e transforma-se numa capacidade operacional contínua. O objetivo deixa de ser apenas entregar software rapidamente, passa a ser garantir que inovação, risco e previsibilidade conseguem coexistir à escala.

O mercado reconhece essa mudança. Segundo o mesmo estudo da IDC, Testing & QA são já das principais áreas de aplicação de GenAI (78%), precisamente porque as organizações perceberam que a vantagem competitiva não está apenas na geração de código, mas na capacidade de o testar, validar e governar continuamente.

O debate sobre retorno do investimento em IA reflete o mesmo dilema. Depois da fase inicial de entusiasmo, tornou-se claro que produtividade isolada não garante sustentabilidade. O verdadeiro desafio está em conseguir acelerar inovação sem comprometer estabilidade, compliance ou confiança operacional. Nesse contexto, o ROI da IA passa também a ser medido em resiliência, governance e capacidade de escala.

A diferenciação deixará de estar apenas na velocidade de adoção. Estará, sobretudo, na capacidade de construir ambientes onde velocidade e qualidade conseguem coexistir. Porque, num mercado onde a inovação se democratiza rapidamente, a confiança poderá tornar-se o ativo mais difícil de escalar.

A pergunta deixou de ser se devemos adotar GenAI. A pergunta agora é: estamos preparados para a escalar com qualidade?

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