Opinião

A frieza empresarial está a matar mais PME do que a falta de vendas

Rita Nunes, Country Manager da TAB Portugal

Há uns meses, numa reunião com um empresário, ouvi uma frase que infelizmente já ouvi dezenas de vezes em diferentes versões: “As pessoas já não querem trabalhar.”

A frase foi dita entre um suspiro cansado e uma folha de Excel aberta com indicadores de produtividade. A empresa tinha bons produtos, clientes sólidos e faturação estável. Mas havia um problema invisível a crescer dentro da organização: as pessoas estavam emocionalmente desligadas do negócio.

E isso nota-se sempre antes de aparecer nos números.

Nota-se na forma como os problemas deixam de ser antecipados. Na ausência de iniciativa. Naquela cultura silenciosa onde toda a gente faz apenas o suficiente para evitar conflito. A empresa continua a funcionar, mas perde velocidade. Perde energia. Perde alma.

O mais curioso é que muitas PME portuguesas continuam convencidas de que profissionalismo significa distância emocional. Ainda existe a ideia de que liderar é endurecer, que proximidade cria excesso de confiança e que demonstrar preocupação humana reduz autoridade. Durante anos fomos ensinados a separar “pessoas” de “trabalho”, como se empresas fossem máquinas e não organismos vivos compostos por relações.

Mas a realidade operacional mostra precisamente o contrário.

As empresas mais resilientes que conheço não são necessariamente as mais organizadas, nem as mais tecnológicas, nem sequer as que têm mais recursos financeiros. São as empresas onde existe confiança suficiente para alguém admitir um erro antes que ele se transforme num problema grave. São equipas onde as pessoas sentem que podem discordar sem medo, propor melhorias sem serem vistas como ameaça e assumir responsabilidade sem carregar constantemente a sensação de que são apenas mais uma peça facilmente substituível.

E talvez este seja um dos maiores erros estratégicos que muitas empresas continuam a cometer: desumanizar relações em nome da eficiência.

Criaram-se culturas empresariais onde tudo é KPI, performance, controlo e urgência permanente. Existem reuniões para analisar métricas, relatórios para medir produtividade e softwares para acompanhar cada movimento operacional. Mas raramente existe tempo para perceber o estado emocional das equipas, o desgaste acumulado ou o impacto humano das próprias lideranças.

Depois surgem as perguntas habituais:
“Porque é que ninguém veste a camisola?”
“Porque é que as pessoas não têm iniciativa?”
“Porque é que a equipa parece distante?”

A resposta costuma ser desconfortavelmente simples: porque durante demasiado tempo foram tratadas apenas como recursos e não como parte integrante da construção do negócio.

E importa esclarecer uma coisa. Humanizar relações não significa criar ambientes permissivos ou empresas sem exigência. Pelo contrário. As melhores culturas empresariais que conheço são altamente exigentes. Mas conseguem equilibrar clareza com respeito, responsabilidade com empatia e resultados com maturidade emocional.

Porque pessoas emocionalmente comprometidas fazem algo que nenhuma estratégia consegue substituir: importam-se genuinamente com o que estão a construir.

Antecipam problemas. Protegem clientes. Cuidam da reputação da empresa mesmo quando ninguém está a ver. E isso tem um impacto brutal no crescimento de qualquer PME.

Talvez esteja na altura de muitos empresários perceberem que cultura organizacional não é o que está escrito na parede da receção nem o discurso bonito do recrutamento. Cultura é aquilo que as pessoas sentem depois de desligar uma chamada com a liderança. É o comportamento que se tolera diariamente. É a forma como alguém é tratado quando falha.

No fim do dia, empresas não perdem apenas colaboradores. Perdem confiança, energia e ligação humana ao negócio. E uma empresa pode sobreviver algum tempo sem estratégia perfeita, sem branding extraordinário ou até sem processos totalmente afinados.

Mas dificilmente sobrevive muito tempo quando as pessoas deixam de se importar.

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