Entrevista/ “A maior riqueza é conseguir criar um ecossistema onde todos se complementam, catapultando a empresa para o nível seguinte”
“Mais de 90% dos gerentes de restaurante iniciaram o seu percurso como operadores e cerca de 40% dos colaboradores da sede da McDonald’s em Portugal iniciaram a sua carreira nos restaurantes e ocupam hoje lugares de destaque em várias áreas da empresa, quer em Portugal quer no estrangeiro”, afirma Sofia Mendoça, diretora de Recursos Humanos da McDonald’s Portugal.
Num mercado de trabalho cada vez mais competitivo, marcado pela escassez de talento e por novas expectativas das gerações mais jovens, as empresas são hoje desafiadas a repensar a forma como atraem, desenvolvem e retêm pessoas.
É neste contexto que a McDonald’s Portugal tem vindo a reforçar o seu posicionamento enquanto empregador, apostando numa proposta de valor centrada no desenvolvimento de competências, na formação de líderes e na criação de percursos profissionais sustentados. Com mais de 12 mil colaboradores em Portugal e uma forte presença nacional através do seu modelo de franchising, a marca assume-se como uma “escola para a vida”, onde muitos profissionais iniciam o seu percurso e evoluem para funções de gestão, liderança ou até para a comunidade de franchisados.
Em entrevista ao Link To Leaders, Sofia Mendoça, diretora de Recursos Humanos da McDonald’s Portugal, analisa os desafios atuais do mercado de trabalho, as expectativas das novas gerações e o papel da cultura organizacional na construção de compromisso, sentido de pertença e desenvolvimento de talento.
O mercado de trabalho enfrenta atualmente uma escassez de talento, sobretudo entre os mais jovens. Como caracteriza este momento e que desafios concretos traz para organizações como a McDonald’s?
Vivemos num contexto de baixa taxa de desemprego e de maior competitividade na oferta de emprego, especialmente junto das gerações mais jovens. Também os movimentos de imigração e emigração, trazem novos desafios, que necessariamente nos fazem reinventar, criando mecanismos de adaptação que possam responder a todas as necessidades – da empresa e dos colaboradores. O desafio continua a ser a atração de talento, mas também e, cada vez mais, garantir que conseguimos responder às suas expectativas e promover a sua retenção.
Na McDonald’s Portugal, este compromisso reflete-se na criação de condições de trabalho que promovam a aprendizagem e o crescimento contínuo, garantindo o bem-estar físico e emocional das nossas equipas, trabalhando a motivação, envolvimento e sentido de pertença. Só assim conseguimos ser consistentes na nossa proposta de valor enquanto empregador.
“O desafio maior neste momento é gerir os processos de transformação, num ambiente onde coexistem pelo menos três gerações, com posicionamentos e valorizações distintas”.
Que mudanças mais significativas identifica nas expectativas das novas gerações face ao trabalho?
As novas gerações chegam hoje ao mercado de trabalho com algumas expectativas diferentes das gerações anteriores. Sendo nativas digitais esperam ambientes de trabalho tecnologicamente mais evoluídos, com ferramentas, acessíveis e integradas no seu dia a dia. Gostam de ambientes muito dinâmicos, onde as coisas acontecem rapidamente, com interdependências mais digitais. Esta evolução obriga as empresas a estarem em constante adaptação para continuarem a ser relevantes e competitivas. O desafio maior neste momento é gerir os processos de transformação, num ambiente onde coexistem pelo menos três gerações, com posicionamentos e valorizações distintas. A maior riqueza é conseguir criar um ecossistema onde todos se complementam, catapultando a empresa para o nível seguinte.
A flexibilidade, o propósito e a progressão de carreira são hoje fatores críticos. Como é que estes elementos influenciam a vossa estratégia de atração?
Estes três fatores são, e sempre foram, estruturantes na nossa estratégia de atração e retenção de talento. Na McDonald’s Portugal, promovemos um ambiente de trabalho flexível e adaptado às diferentes realidades pessoais dos nossos colaboradores, com horários ajustados à sua disponibilidade. Esta flexibilidade permite conciliar a atividade profissional com os estudos ou outras atividades pessoais, tornando a experiência mais compatível com diferentes fases de vida. Em paralelo, proporcionamos um ambiente jovem, com um forte espírito de equipa e uma cultura de aprendizagem e desenvolvimento contínuo. Somos frequentemente reconhecidos como uma verdadeira escola para a vida.
Neste contexto, reforçamos a nossa proposta de valor através de um investimento consistente no desenvolvimento pessoal e profissional dos nossos colaboradores, que inclui planos de formação e progressão de carreira ajustados à experiência e ambição individuais. Complementamos este percurso com iniciativas de apoio à formação académica, como por exemplo, o acesso a bolsas de estudo para o ensino superior na área escolhida.
“Com maior acesso à informação e a um leque mais alargado de oportunidades, as novas gerações valorizam cada vez mais experiências que promovam o seu crescimento e bem-estar (…)”.
A McDonald’s tem vindo a reforçar o seu posicionamento enquanto empregador de referência. Quais são hoje os pilares dessa estratégia?
Face às mudanças que o mercado de trabalho tem vindo a registar nos últimos anos, observa-se uma evolução clara das expectativas das pessoas. Com maior acesso à informação e a um leque mais alargado de oportunidades, as novas gerações valorizam cada vez mais experiências que promovam o seu crescimento e bem-estar, em detrimento da ideia tradicional de um “emprego para a vida”.
Temos acompanhado esta evolução e temos vindo a adaptar as nossas metodologias e benefícios para responder a esta nova realidade. Enquanto um dos maiores empregadores do país, e operando através de um modelo de franchising, estruturamos a nossa atuação na área de Pessoas em três eixos fundamentais: o Emprego Responsável, que integra práticas de recrutamento, políticas de recursos humanos, benefícios e condições de trabalho; o Empowerment & Desenvolvimento, que inclui programas de formação, desenvolvimento de carreira, gestão de talento e iniciativas de reconhecimento; e a Inclusão, garantindo igualdade de acesso a oportunidades a todos os que nos procuram.
Como é que trabalham a vossa proposta de valor para colaboradores, especialmente junto de públicos mais jovens?
A nossa proposta de valor passa por garantir que as pessoas se sentem verdadeiramente motivadas na função que desempenham e estimuladas no seu desenvolvimento profissional. As pessoas são o nosso maior ativo e, ao mesmo tempo, os nossos melhores embaixadores pelo que, é fundamental que sintam que estão a viver uma experiência de trabalho positiva e que vai ao encontro das suas necessidades e aspirações pessoais e profissionais.
Este aspeto está refletido na nossa mais recente campanha de recrutamento, sob o mote “Se a vida não é só trabalho, escolhe o Mac”, onde destacamos precisamente o que os jovens de hoje mais valorizam – a flexibilidade de horários e a possibilidade de ter tempo para se fazer o que mais se gosta, bem como encontrar oportunidades de desenvolvimento.
Num setor com elevada rotatividade, como conseguem equilibrar atração com retenção?
O nosso foco passa por criar motivação e compromisso com a marca. Mais do que atrair, trabalhamos para envolver as nossas equipas, garantindo que se sentem valorizadas, reconhecidas e integradas no dia a dia dos restaurantes.
Promovemos um forte espírito de equipa e iniciativas que reforçam o sentido de pertença, como programas de reconhecimento, formação contínua e oportunidades de progressão dentro da organização. Estes fatores, aliados ao ambiente de trabalho e às condições que proporcionamos, são determinantes para a boa experiência dos nossos colaboradores.
“A formação é um dos nossos pilares estruturantes e, anualmente, proporcionamos cerca de 250 mil horas de formação (…)”.
A McDonald’s é frequentemente vista como uma “escola de formação”. Como estruturam o desenvolvimento de talento dentro da organização?
A formação é um dos nossos pilares estruturantes e, anualmente, proporcionamos cerca de 250 mil horas de formação, garantindo uma abordagem contínua ao desenvolvimento das equipas. Este investimento permite preparar os colaboradores não só para as funções que desempenham no dia-a-dia, mas também para assumirem novas responsabilidades ao longo do seu percurso.
Dispomos de um Centro de Formação próprio, com mais de 10 cursos em diferentes formatos — presencial, virtual e on the job — que permitem desenvolver competências técnicas, comportamentais e de liderança e que apoiam o percurso e desenvolvimento dos nossos colaboradores, nos diferentes momentos em que se encontram.
Que competências procuram desenvolver nos colaboradores desde os primeiros anos? Pode partilhar exemplos concretos de progressão interna dentro da empresa?
Desde o primeiro dia de cada colaborador num restaurante procuramos desenvolver competências essenciais como o trabalho em equipa, a responsabilidade, a comunicação, a proatividade e a orientação para o cliente.
A progressão interna é uma realidade muito expressiva na McDonald’s: mais de 90% dos gerentes de restaurante iniciaram o seu percurso como operadores e cerca de 40% dos colaboradores da Sede da McDonald’s em Portugal iniciaram a sua carreira nos restaurantes e ocupam hoje lugares de destaque em várias áreas da empresa, quer em Portugal quer no estrangeiro.
Temos atualmente diretores na McDonald’s em Portugal e fora do país, que começaram a sua carreira nos restaurantes. Também na nossa comunidade de franquiados temos vários casos de pessoas que iniciaram o seu percurso nos nossos restaurantes, fizeram carreira dentro da marca, em funções diversas, e hoje são franquiados da McDonald’s. Estes exemplos demonstram a existência de percursos reais de crescimento, suportados por formação contínua e planos de progressão ajustados à experiência e ambição de cada colaborador.
“Os colaboradores têm contacto direto com liderança de equipas, organização operacional e tomada de decisão, o que acelera o desenvolvimento de competências essenciais para funções de gestão”.
De que forma a gestão de equipas numerosas contribui para a formação de futuros líderes?
Cada restaurante funciona como uma estrutura operacional completa, com uma média de 50 colaboradores cada. Os colaboradores têm contacto direto com liderança de equipas, organização operacional e tomada de decisão, o que acelera o desenvolvimento de competências essenciais para funções de gestão. Ao mesmo tempo, promove capacidades como resiliência, comunicação e resolução de problemas, fundamentais para o desenvolvimento de futuros líderes.
Que tipo de liderança é hoje necessária para gerir equipas jovens, diversas e em constante mudança?
Acredito que hoje é necessária uma liderança próxima, humana e adaptável. Uma liderança que reconhece o esforço diário das equipas, que promova a comunicação clara e que constrói relações de confiança. Ao mesmo tempo, deve saber integrar a tecnologia como ferramenta de apoio à gestão e à eficiência dos processos.
Acima de tudo, é uma liderança alinhada com as expectativas das novas gerações, que valoriza o desenvolvimento contínuo e a motivação das equipas.
Como tem sido o seu percurso enquanto líder de recursos humanos na McDonald’s Portugal?
O meu percurso tem sido marcado pela convicção de que um negócio não se faz sem pessoas. Ao longo dos anos reforçámos a importância de investir no desenvolvimento, na qualificação e no bem-estar das equipas como fatores essenciais para o sucesso da organização. Esta visão tem sido determinante na forma como encaramos a gestão de talento e a construção da experiência do colaborador.
“Motiva-me o impacto real que conseguimos ter na vida das pessoas. É particularmente gratificante acompanhar o crescimento de colaboradores (…)”.
O que a motiva hoje enquanto líder?
Motiva-me o impacto real que conseguimos ter na vida das pessoas. É particularmente gratificante acompanhar o crescimento de colaboradores – tanto daqueles que evoluem connosco como dos que optarem por seguir uma carreira fora da McDonald’s – e ver como desenvolvem competências que os acompanham ao longo da sua vida e carreira.
Saber que contribuímos para esses percursos profissionais é um dos aspetos mais relevantes do meu papel enquanto diretora de Recursos Humanos da McDonald’s Portugal.
Como antecipa a evolução do mercado de trabalho nos próximos anos?
Para os próximos anos antevejo um mercado cada vez mais dinâmico, competitivo e tecnológico. A tecnologia terá um papel cada vez mais relevante na gestão de talento e na experiência do colaborador, tornando os processos mais ágeis e personalizados. As organizações terão de equilibrar tecnologia com proximidade humana para responder às novas exigências do mercado.
Que competências serão mais críticas para os jovens que hoje entram no mercado?
Serão fundamentais competências como comunicação e trabalho em equipa. Mais do que competências técnicas específicas, será valorizada a capacidade de comunicação, adaptação e aprendizagem contínua. Num contexto de mudança constante, estas competências serão determinantes para o sucesso profissional.








