Quando se ouvem com atenção os desejos para o ano que começa, não há quem não mencione a palavra SAÚDE. “Que tenhas um ano com saúde”, “A saúde é o mais importante, sem ela não temos nada”, “Eu só peço saúde”, etc.

Partilhamos todos da mesma opinião, a saúde é um bem essencial e sem a qual muitas outras coisas na vida deixam de ter a importância e a prioridade que tinham, e algumas, até perdem o sentido.

Mas se esta é uma ideia tão generalizada e consensual porque é que quando entramos no território das organizações, a saúde dos colaboradores deixa, em muitos casos, de ser uma prioridade? Muitas empresas ignoram o tema, outras apenas oferecem um rastreio de parâmetros básicos incluído numa ação de Segurança e Higiene no trabalho que apenas se foca nas componentes analíticas e numa conversa rápida de circunstância com um médico que, de acordo com a minha experiência, está sempre desmotivado no desempenho da sua função. Algumas contornam o tema oferecendo seguros de saúde como fringe benefits, sem entender que o que realmente é importante é a prevenção e não o tratamento.

Os principais aspetos que influenciam a saúde dos colaboradores em contexto empresarial estão essencialmente ligados ao tipo de trabalho e ao ambiente e cultura organizacional. Obviamente que as caraterísticas físicas e psicológicas do indivíduo tornarão o impacto destes fatores mais ou menos relevante.

Especificamente quando analisamos o trabalho realizado num escritório, os dois principais fatores que mais afetam a saúde dos colaboradores são o stress e os fatores ergonómicos. Estes são dois temas nos quais tenho vindo a trabalhar com várias empresas no âmbito de programas de promoção da saúde, e aos que dedicarei os próximos textos.

Em relação ao stress, o que não falta é evidência. Existem muitos dados quer na Europa quer na América do Norte que mostram a dimensão deste problema. De acordo com APA (American Psychological Association), 58% dos americanos reportaram em 2017 que o seu trabalho é uma fonte constante de stress. 40% dos britânicos admite que se sente demasiado stressado no seu dia a dia. A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho reporta periodicamente valores de stress laboral para todos os países europeus. Em 2016, em Portugal, a taxa de incidência de stress foi de 59%.

O stress pode despoletar patologias como o burn-out e a depressão, conhecidas doenças dos séculos XX e XXI que enchem os consultórios de psicólogos e psiquiatras e que têm custos estrondosos para as famílias, as empresas, o sistema da saúde e para a sociedade.

As principais fontes do stress no trabalho são, por ordem de relevância, o excesso de carga de trabalho, as relações interpessoais, o (des)equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal e a insegurança no trabalho.

Há dois tipos de empresas onde estes fatores são, do meu ponto de vista, e claramente influenciada pela minha experiência, extremamente importantes e carecem da nossa intervenção como gestores e como máximos responsáveis das empresas. São as start-ups e microempresas e os hospitais.

Em contexto de start-ups e de microempresas, é claro que as fontes de stress no trabalho tomam uma dimensão muito maior do que no caso de organizações maiores, mais estáveis e com mais meios. O empreendedor e a sua equipa, enebriados pela ideia, motivados pelas perspetivas de sucesso e condicionados pela necessidade de ganhar tração no curto prazo e escalabilidade no médio prazo, trabalham muito mais do que é considerado saudável e sem saber por quanto tempo deverão manter este nível. A pressão pelos resultados, o não saber lidar com o fracasso e a responsabilidade de garantir um salário mínimo à equipa e a si próprios fazem com que muitos empreendedores não saibam psicologicamente lidar com o stress.
Penso que poderemos trabalhar a dois níveis. Por um lado, assegurando que as decisões de empreender são tomadas com base num perfil adequado para estas iniciativas e não com base na necessidade ou na falta de alternativas profissionais. Por outro, incluindo na preparação dos empreendedores que é realizada nas incubadoras e nas entidades de apoio a empreendedores, onde é ensinado como se elabora um plano de negócios e como se faz um pitch, também outros conteúdos específicos sobre problemas específicos do empreendedor ao longo do seu percurso e dando acesso a recursos de apoio para que saibam identificar os momentos em que necessitam de pedir ajuda, quando e como têm de tomar a decisão de parar e fechar e como têm de ultrapassar os sentimentos de falhanço e torná-los em aprendizagem produtiva para o futuro.

No âmbito da saúde é natural que o stress dos profissionais de saúde que trabalham em contexto hospitalar seja o mais elevado dentro do setor dos serviços. Lidar com pessoas é sempre mais difícil do que lidar com equipamentos. No desempenho das suas funções, estes profissionais encontram níveis elevados de ansiedade nos seus colegas, nos pacientes e seus familiares, afinal lidam com as nossas vidas. O estigma das relações entre a classe médica e os restantes profissionais de saúde, o facto de alguns destes profissionais não terem contratos ou estes serem temporários, trabalharem por turnos e em vários locais diferentes para complementar o seu rendimento, gera mais insegurança, mais irritabilidade e consequentemente mais exposição ao stress.

A minha opinião é que devemos trabalhar ao nível das condições de trabalho em primeiro lugar, definindo formas de remuneração justas associadas aos objetivos organizacionais e reconhecendo a importância e o  desempenho de quem realiza a sua função com excelência. Devemos também proporcionar mais oportunidades de aprendizagem e de trabalho em equipas multidisciplinares, para quebrar barreiras profissionais e gerar reconhecimento das mais valias do trabalho em equipa onde todos contribuem com valor. Adicionalmente, da mesma maneira que existe de forma explícita o apoio psicológico a pacientes e familiares que lidam com situações complicadas, deveriam existir também recursos especializados onde os profissionais de saúde possam recorrer sempre que necessário, de forma natural, aberta e sem vergonhas, para encontrar ferramentas práticas para poder lidar de forma eficaz com o stress.

Se a saúde dos colaboradores é importante, vamos mostrá-lo de forma clara. Qualquer outra coisa é “wishful thinking”.

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Sobre o autor

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Belén de Vicente é fundadora e diretora geral da Medical Port, a porta de entrada para cuidados médicos em Portugal, para quem vem de outros países. Foi diretora do MBA Lisbon, contando com mais de 20 anos de experiência em... Ler Mais