Opinião
Manifesto ao comercial, ao líder de pessoas e ao recrutador: A tua humanidade não é escalável. Usa-a.
Esta carta é endereçada a ti. A ti, comercial, que persegues o KPI atrás de um ecrã ; a ti, líder, que geres pessoas como se fossem células de Excel e a ti, recrutador, que confias mais num algoritmo de filtragem do que no brilho de um olhar.
Escrevo isto com a autoridade de quem já viu grandes vendas serem erguidas num guardanapo de papel e fortunas serem desperdiçadas em subscrições de software de produtividade.
Que se acalmem os mais céticos: este não é um texto contra o digital ou contra o modelo híbrido. É um alerta contra a eficiência estéril, na qual o “comercial de pijama” acredita que um funil automatizado substitui a empatia e que um relatório de IA equivale a uma ligação real. O vosso LinkedIn está impecável, mas o negócio que move a economia continua a acontecer onde sempre aconteceu: onde estão as pessoas.
Não te deixes enganar pela ilusão de que a tecnologia te torna invencível. Criámos a fantasia de que o Zoom substitui a presença; na verdade, é apenas uma muleta para a nossa crescente preguiça social. A IA é um estagiário brilhante que limpa o lixo operacional em segundos. Mas o que estás a fazer com o tempo que ela te devolveu? Estás a agendar mais dez reuniões de câmara desligada onde ninguém está presente de verdade? Isso não é liderança; é “cosplay” de executivo.
Steve Jobs sabia que as ideias morriam em slides e nasciam no atrito dos corredores. Satya Nadella ensinou-nos que, na era da IA, o ativo mais escasso não é o código, é a empatia. Se a máquina faz o trabalho pesado de dados, a tua única função restante é seres humano. E ser humano exige presença.
Para o recrutador que se esconde atrás de filtros: estás a contratar currículos e a perder talentos. O caráter não se deteta num PDF asséptico; deteta-se na energia de uma conversa na qual o candidato não tem um guião ao lado da webcam. Para o líder de pessoas: a cultura não se cria por Slack. A cultura é o apoio silencioso numa crise que um emoji nunca vai substituir. Jensen Huang gere a Nvidia no terreno, sentindo a temperatura da inovação, não apenas o gráfico das vendas. O escritório não é uma gaiola, é o teu quartel-general.
O negócio de alto valor acontece na frequência emocional, não na fibra ótica. É naquele evento “seca” ou naquela conversa de café que se cruzam com quem vai mudar o vosso trimestre. É à mesa que se descobre a verdadeira dor do cliente. Tornámo-nos cómodos, viciados no ecrã que nos protege da rejeição. Mas a inovação não sobrevive ao isolamento. No terreno, o erro é uma oportunidade de co-criação em tempo real.
Se o teu plano de carreira é ser um processador de dados, prepara-te: a IA faz isso melhor e mais barato. O teu diferencial é a tua humanidade não-escalável. A tecnologia não é um convite ao isolamento, é um passaporte para a mobilidade. Usa a IA para despachares o operacional, mas estabelece a tua regra de ouro: Escritório para unir, Rua para vencer.
Se o teu sucesso depende de um ecrã, és substituível. Se depende da rua, és imparável.
Não esperes pelo próximo trimestre. Não esperes pelo fim da reunião. O futuro é uma abstração. O mercado é este momento. Larguem o Teams, fechem o portátil e vão ser humanos. Agora!
Carlos Jerónimo é CEO e fundador da Winning Scientific Management e Professor Assistente no ISCTE-IUL, onde dirige o Executive Master em Gestão de Programas e Projetos. Doutorado em Gestão pelo ISCTE e licenciado em Engenharia pela Universidade de Aveiro, alia a consultoria à academia, liderando projetos de transformação estratégica e digital person-driven, com foco em equipas, cultura e criação de valor sustentável. Certificado PMP®, ITIL e SAFe, conta com mais de 10.000 horas de ensino e é reconhecido pela sua dedicação à profissionalização da gestão e à evolução das organizações centradas nas pessoas.








