Opinião

Canibalismo Corporativo: Por que é que ‘fazer o trabalho do outro’ sai caro à empresa

Carlos Hernandez Jerónimo, fundador e CEO da Winning Scientific Management

Há frases que, de tanto se repetirem nos corredores das empresas, acabam por ganhar um estatuto de verdade absoluta que não merecem. Uma delas, talvez a mais perversa, é aquela que se pretende passar por pragmatismo de gestão: “Despeçam o fulano, deem-me o salário dele e eu faço o trabalho”.

É uma afirmação que escorre uma confiança sedutora, mas que, sob um olhar clínico, não passa de um grito de miopia estratégica envolto em testosterona produtiva. Propor isto é acreditar que um transatlântico navega melhor se atirarmos metade da tripulação borda fora para pedir ao capitão que, entre uma manobra e outra, vá também cozinhar o jantar e limpar as máquinas. O navio até pode andar, é certo. Mas a primeira tempestade encarregar-se-á de provar que a redundância não era gordura; era resiliência.

Digo isto muitas vezes aos meus alunos, entre um debate mais aceso e uma análise de caso: a gestão não é uma disciplina de ocupação de espaços, é uma disciplina de libertação de talentos. Quando vejo a nova geração a olhar para o organigrama como um tabuleiro de Monopólio, onde ganhar o salário do vizinho é o objetivo supremo, percebo que estamos a falhar na pedagogia do essencial. O erro reside em crer que uma organização é uma soma aritmética de tarefas. Não é. É um ecossistema de fluxos.

É exatamente como no futebol: nenhum treinador ganha campeonatos se pedir ao seu melhor médio-centro para cobrir também a zona do lateral-esquerdo só para poupar um salário no plantel. O jogador até pode ter pulmão para as duas zonas na primeira parte, mas acabará por chegar atrasado a ambas, deixando a equipa exposta e descompensada. Ou, pior ainda, imaginem a aberração estratégica de um treinador que decide ser também o guarda-redes para “otimizar custos”. No momento em que tem de olhar para o relvado todo e tomar decisões táticas, está preso entre os postes a olhar para a bola. O resultado é o caos operacional. A gestão de topo — a que pensa, não a que apenas corta — não quer gladiadores solitários; quer arquitetos de sistemas. Um colaborador que absorve o salário alheio torna-se um “buraco negro” de competências. A curto prazo, o balanço sorri. A médio prazo, a empresa cria uma dependência patológica. Se esse “super-homem” se lesiona, a estrutura não abana — desmorona-se.

Há uma dimensão quase biológica que estes “canibais da produtividade” ignoram: a lei dos rendimentos decrescentes. Um motor que trabalha constantemente no limite das rotações para compensar a ausência de um segundo motor acaba por fundir por fadiga de materiais. O “eu faço tudo” é o prelúdio do “eu não aguento mais”. O que o proponente desta ideia vende como lucro, o CEO avisado lê como um passivo tóxico. É o fim da simbiose. Numa orquestra, o primeiro violino não pede o salário do oboé para tocar as notas deste no seu intervalo; ele sabe que a harmonia nasce da diferença, não do vazio ocupado por um ego em expansão.

No final do dia, a empresa que aceita este pacto de Fausto está a assinar a sua própria falência na gestão de pessoas. Se há alguém na equipa que “não faz nada”, o problema não é do salário dele; é de quem lidera ou de quem não tem coragem para gerir.

Resolver ineficiência com acumulação é tentar curar uma anemia com uma sangria. Por isso, da próxima vez que ouvir esta pérola no seu escritório, pergunte ao proponente: quer o salário do colega para ser o dobro do que é hoje, ou apenas para disfarçar que já não sabe para onde crescer sozinho? Uma empresa de um (super) homem só será sempre uma empresa pequena.


Carlos Jerónimo é CEO e fundador da Winning Scientific Management e Professor Assistente no ISCTE-IUL, onde dirige o Executive Master em Gestão de Programas e Projetos. Doutorado em Gestão pelo ISCTE e licenciado em Engenharia pela Universidade de Aveiro, alia a consultoria à academia, liderando projetos de transformação estratégica e digital person-driven, com foco em equipas, cultura e criação de valor sustentável. Certificado PMP®, ITIL e SAFe, conta com mais de 10.000 horas de ensino e é reconhecido pela sua dedicação à profissionalização da gestão e à evolução das organizações centradas nas pessoas.

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