Ultrapassadas as dificuldades provocadas pela pandemia, a Unbabel vive “um momento fantástico” e promete um 2022 com muitas novidades revelou Vasco Pedro, fundador e CEO da empresa. Atingir o estatuto de unicórnio continua a ser uma meta que faz sentido no seu processo de expansão.

Especializada em software de tradução automática, a Unbabel continua a sua estratégia de inovação tecnológica e de expansão geográfica. No ano passado reforçou a sua atuação na América do Norte e contratou um diretor-geral e vice-presidente de vendas naquele mercado, integrou a lista das World’s Most Innovative Companies for 2020, da Fast Company, e lançou o Unbabel Portal, uma interface que permite um controlo mais eficaz das operações de tradução dos clientes. Sem entrar em detalhes o CEO da Unbabel revelou ao Link To Leaders que 2022 também será um ano de novidades. Também falou do equilíbrio entre a inteligência artificial e a vertente humana.

No início do ano dizia que vão chegar a unicórnio. Como está esse objetivo?
O nosso objetivo é criar uma empresa a nível global que tenha impacto e que resolva o problema que estamos a tentar resolver e, portanto, no caminho de criar essa empresa, passar por ser unicórnio acho que é uma meta, uma fase, que faz sentido. Não é em si próprio um objetivo. É como fazer um IPO, não é um objetivo, acho que faz parte do processo de uma empresa que chegue à dimensão que nós queremos chegar. Agora se vai ser este ano ou se vai ser para o ano….

“Vai haver uma série de novidades no próximo ano (…)”

Mas as coisas estão bem encaminhadas em termos de negócio, no sentido de estar a caminhar para aí?
Estão sim, sem dúvida. Tem sido um ano ótimo. Vai haver uma série de novidades no próximo ano, que infelizmente ainda não posso falar. Mas que estão a acontecer na Unbabel.

A entrada na Bolsa? Era outro dos vossos objetivos…
Ainda não, em 2022 não. Ainda temos uns aninhos.

Então são novidades ao nível de soluções?
A nível de soluções, a nível de expansão, a nível de planos para o futuro, há muita coisa a acontecer e de positivo. A pandemia teve fases difíceis para toda a gente, mas nós estamos num momento fantástico. Mesmo a nível de cultura, de motivação da empresa, toda a gente está a tentar lidar e a perceber quais são os novos modelos de trabalho. Tem sido um mundo interessante.

Mas ainda assim, como muitas outras empresas, em 2020 também passaram por um processo de despedimento de pessoas, viram os clientes a pararem os negócios. Como é lidaram com isso e como é que isso se refletiu no fecho do ano?
Foi uma decisão muito difícil, mas teve de ser feita. E foi a escolha certa porque nos pôs numa posição de voltar a crescer que é onde estamos agora e de voltar a aproveitar o momento que se está a começar a sentir e estarmos preparados para isso.

Foi uma reformulação muito grande a que tiveram de fazer em termos de equipa?
Um bocado, sim. Mas pronto, passou, acho que agora é pensar no futuro porque o futuro é bastante positivo.

“Toda a gente dentro das start-ups, que tipicamente são empresas digitais, acabou por beneficiar dessa transformação digital”.

E em termos dos vossos clientes, dos parceiros de negócio. 2020 foi um ano de terramoto para as empresas ou houve oportunidades?
Acho que houve de tudo. Senti, ao nível das empresas de que estou mais a par, que houve modelos de negócio novos que foram particularmente bem-sucedidos e, portanto, houve uma aceleração enorme. Houve outras que, de facto, tiveram imensas dificuldades, e houve empresas que estiveram algo no meio. E nós estivemos um bocado no meio. Tivemos algumas dificuldades no início, mas foi justamente necessário para lidar com a realidade da altura e agora, de facto, estamos bem e acabou por ser relativamente rápida a passagem para momentos outra vez bons. E é isso que estamos a sentir agora. E não somos só nós. Neste momento, todas as empresas de tecnologia que eu conheço em 2021 estão em ascensão.
O que acabou por acontecer foi uma aceleração enorme da transformação digital e isso é um bocado a “maré que sobe todos os barcos”. Toda a gente dentro das start-ups, que tipicamente são empresas digitais, acabou por beneficiar dessa transformação digital.

E na sua opinião essa transformação digital está a ser bem feita? Porque uma das críticas que se ouve muito atualmente é que as empresas estão a pensar no curto prazo, e não estão a fazer essa transformação a pensar num processo de longo prazo. Tem esse feeling das empresas, seus dos parceiros?
Não tenho tido esse feeling. O que nós temos sentido mais é que houve uma aceleração de planos que já existiam e de iniciativas que já estavam pensadas para daqui a X anos. Portanto, é no fundo uma aceleração de “long term thinking”, não parece tanto uma solução só de agora. Pelo menos não tem sido a nossa experiência.

Tem a ver com áreas de negócio.
Nós vivemos num segmento particular, onde há uma tendência de aceleração no geral e, portanto, há um aproveitamento deste tipo de novas vagas da tecnologia de uma maneira muito rápida.

O turismo continua a ser a vossa área principal ou ouve alguma reorganização?
Nos últimos dois anos, o setor da tecnologia foi onde nós crescemos mais. Empresas como a Logitech, a Microsoft foram empresas que também elas próprias cresceram e, portanto, com o crescimento delas vem o nosso crescimento também.

“Neste momento estamos bem capitalizados e, portanto, não há expectativa da nossa parte de voltar ao mercado antes do final do próximo ano”.

Como é que estão os vossos planos a nível de financiamento? Fizeram uma ronda no final de 2019 de 60 milhões. Alguma nova ronda no horizonte?
De imediato não. Neste momento estamos bem capitalizados e, portanto, não há expectativa da nossa parte de voltar ao mercado antes do final do próximo ano. Não é uma coisa iminente. Neste momento o nosso focus tem sido o crescimento de produto e, de facto, está muita coisa a acontecer a esse nível. Financiamento felizmente não tem sido prioridade.

E a aposta em produto, em internacionalização? Quais são os vossos horizontes a esse nível?
Acho que 2022 vai ser um ano de bastante expansão a nível de internacionalização da Unbabel. Já estamos com uma grande presença nos Estados Unidos e em alguns sítios na Europa e vamos continuar a ver essa progressão. Estou a começar a ver que há uma aceleração.

A internacionalização continua definitivamente no vosso foco?
Sim, e a próxima ronda de financiamento vai ser “growth”, vai ser a aceleração da expansão.

“Ásia tem sido um mercado a que estamos sempre atentos, que vamos explorando para quando for a altura estarmos prontos a atacar”.

Com algum mercado em especial?
Continuamos a ter imenso espaço para crescer nos Estados Unidos e na Europa. Ainda temos muito trabalho para fazer aí. Acho que quando nos expandirmos para a Ásia, o Japão parece um mercado muito interessante, mas não há planos concretos neste momento. A Ásia tem sido um mercado a que estamos sempre atentos, que vamos explorando para quando for a altura estarmos prontos a atacar.

Será uma expansão com recurso a parcerias locais, ou com a instalação da empresa…
Depende do país, ou seja, eu acho que quando expandirmos para o Japão vamos ter de ter um parceiro local, porque é muito difícil pela especificidade do mercado. Os dois países que neste momento, surgem constantemente, no radar do ponto de vista de barreiras de linguagem, são o Japão e o Brasil. Os brasileiros não falam inglês e é um mercado grande. Mas é um mercado turbulento, por isso não é fácil entrar, não é estável.

Quantas línguas têm atualmente?
32 neste momento.

Vão aumentar a oferta no próximo ano?            
Sim, mas o aumentar as línguas é muito costumer dependent, ou seja, neste momento já temos muito bem estabelecido o processo de como lançar uma nova língua, portanto, à medida que há necessidade no mercado nós avançamos. Mas pares de línguas temos 95 pares.

“No futuro, a maneira como as empresas vão lidar com problemas de linguagens, vai ter cada vez maior participação da inteligência artificial (…)”.

O vosso software tem uma componente tecnológica, mas também tem uma humana. Como é que se vai manter esta relação, o equilíbrio entre aquilo que é a inteligência artificial e aquilo que é o cunho humano no desenvolvimento do vosso produto?
No futuro, a maneira como as empresas vão lidar com problemas de linguagens, vai ter cada vez maior participação da inteligência artificial, ou seja, o impacto que a IA está a ter, a vários níveis, vai continuar a aumentar. O problema das barreiras de linguagem é muito grande e nós ainda estamos a resolver uma parte pequena, portanto, as tendências que estamos a ver é que, no geral, a inteligência artificial teve mais impacto, mas como o mercado é tão grande vai continuar sempre a ser preciso uma participação humana. Se calhar a percentagem de esforço humano para traduzir vai ser menor, mas o número de palavras vai aumentar tanto que vão ser precisos humanos à mesma.

“O que eu imagino é que o ser humano vai evoluir de fazer tarefas para ser o maestro de uma orquestra de inteligência artificial que faz tarefas”.

Vai sempre haver esse jogo…
Sim, porque a comunicação é uma coisa essencialmente humana e, portanto, é preciso ter um envolvimento humano, seja na prática, na comunicação em si, seja em treinar modelos, seja em retificar as tarefas. Vai sempre haver tarefas humanas no processo de comunicação. O que eu imagino é que o ser humano vai evoluir de fazer tarefas para ser o maestro de uma orquestra de inteligência artificial que faz tarefas.

“França passou a ter legislação de direito a ser esquecido, o que acho que faz todo o sentido (…)”.

Já que estamos a falar de inteligência artificial, no Web Summit a Daniela Braga [CEO da Defined.ai] falou da necessidade de haver fronteiras e barreiras na utilização da IA e das lacunas ao nível de legislação. Qual é a sua opinião sobre esta matéria?
Eu acho que a legislação é necessária, mas a legislação precisa de um debate sobre o problema e esse debate tem que ser baseado na existência de opções. O que é que quero dizer com isso? Hoje em dia, falamos da privacidade de informação, mas na internet atual não há o conceito de ser dono de informação, na prática a informação pode ser replicada infinitamente e não há maneira de perceber quem é o dono de.

Se eu tirar uma fotografia e copiar a fotografia, tenho duas fotografias exatamente iguais, não existe o conceito de esta é fotografia, esta é a cópia. E, portanto, é difícil ter uma legislação eficaz sobre as barreiras de inteligência artificial e o acesso à informação. Por exemplo, França passou a ter legislação de direito a ser esquecido, o que acho que faz todo o sentido, mas depois a implementação dessa legislação só é possível se houver tecnologia que permita que a pessoa possa de facto ser esquecida de uma maneira fácil.

Uma das coisas interessantes que está a acontecer, por exemplo, é com os NFT.  O que estes fazem é que permitem haver o conceito de propriedade de um bem digital e, no fundo, nós precisamos de ter propriedade, de ter controlo da nossa informação e poder ter uma discussão sobre o direito de ser esquecido. Ou seja, a discussão tem de existir, a legislação tem de existir, mas a tecnologia tem de acompanhar e permitir que isso depois aconteça.

Acho que, por outro lado, neste momento há discussão com o acesso à informação por inteligência artificial, mas não é muito diferente da discussão de há seis ou sete anos sobre o direito à privacidade nas redes sociais. Há o nosso direito à privacidade e o nosso direito ao anonimato. E uma das coisas que eu sempre senti (eu fazia muita investigação sobre redes sociais antes de começar a Unbabel, quando era investigador no Técnico), é que as pessoas perguntavam muito “então e o direito à privacidade?”

O direito à anonimidade é uma coisa relativamente recente nos seres humanos e que surge, no fundo, com a crise das grandes cidades, porque quando uma pessoa vive numa aldeia pequena toda a gente sabe tudo. Os seres humanos têm uma capacidade enorme de se adaptar às tecnologias. Nunca estivemos tão expostos ao controlo de informação, mas nunca foi tão fácil também criar perfis falsos, ter identidades paralelas, usar VPN… há toda uma tecnologia que cresce, ao mesmo tempo, do ponto de vista de facilitar a privacidade do indivíduo.

É um debate que existe há muito tempo, sob várias formas, mas até agora não houve nenhuma vez em que o ser humano não fosse capaz de encontrar maneiras de ter essa anonimização. É de facto uma discussão interessante.

Se calhar quando pensamos em Estados mais autoritários, por exemplo na China, e na falta de privacidade em alguns sítios, é de facto muito preocupante. Mas felizmente nos Estados democráticos está muito vivo o debate sobre o direito à privacidade e à anonimização e isso é depois expressado através da legislação. Por exemplo, nos Estados Unidos nota-se muito onde é que as pessoas estão a investir, e há muitos investidores a investir nas tecnologias para permitir a anonimização e a privacidade. Portanto, é uma corrida que continua a acontecer.

“Vai haver tecnologias que tornam mais fácil monitorizar alguém, mas também vai haver tecnologias que tornam mais fácil não ser monitorizado”.

A preocupação existe, é só uma questão de agora de passar à prática é isso?
Sim. Acho que não é um bicho papão. Acho que, sim, vai haver tecnologias que tornam mais fácil monitorizar alguém, mas também vai haver tecnologias que tornam mais fácil não ser monitorizado. O que isto faz, como toda a tecnologia, é democratizar o poder do indivíduo em relação a uma situação porque assim como vai haver IA que vai monitorizar, vai haver IA que vai aumentar as nossas capacidades de saber quando estamos a ser monitorizados e proteger a nossa privacidade.

É uma questão que não o aflige especialmente…
Não. Por exemplo, nós temos neste momento um grande problema com a imortalidade da informação quando se trata, sobretudo, de nós. Vê-se imenso TikToks e afins, miúdos e miúdas que se calhar fazem coisas que dali a 20 anos não se vão sentir muito confortáveis no ambiente de trabalho.

Acho que haver algo que nos permita dizer esta informação é minha e eu é que tenho direito de decidir o que faço com ela. Haver tecnologias, inteligência artificial, que digam “vai pesquisar tudo o que é a minha informação e tudo o que encontrares podes apagar”. Acho que é preciso essa literacia e continuar a ter as discussões e os debates, porque se pararmos de falar sobre as coisas é mau, mas a longo prazo isso leva à conjugação da legislação com o crescimento da tecnologia que permite executar essa legislação. Mas eu sou otimista.

E que tendências é que vê na inteligência artificial que possam ser benéficas para o vosso produto?
A nossa missão é criar “building understanding“. O que queremos é criar um mundo onde a linguagem não seja uma barreira, onde as pessoas, as empresas, possam comunicar. E a dimensão do problema é tão grande que tem de haver uma componente muito forte de inteligência artificial a permitir que isso aconteça.

Se fossemos dependentes de tradutores só para traduzir tudo o que precisamos, neste momento todos os tradutores do mundo nunca iam traduzir mais do que meio por cento do texto que precisa de ser traduzido. A dimensão do problema é enorme. Uma das grandes áreas que tem de ser resolvida é a questão do diálogo e vemos isso em agentes conversacionais. Aqui há uns anos devia ser tudo agentes conversacionais e depois percebeu-se que os chatbots funcionam relativamente bem em certas coisas, muito limitadas, mas que qualquer conversa com algo que seja powered by AI rapidamente fica limitada. Essa parte do diálogo hoje em dia, essencialmente a tecnologia que faz powered de agentes conversacionais, não é muito diferente de há 10/15 anos. Porquê? Porque a parte de análise semântica é muito difícil de resolver.

Há um trabalho novo que está a começar a acontecer que é a parte de deep learning based reasoning, ou seja, tivemos uma parte de AI simbólica e depois vou à parte estatística e à parte deep learning. E eu acho que a próxima fase vai ser voltar a combinar a parte simbólica com deep learning.

Porquê?
Porque temos um pensamento racional e metodológico, estruturado, cuja lógica é muito útil. Somos capazes de criar abstrações, temos uma experiência e depois conseguimos abstrair e aplicar isto numa outra série de outros sítios. Neste momento a inteligência artificial não consegue fazer isso, é uma tecnologia muito limitada.

Eu acho que as evoluções disto vão permitir que tenhamos capacidade de trabalhar o diálogo, o que permite que tenhamos muito mais acesso a agentes conversacionais que funcionem que precisam de se encontrar noutras línguas. E vão ser um impacto muito grande, por exemplo, no acesso da maior parte das pessoas aos serviços de apoio ao cliente.

O que vemos no mundo é que, hoje em dia, quem não fala inglês não tem acesso a uma série de recursos. E apesar de parecer que cada vez há mais que as pessoas falam inglês, isso não é completamente verdade. Há de facto mais pessoas a aprender inglês, mas muitas pessoas falam mal inglês, como “second language”. Vamos ao Japão e ninguém fala inglês, no Brasil ninguém fala inglês, cada vez há mais conteúdo nas línguas específicas. Portanto, a tendência não vai ser “vamos todos passar a falar uma língua”. Há toda esta parte de acesso à informação, que para isso acontecer a AI tem de avançar. Portanto, acho que há muitos avanços na parte de deep learning based reasoning, no diálogo, que nos vão ser benéficos.

Depois há toda uma parte de inteligência artificial que não tem haver com a língua. Há uma empresa que é a Cruze, que foi comprada pela General Motors, que tem estado a trabalhar em carros autónomos e, pela primeira vez, em São Francisco, fizeram um “ride” completamente autónomo. Ou seja, alguém chamou um carro, que estava sem ninguém, que veio a conduzir sozinho pelas ruas, apanhou-o, levou-o. É um bocado surreal ver o carro sem ninguém lá dentro, já não é ficção científica, numa cidade como São Francisco. É claro que foi às 3 da manhã, estava pouco trânsito, portanto ainda não é uma hora de ponta no Marquês de Pombal. Mas se calhar estamos a cinco anos de isto acontecer.

Imaginemos que esses carros fazem 20 vezes menos acidentes, que reagem 30 vezes mais rápido, não atropelam pessoas, não andam em excesso de velocidade. E claro que todas as revoluções tecnológicas têm coisas boas e coisas difíceis. Para os condutores da Uber isso é péssimo, para um taxista é péssimo, para muita gente isso é positivo.

“Há uma área em que estamos muito fascinados e que eu acho que vai ter um impacto enorme que é a parte de interfaces cérebro-máquina”.

Em termos de áreas, há alguma área em que ache que aquilo que vocês fazem pode aportar uma mais-valia interessante e que ainda não esteja a ser percebida pelas empresas, por exemplo?
Há uma área em que estamos muito fascinados e que eu acho que vai ter um impacto enorme que é a parte de interfaces cérebro-máquina. Isto está a ser explorado por empresas como a Neuralink, de Elon Musk. Quando falamos, falamos no máximo 120 palavras por minuto, mas pensamos o equivalente a 4 filmes de 4k por segundo. A informação que estamos a processar é vastamente superior ao que conseguimos transmitir.

Portanto, a ideia é que se houver uma capacidade de haver uma interação entre o cérebro e máquina há uma capacidade de aumento de transmissão de informação. O fascinante é que se nós formos capazes de interpretar os sinais do cérebro e capazes de projetar sinais do cérebro de maneira eficiente, conseguimos interagir com o mundo à nossa volta, diretamente com o pensamento.

Essa é uma área a que vão estar atentos?
Sem dúvida. Não é uma coisa que aconteça hoje em dia ainda. Há algo que também está no início, e mais próximo, e que é fascinante. Com o facto de ser cada vez mais irrelevante a localização geográfica, as empresas têm contratado pessoas de todo o mundo. E como é que se cria o conceito de multi lingual workspace? Ainda estamos muito limitados a contratar pessoas que falem a mesma língua, que podem estar em qualquer lado do mundo, mas têm de falar a mesma língua senão não conseguem trabalhar juntas. Como é que, eficientemente, se consegue pôr pessoas que não falam a mesma língua a trabalhar? Acho que essa parte vai acontecer mais cedo e precisamos da Unbabel.

No ano passado, lançaram o vosso portal e também algumas ferramentas novas. Daquilo que está previsto para o ano, o é que pode revelar?
Vamos continuar a apostar na nossa plataforma de language operation. Cada vez mais temos a visão de que tem de haver uma plataforma que torne fácil às empresas escalarem em mercados diferentes e lidarem com o problema das línguas de uma maneira fácil.

Até agora temos estado focados num caso principal que é o serviço de apoio ao cliente e estamos agora a começar a expandir para novos casos. Um dos casos que estamos muito interessados é o marketing, vamos cada vez mais explorar como é que permitimos que uma empresa tenha material de marketing em várias línguas, de uma maneira fácil e simples.

Ao longo destes anos de vida da Unbabel, quais foram os principais desafios que teve de enfrentar?
Há desafios pragmáticos, de acesso a capital que todas as empresas passam. Precisamos de ter investimento para conseguir criar os produtos. Há desafios de criar a máquina de revenue, ou seja, como é que conseguimos chegar ao mercado, como é que queremos um processo escalável e repetível de angariação de clientes, de vendas, de crescimento.

Talvez o maior desafio que temos tido é que o problema de tradução é um problema profundo, que está a ser resolvido desde o início, porque as pessoas falam línguas diferentes. A língua é tão inerente ao nosso relacionamento como seres humanos que é um problema que está há muito tempo para ser estudado. Já houve muita coisa inventada, já houve muitas empresas a criarem plataformas de tradução, de localização, uma série de aspetos. E há uma parte que é “como é que nós nos destacamos? “O que é que estamos a fazer que é fundamentalmente diferente?” E há aqui uma parte que veio da inteligência artificial.

No nosso caso, nós começamos por um caso de uso, que nos obrigou a criar um mercado novo. Há desafios inerentes à criação de um mercado novo que precisam de muita educação dos clientes. Agora o maior desafio para nós é manter a aceleração. É fácil quando a empresa cresce haver uma estagnação. Como é que continuamos sempre a manter a ambição e a aceleração e a continuar sempre com vontade e energia para não abrandar?

Como é que o vão fazer?
Porque temos ambições muito grandes e continuamos todos os dias a ser inspirados pelo problema que estamos a resolver e a consciencializarmo-nos sempre que ainda estamos no início. Não nos deixarmos seduzir pelo que fizemos até agora e olhamos sempre para aquilo que falta fazer. Sentir que estamos sempre no início porque a energia do início é sempre uma energia fantástica.

É essa a vossa fonte de inspiração, esse espírito de acharem que estão sempre no início de qualquer coisa?
Sim, a curiosidade pelo desconhecido é sempre uma grande motivação. Cada vez mais vejo a cultura da Unbabel como uma cultura de exploradores, que tem a ver também com Portugal. Estamos a tentar fazer uma coisa que nunca foi feita e queremos ser os primeiros a fazer. Portanto, estamos numa corrida para chegar à Antártica antes que outras pessoas cheguem.

“Quando nós formos um verbo vai ser um bom sinal”.

Que marca pretendem deixar no mercado, nas empresas?
Eu gostava que quando alguém não percebesse uma língua dissesse “Just Unbabel it“. Quando nós formos um verbo vai ser um bom sinal.

“O crescimento vem de desconforto e esse é o primeiro passo. Outra coisa é ir o mais rápido possível”.

Numa das suas apresentações no Web Summit falou sobre como escalar o negócio para Silicon Valley. Quais foram as mensagens que quis transmitir?
A primeira mensagem é “embrace discomfort”. É preciso querer. Não há um play book que diga: “olha, está aqui, é fácil”. O crescimento vem de desconforto e esse é o primeiro passo. Outra coisa é ir o mais rápido possível. Costuma-se dizer “If you feel comfortable you waited too long” e aqui também se aplica. Tem de ser o mais rápido possível e tem de se estar perto dos clientes e do mercado. Há uma parte que é difícil prever neste momento. O mundo mudou tanto do ponto de vista de acesso remoto que ainda é perceber, por exemplo, se no acesso ao financiamento vai ser necessário estar presente. Mas no geral, vai precisar de ter uma presença no mercado e quanto mais depressa isso acontecer melhor.

O Fernando Pessoa costumava dizer que “Eu sou do tamanho do que vejo”, eu interpreto isto como “é preciso ver o mundo para ser do tamanho do mundo”. E não é uma questão de uma pessoa ter a mente pequena, mas é inevitável que nos adaptemos ao nosso ambiente. Portanto, acho que é preciso ir.

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