Opinião

Podar é estratégia. Estratégia começa no que decide não fazer.

Pedro Fonseca, responsável pelo Cloud Center of Excellence global na Saint-Gobain

No fim de semana, podei a minha romãzeira. Ficou mais “pobre” à vista: menos ramos, menos volume, mais espaço. No meio dos ramos, um detalhe: um ninho vazio. Um ciclo completo, deixado para trás sem drama.

A poda parece perda. Na prática, é direção. E é por isso que esta metáfora serve tão bem para desenvolvimento pessoal, e para liderança. Porque há uma ideia confortável (e errada) de crescimento: adicionar. Mais objetivos. Mais projetos. Mais reuniões. Mais responsabilidades. Mais “sim”.

O resultado é previsível: a energia dispersa-se. A estrutura enfraquece. O fruto encolhe. E a sensação de movimento aumenta… enquanto o impacto real diminui.

Onde começa, quase sempre, a falha

Começa quando confundimos capacidade com boa vontade.
“Dá para fazer.” “Vamos só encaixar.” “É importante.”
E, aos poucos, a agenda vira um mapa de boas intenções. Sem cortes, não há foco. Sem foco, não há execução. E sem execução… não há crescimento, há desgaste.

Há um teste implacável ao foco: os trade-offs. Se tudo continua a caber “sem mexer em nada”, então não há foco, há otimismo. Foco existe quando algo sai para outra coisa entrar. E se, nas últimas semanas, não se cortou nada (nem um projeto, nem um compromisso, nem uma rotina), o mais provável é que o teu foco esteja a ser declarado e não praticado.

O assassino silencioso: o “sim” fácil

O que mata mais trajetórias (e estratégias) raramente é um grande erro. É um hábito: manter tudo.

  • Manter compromissos por inércia.
  • Manter hábitos que já não servem.
  • Manter iniciativas “zombie” porque um dia fizeram sentido.
  • Manter a identidade antiga porque já deu resultado antes.

O ninho vazio é um lembrete útil: há coisas que foram certas… e já passaram. Maturidade é saber fechar ciclos sem culpa.

Podar é decidir (e decidir é desconfortável)

Poda não é cortar aleatoriamente. É cortar com intenção.

Três perguntas que ajudam:

  • O que estou a manter só porque “sempre esteve lá”?
  • O que está no meu calendário, mas não está nos meus objetivos?
  • Que “sim” eu dou para evitar a conversa difícil?

E três podas práticas, de liderança, que quase sempre libertam impacto:

  • Parar o que já não cria valor.
  • Delegar decisões que a equipa precisa aprender a tomar.
  • Simplificar processos que viraram tradição, não necessidade.

No fim, progresso nem sempre é expansão. Muitas vezes é subtração bem feita. O que precisa podar esta semana para a próxima estação ser mais forte?


Pedro Fonseca é um executivo de transformação com mais de 20 anos de experiência em planeamento e direção de tecnologia. Com uma carreira focada na liderança de equipas globais e na implementação de estratégias de transformação digital, especializou-se em arquitetura empresarial, gestão de serviços de TI e inovação tecnológica.

Atualmente, lidera o Cloud Center of Excellence global na Saint-Gobain, onde impulsiona a adoção de tecnologias cloud, gestão de produtos e sucesso do cliente. Anteriormente, desempenhou funções de destaque em empresas como Feedzai, Nokia, Fidelidade, Oney Bank e Caixa Geral de Depósitos, conduzindo iniciativas estratégicas de inovação, otimização de processos e transformação digital.

Com percurso académico em Engenharia Informática e formação em Sociologia pelo ISCTE, além de uma especialização em Gestão e Inovação Digital pela Católica Lisbon School of Business and Economics, é também certificado em Gestão de Projetos e Gestão de Serviços de TI e Tecnologias. Além da sua experiência corporativa, conta com vários anos de consultoria estratégica, apoiando organizações na definição e execução de estratégias tecnológicas e operacionais.

Comentários

Artigos Relacionados