Perante a pergunta “para que servem os travões?” a resposta mais comum é: “os travões servem para travar” ou “os travões servem para abrandar”.

Há tempos, ouvi uma resposta a esta pergunta que me surpreendeu e que me fez refletir. Dizia-me a pessoa com quem falava (e aprendia!) que “os travões servem para acelerar”.

Como assim?!?

Sim, os travões foram concebidos para que os carros pudessem ganhar mais velocidade sem colocar em perigo pessoas e bens. Na realidade, só através dos travões é que é possível ganhar velocidade pois sem os mesmos estaríamos sempre limitados às leis da natureza (gravidade, inércia…)

Refletindo sobre isto, dei por mim a pensar se fazemos bom uso dos travões na gestão das pessoas e das organizações e se temos consciência das vantagens deste instrumento.

Ao entrarmos em 2020, vale a pena fazer um balanço e pensar quantas vezes travámos em 2019 e refletir se, quando travámos, conseguimos depois acelerar (metáfora, na gestão, para progredir).

Quantas vezes travei para avaliar os meus atos e decisões?
Quantas vezes travei para mudar de opinião?
Quantas vezes travei para ter tempo para ouvir os outros?
Quantas vezes travei para alterar o rumo da minha estratégia?
Quantas vezes travei para aprender com os meus erros?
Quantas vezes travei para apenas… contemplar?

Travar na gestão, como na condução, permite-nos acelerar; isto é, permite-nos ganhar velocidade, evoluir, crescer, arriscar, compreender, julgar e decidir melhor.

Creio que nos falta, como gestores, a humildade e a coragem para travar. Pressionados pelos resultados de curto-prazo, pela embriaguez do sucesso e pelo medo do insucesso caímos num movimento de aceleração contínua, sem travagens, que nos consome e que não nos faz necessariamente progredir. Podemos, e na maior parte das vezes até conseguimos, alcançar os objetivos do ano, mas tenho dúvidas que utilizemos de forma inteligente o travão, como ferramenta de gestão para progredir mais rapidamente.

Esta dificuldade em travar manifesta-se quer na esfera individual como na coletiva.

O final de 2019 e o início de 2020 são uma excelente oportunidade para travarmos e pensarmos sobre:

1 – O que correu bem e o que correu mal em 2019;
2 – Onde acrescentámos valor e onde nos limitámos a executar tarefas rotineiras;
3 – O que queremos deixar de fazer em 2020;
4 – O que gostamos verdadeiramente de fazer e o que nos retira toda a energia;
5 – O que podemos fazer em 2020 verdadeiramente impactante na vida da empresa, dos colegas, clientes e fornecedores.

Se soubermos travar, teremos certamente mais tempo para pensar sobre estas questões e estaremos melhor preparados para acelerar em 2020 com alegria e entusiasmo.

Bom 2020!!!

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Sobre o autor

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Diogo Alarcão tem feito a sua carreira essencialmente na área da Gestão e Consultoria. Foi Chairman da Marsh & McLennan Companies Portugal e CEO da Mercer Portugal. Foi Diretor da Direção de Investimento Internacional do ICEP, de 1996 a 2003.... Ler Mais