Opinião

És um líder feliz?

Ana Rita Frazão, CEO da ONE Watch Company

Quando pensei sobre o que escrever pela primeira vez no Link to Leaders, considerei começar por um tema previsível e que me diz muito, aproveitando a coincidência do primeiro artigo ser no mês de março: liderança feminina ou o papel das mulheres nas organizações.

São temas fundamentais e aos quais certamente voltarei. Ainda assim, decidi começar por algo mais transversal: a felicidade. Ou, talvez mais corretamente, a nossa relação com ela e como a manter e promover num papel de liderança.

Recentemente vi uma tendência nas redes sociais que perguntava: preferes ter razão ou ter paz? A minha resposta é clara, prefiro ter paz. Mas quem está em posições de liderança sabe que a paz nem sempre é uma opção. Liderar implica decidir, confrontar, negociar e defender posições. Um bom líder não tem muitas vezes o luxo da paz, sobretudo num negócio em crescimento e altamente competitivo. E na verdade essa exigência existe tanto na vida profissional como na pessoal, mas na pessoal com a maturidade a paz ganha espaço.

E faz sentido pensarmos na felicidade com o mesmo rigor e dedicação com que pensamos num plano estratégico ou num plano de carreira ou outra iniciativa da nossa responsabilidade profissional. Se dedicamos tempo a definir metas profissionais, porque não dedicar a mesma intenção àquilo que queremos construir na nossa vida pessoal e familiar? Muitas vezes, o que verdadeiramente nos traz felicidade está mais ligado a uma satisfação de médio e longo prazo do que aos picos de conquista que o trabalho proporciona no curto prazo.

Neste contexto, terminei recentemente a leitura de High-Functioning, de Judith Joseph, que explora um conceito particularmente relevante para quem vive orientado para objetivos e desempenho: a diferença entre parecer altamente funcional e sentir-se verdadeiramente bem e feliz. Uma das ideias que mais me marcou foi a distinção entre happiness, um estado momentâneo de contentamento, e joy, algo mais profundo, a capacidade de encontrar significado no processo, nas pequenas coisas e na forma como vivemos o dia a dia, não apenas nas conquistas.

Para quem está habituado a funcionar em modo alta performance, esta reflexão pode ser desconfortável. Muitos de nós construímos a nossa identidade na eficiência, na rapidez e na procura constante pelo certo. O livro sugere algo simples, mas poderoso: aquilo que é o nosso superpoder, disciplina, ambição, organização e responsabilidade, pode tornar-se um obstáculo à nossa felicidade. No meu caso, isso traduziu-se numa consciência quase trivial, mas transformadora: sair de casa não é uma emergência, arrumar tudo rapidamente não é necessariamente eficiência, posso lavar a cara com calma e vestir-me devagar. A busca constante pelo ótimo nem sempre é compatível com a felicidade.

Mesmo olhando para as gerações mais novas, frequentemente descritas como mais equilibradas na forma como encaram trabalho e vida pessoal, torna-se evidente que a felicidade não tem uma receita única. O que podemos desenvolver, isso sim, são processos e mecanismos que nos ajudam a vivê-la de forma mais consciente.

A autora propõe um framework simples, os 5 Vs: validação, venting, valores, vitalidade e visão. A validação lembra-nos da importância de reconhecer emoções sem julgamento. O venting reforça o papel de processar o que sentimos, seja através de escrita, conversa ou reflexão estruturada. A vitalidade implica fazer pausas e check-ins mentais intencionais e sermos deliberados naquilo que escolhemos celebrar. E a visão traduz tudo isto num caminho concreto, integrando estas escolhas no dia a dia.

Mas foi o V dos valores que mais me fez refletir. Obriga-nos a responder a perguntas simples e profundas: o que é que nos faz levantar da cama de manhã? Se pudéssemos conversar com três pessoas que já partiram, quem seriam? No meu caso, escolheria a minha avó Júlia, uma mulher extraordinária, a única avó que conheci, que apenas sabia escrever o próprio nome mas vendia fruta no mercado e fazia contas como ninguém, Coco Chanel e Maria Montessori. Esta escolha diz muito sobre aquilo que valorizo: a moda como expressão de identidade, a educação como ferramenta de transformação, a capacidade de formar e inspirar pessoas à nossa volta e o espírito aguerrido de quem constrói com pouco e nunca desiste. Também me recorda que podemos inspirar-nos nos nossos ídolos sem ter de replicar os seus caminhos. Segundo a autora, a nossa felicidade está intimamente ligada com as nossas raízes. Se brincar no campo era algo que fazíamos, é possível que uma caminhada na natureza traga “joy” no caminho para a felicidade.

Os valores estão intimamente ligados à visão, à forma como definimos o caminho e o impacto que queremos ter. Essa reflexão faz-me lembrar outro livro, How Will You Measure Your Life?, de Clayton Christensen, que coloca uma pergunta essencial: qual é, afinal, o KPI da nossa vida? O sucesso profissional, por si só, não responde a essa pergunta.

No fundo, esta reflexão levou-me a uma conclusão simples: nem tudo tem de ser vivido pela medalha de ouro. Escrito assim parece óbvio, mas no quotidiano de líderes, empreendedores e high achievers, nem sempre é. Muitas vezes priorizamos o que é correto, eficiente ou imediato, quando poderíamos estar a investir nas verdadeiras alavancas de alegria, aquelas que, no longo prazo, têm mais valor do que qualquer sensação momentânea de produtividade. Durante muito tempo achei que os temas do propósito e da felicidade eram abstratos ou pouco concretos – até um pouco enganadores e perda de tempo (quem diria?). Hoje reconheço o impacto concreto que esta consciência tem tido em mim.

Talvez a felicidade não seja um destino nem um estado permanente, mas uma prática. Para mim, isso significa estar verdadeiramente presente nas reuniões que importam, chegar a casa e desligar o telefone para jantar com a família, aceitar que nem tudo tem de ser resolvido hoje e celebrar pequenas vitórias com intenção.

Sou uma líder feliz? Sim, sou muito feliz no que faço e na vida que construí. Mas, mais do que assumir isso como garantido, aprendi que é importante parar, refletir e celebrar, porque a felicidade, tal como a liderança, também exige consciência e intenção.

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Ana Rita Frazão

Ana Rita Frazão

Ana Rita Frazão é CEO da ONE desde 2023 e tem conduzido a estratégia de crescimento com foco na consolidação do posicionamento da marca, no rejuvenescimento do produto e da comunicação e, sobretudo, na expansão internacional. Trabalha de forma transversal com as equipas na transformação de um negócio de origem familiar numa marca com ambição global, hoje presente em várias categorias para além de relógios e joalharia, incluindo smartwatches, acessórios de homem e óculos de sol. Antes de assumir a... Ler Mais..

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