Opinião
És um líder feliz?
Quando pensei sobre o que escrever pela primeira vez no Link to Leaders, considerei começar por um tema previsível e que me diz muito, aproveitando a coincidência do primeiro artigo ser no mês de março: liderança feminina ou o papel das mulheres nas organizações.
São temas fundamentais e aos quais certamente voltarei. Ainda assim, decidi começar por algo mais transversal: a felicidade. Ou, talvez mais corretamente, a nossa relação com ela e como a manter e promover num papel de liderança.
Recentemente vi uma tendência nas redes sociais que perguntava: preferes ter razão ou ter paz? A minha resposta é clara, prefiro ter paz. Mas quem está em posições de liderança sabe que a paz nem sempre é uma opção. Liderar implica decidir, confrontar, negociar e defender posições. Um bom líder não tem muitas vezes o luxo da paz, sobretudo num negócio em crescimento e altamente competitivo. E na verdade essa exigência existe tanto na vida profissional como na pessoal, mas na pessoal com a maturidade a paz ganha espaço.
E faz sentido pensarmos na felicidade com o mesmo rigor e dedicação com que pensamos num plano estratégico ou num plano de carreira ou outra iniciativa da nossa responsabilidade profissional. Se dedicamos tempo a definir metas profissionais, porque não dedicar a mesma intenção àquilo que queremos construir na nossa vida pessoal e familiar? Muitas vezes, o que verdadeiramente nos traz felicidade está mais ligado a uma satisfação de médio e longo prazo do que aos picos de conquista que o trabalho proporciona no curto prazo.
Neste contexto, terminei recentemente a leitura de High-Functioning, de Judith Joseph, que explora um conceito particularmente relevante para quem vive orientado para objetivos e desempenho: a diferença entre parecer altamente funcional e sentir-se verdadeiramente bem e feliz. Uma das ideias que mais me marcou foi a distinção entre happiness, um estado momentâneo de contentamento, e joy, algo mais profundo, a capacidade de encontrar significado no processo, nas pequenas coisas e na forma como vivemos o dia a dia, não apenas nas conquistas.
Para quem está habituado a funcionar em modo alta performance, esta reflexão pode ser desconfortável. Muitos de nós construímos a nossa identidade na eficiência, na rapidez e na procura constante pelo certo. O livro sugere algo simples, mas poderoso: aquilo que é o nosso superpoder, disciplina, ambição, organização e responsabilidade, pode tornar-se um obstáculo à nossa felicidade. No meu caso, isso traduziu-se numa consciência quase trivial, mas transformadora: sair de casa não é uma emergência, arrumar tudo rapidamente não é necessariamente eficiência, posso lavar a cara com calma e vestir-me devagar. A busca constante pelo ótimo nem sempre é compatível com a felicidade.
Mesmo olhando para as gerações mais novas, frequentemente descritas como mais equilibradas na forma como encaram trabalho e vida pessoal, torna-se evidente que a felicidade não tem uma receita única. O que podemos desenvolver, isso sim, são processos e mecanismos que nos ajudam a vivê-la de forma mais consciente.
A autora propõe um framework simples, os 5 Vs: validação, venting, valores, vitalidade e visão. A validação lembra-nos da importância de reconhecer emoções sem julgamento. O venting reforça o papel de processar o que sentimos, seja através de escrita, conversa ou reflexão estruturada. A vitalidade implica fazer pausas e check-ins mentais intencionais e sermos deliberados naquilo que escolhemos celebrar. E a visão traduz tudo isto num caminho concreto, integrando estas escolhas no dia a dia.
Mas foi o V dos valores que mais me fez refletir. Obriga-nos a responder a perguntas simples e profundas: o que é que nos faz levantar da cama de manhã? Se pudéssemos conversar com três pessoas que já partiram, quem seriam? No meu caso, escolheria a minha avó Júlia, uma mulher extraordinária, a única avó que conheci, que apenas sabia escrever o próprio nome mas vendia fruta no mercado e fazia contas como ninguém, Coco Chanel e Maria Montessori. Esta escolha diz muito sobre aquilo que valorizo: a moda como expressão de identidade, a educação como ferramenta de transformação, a capacidade de formar e inspirar pessoas à nossa volta e o espírito aguerrido de quem constrói com pouco e nunca desiste. Também me recorda que podemos inspirar-nos nos nossos ídolos sem ter de replicar os seus caminhos. Segundo a autora, a nossa felicidade está intimamente ligada com as nossas raízes. Se brincar no campo era algo que fazíamos, é possível que uma caminhada na natureza traga “joy” no caminho para a felicidade.
Os valores estão intimamente ligados à visão, à forma como definimos o caminho e o impacto que queremos ter. Essa reflexão faz-me lembrar outro livro, How Will You Measure Your Life?, de Clayton Christensen, que coloca uma pergunta essencial: qual é, afinal, o KPI da nossa vida? O sucesso profissional, por si só, não responde a essa pergunta.
No fundo, esta reflexão levou-me a uma conclusão simples: nem tudo tem de ser vivido pela medalha de ouro. Escrito assim parece óbvio, mas no quotidiano de líderes, empreendedores e high achievers, nem sempre é. Muitas vezes priorizamos o que é correto, eficiente ou imediato, quando poderíamos estar a investir nas verdadeiras alavancas de alegria, aquelas que, no longo prazo, têm mais valor do que qualquer sensação momentânea de produtividade. Durante muito tempo achei que os temas do propósito e da felicidade eram abstratos ou pouco concretos – até um pouco enganadores e perda de tempo (quem diria?). Hoje reconheço o impacto concreto que esta consciência tem tido em mim.
Talvez a felicidade não seja um destino nem um estado permanente, mas uma prática. Para mim, isso significa estar verdadeiramente presente nas reuniões que importam, chegar a casa e desligar o telefone para jantar com a família, aceitar que nem tudo tem de ser resolvido hoje e celebrar pequenas vitórias com intenção.
Sou uma líder feliz? Sim, sou muito feliz no que faço e na vida que construí. Mas, mais do que assumir isso como garantido, aprendi que é importante parar, refletir e celebrar, porque a felicidade, tal como a liderança, também exige consciência e intenção.








