As exportações do setor de mobiliário e decoração já dão sinais de recuperação depois dos fortes condicionamentos dos últimos anos de pandemia. Gualter Morgado, diretor executivo da Associação Portuguesa das Indústrias de Mobiliário e Afins, faz um retrato do setor e fala do Portugal Home Week que reúne a partir de amanhã os principais players nacionais e internacionais da Fileira Casa, no Porto.

Os principais players nacionais e internacionais da Fileira Casa vão estar reunidos no Portugal Home Week, a partir de amanhã, no Centro de Congressos da Alfândega do Porto.

O evento, organizado pela Associação Portuguesa de Indústrias de Mobiliário e Afins (APIMA) com o apoio institucional da AICEP Portugal Global, estima receber profissionais de mais de 40 nacionalidades para debater o futuro de um dos clusters mais exportadores da economia nacional, assim como para apresentar ao mundo as últimas tendências e inovações da Fileira Casa Portuguesa.

Em entrevista ao Link To Leaders, Gualter Morgado, diretor executivo da APIMA, revela que “temos um savoir-faire de valor inestimável, com profissionais que dedicaram toda a vida a estes setores, e este conhecimento não pode ser desaproveitado. É aqui que temos de nos saber posicionar, porque Portugal nunca concorrerá com outros mercados na produção em escala, mas sim na qualidade e customização das peças produzidas”.

E mostra-se otimista: “com a retoma das feiras internacionais, esperamos um ano de 2022 de intensa atividade, com múltiplos certames e ações de promoção à escala global”.

Quais as expetativas para a 2ª edição do Portugal Home Week?
O Portugal Home Week é um evento internacional de referência dedicado às indústrias ligadas à Fileira Casa Portuguesa. É uma montra das empresas da Fileira Casa Portuguesa, onde vamos ter cerca de 60 expositores destas indústrias. Vamos contar com profissionais de mais de 40 nacionalidades para debater o futuro de um dos clusters mais exportadores da economia nacional, assim como para apresentar ao mundo as últimas tendências e inovações da Fileira Casa Portuguesa.

Este ano esperamos visitantes oriundos de mercados como os EUA, Canada, França, Espanha, Reino Unido, Alemanha, Áustria, Bélgica e também dos Países Nórdicos.

Quais os grandes destaques do evento?
O evento conta com dois momentos-chave: Home Show, onde será apresentado ao mundo todo o capital de inovação, qualidade e tradição da produção da Fileira Casa, e o Home Summit, um think tank com intervenções de speakers de relevo internacional onde se debatem ideias e se partilham conhecimentos estruturantes para o futuro do setor.

Paralelamente a estes dois eixos vão decorrer várias outras ações, como visitas às fábricas das empresas representadas no Home Show, reuniões entre empresas e importadores (Home B2B), atividades de lazer para os visitantes (Home Fun Trips) e iniciativas desenvolvidas com o intuito de promover o design português e fomentar o reconhecimento da criatividade e da cultura nacional (Partners).

Quais as últimas tendências e inovações da Fileira Casa Portuguesa?
A Fileira Casa Portuguesa representa empresas de mobiliário e colchoaria, têxteis-lar, iluminação, utilidades domésticas, cerâmica decorativa e utilitária, entre outros setores. Falamos de um setor assente na tradição, mas que respeita este legado através de um eficaz cruzamento com a inovação, desenvolvimento de novos produtos, e na customização das peças.

A Fileira Casa Portuguesa procura novas soluções através da integração de diversas matérias-primas, bem como da introdução de tecnologia que permita ganhos de eficiência e competitividade, no design e na aposta de uma comunicação de uma indústria sustentável e amiga do ambiente.

“O cluster do mobiliário e afins constitui um dos mais exportadores da economia nacional, com cerca de 90% da produção destinada aos mercados estrangeiros”.

Em 2020 o cluster mobiliário encerrou o ano com uma queda nas exportações na ordem dos 14%. Cerca de três anos depois, quais as previsões para este ano e qual a situação atual da fileira?
As previsões para este ano são bastante positivas. O intervalo compreendido de janeiro a março significou um volume de exportações avaliado em quase 500 milhões de euros, o que representa um crescimento de 4% face ao mesmo período de 2019, o último ano pré-pandemia. Neste sentido, estamos muito otimistas para os resultados deste ano, expectando bater o recorde estabelecido em 2019, ano em que as exportações ascenderam aos 1,83 mil milhões de euros.

O cluster do mobiliário e afins constitui um dos mais exportadores da economia nacional, com cerca de 90% da produção destinada aos mercados estrangeiros.

Tendo em conta o aumento do custo energético, a rarefação de algumas matérias-primas, as dificuldades ao nível de transportes internacionais e uma guerra na Europa, como perspetiva o futuro do cluster do mobiliário e afins?
O quadro evolutivo da fileira está tremendamente condicionado pela incerteza socioeconómica. Acreditamos que a resiliência demonstrada por estes setores durante a pandemia abre boas perspetivas para o próximo biénio, mas é essencial que existam apoios e uma regularização de valores absolutamente incomportáveis para as empresas. O custo da energia é, neste momento, o maior desafio, com uma ascensão sem precedentes da fatura mensal, que coloca a energia como a principal despesa das empresas industriais.

A esta, soma-se a preocupante escassez e consequente encarecimento das matérias-primas, que impedem já a resposta a algumas das encomendas que as empresas têm recebido. Por último, a logística internacional teima em recuperar os níveis pré-pandemia, mantendo-se os prazos completamente dilatados e custos cerca de 4 a 6 vezes acima do que acontecia em 2019.

“As empresas já estão capazes de garantir uma maior digitalização e aposta no marketing e na comunicação para fazer chegar a marca Made In Portugal mais longe”.

As empresas da Fileira Casa Portuguesa estavam preparadas para a transformação digital? Quais os desafios que ainda enfrentam?
As empresas já apostam na digitalização e comunicação para levar a marca Made In Portugal mais longe. A APIMA tem um projeto conjunto que está articulado com as outras associações da Fileira Casa Portuguesa e com a AICEP, que nos apoia nos projetos de internacionalização. Ao invés de termos um conjunto de marcas que se promovem por cada uma das associações, associamo-nos sob o conceito “Made In Portugal Naturally”, criando sinergias entre as várias indústrias para potenciar as nossas vendas e reconhecimento em mercados externos.

A Feira era/é modelo mais tradicional de internacionalização, de fechar negócios. A “venda online” está a obter os resultados pretendidos? Os clientes internacionais estão a reagir?
Apesar da aposta no digital se traduzir numa superior capacidade de afirmação e alcance nos mercados internacionais, os certames continuam a afirmar-se como indispensáveis para a nossa promoção internacional, como a iSaloni, em Milão, a Maison&Objet, em Paris, a IMM Cologne na Alemanha, mas também a ICFF em Nova York ou a Design Shangai na China.

Sem prejuízo, as empresas estão hoje menos dependentes destes eventos presenciais, promovendo-se através de canais digitais inovadores, com plataformas interativas e com ótimas capacidades de conversão.

Quais são neste momento os mercados mais atrativos para o cluster do mobiliário?
França, Espanha, Estados Unidos da América, Reino Unido e Emirados Árabes Unidos.

De que é que os investidores nacionais e internacionais estão à procura no cluster do mobiliário?
Os investidores valorizam cada vez mais a estética, o design, o conforto, das sensações e das experiências, procurando responder à mudança nas preferências do consumidor e às novas tendências de mercado.

O Plano de Recuperação e Resiliência correspondeu às expetativas do setor? O que ainda falta fazer?
É evidente que as expetativas das empresas são sempre que os apoios e incentivos possam ir mais longe, contribuindo de forma direta para a competitividade das mesmas, nomeadamente a nível internacional. Sem prejuízo, o documento final do PRR reflete as prioridades e preocupações que foram transmitidas por um conjunto de entidades, nomeadamente pela APIMA, durante o desenvolvimento do mesmo. O importante, neste momento, é acelerar a execução do plano. Isto passa pela desburocratização do processo de avaliação, bem como pela flexibilização de alguns ajustes aos projetos, nomeadamente face aos aumentos dos custos das matérias-primas.

“A Fileira Casa tem sabido encontrar um ponto de equilíbrio entre a inovação e a tradição. Com efeito, o know-how é um dos principais fatores de diferenciação nacionais, face à concorrência internacional”.

Como é que a tecnologia está (ou pode estar) ao serviço do setor imobiliário? As empresas portuguesas estão a saber aproveitar as suas potencialidades?
A Fileira Casa tem sabido encontrar um ponto de equilíbrio entre a inovação e a tradição. Com efeito, o know-how é um dos principais fatores de diferenciação nacionais, face à concorrência internacional. Temos um savoir-faire de valor inestimável, com profissionais que dedicaram toda a vida a estes setores, e este conhecimento não pode ser desaproveitado. É aqui que temos de nos saber posicionar, porque Portugal nunca concorrerá com outros mercados na produção em escala, mas sim na qualidade e customização das peças produzidas. Isto não invalida que a inovação seja incorporada num conjunto de processos, desde a componente criativa ao próprio processo de venda. Hoje, as nossas empresas dispõem de um conjunto de canais digitais que as tornam menos dependentes dos eventos presenciais para a divulgação dos seus produtos.

Qual tem sido o papel das start-ups neste setor? Há algum caso que gostasse de destacar como exemplo?
O impacto das start-ups neste setor faz-se, sobretudo, pela via dos processos de colaboração e de melhoria. As empresas industriais, com longas décadas de tradição, têm estabelecido parcerias com start-ups tecnológicas para melhorarem os seus processos criativos e produtivos, bem como a atividade comercial e as dinâmicas de marketing e comunicação.

Que iniciativas podemos esperar da APIMA para os próximos meses?
Com a retoma das feiras internacionais, esperamos um ano de 2022 de intensa atividade, com múltiplos certames e ações de promoção à escala global. A este título, destaco as iniciativas que temos previstas sob a marca MADE IN PORTUGAL naturally, que nos têm permitido envolver dezenas de empresas e marcas de pequena e média dimensão em palcos de grande visibilidade e relevância. Fizemo-lo no âmbito da Maison & Objet, em março, e repetiremos no início de junho, integrada na Tortona Design Week. Representam um investimento muito significativo, mas que se traduz num reconhecimento sem precedentes da diversidade e complementaridade da oferta da Fileira Casa Portuguesa.

Respostas rápidas
O maior risco
: a incerteza.
O maior erro: adiar decisões.
A maior lição: aprender com os erros.
A maior conquista: o reconhecimento pelo trabalho.

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