Opinião
Empreender num mundo fragmentado
Durante muito tempo, o empreendedorismo foi construído sobre uma ideia simples: o mundo estava a tornar-se mais integrado e, com isso, mais previsível. Produzia-se num ponto, vendia-se noutro, escalava-se globalmente com poucas fricções. Essa lógica moldou estratégias, decisões e expectativas.
Mas hoje, essa realidade mudou de forma estrutural. O mundo em que as empresas operam está mais fragmentado, geopoliticamente, economicamente, tecnologicamente e também do ponto de vista regulatório. As cadeias de valor encurtaram, os riscos tornaram-se mais visíveis e a confiança passou a ser um fator crítico. Para quem empreende, isto altera profundamente a forma de pensar o negócio desde o primeiro dia.
Num contexto como este, já não basta identificar uma boa oportunidade, .é essencial compreender o território onde essa oportunidade existe, perceber dependências, avaliar riscos e escolher com cuidado parceiros, mercados e fornecedores. Empreender passou a ser tanto um exercício de leitura do mundo como de criação de valor.
Para os empreendedores portugueses e europeus, esta fragmentação não deve ser vista como um bloqueio, pois, num mundo mais cauteloso, ganha relevância quem opera a partir de contextos estáveis, com regras claras, capacidade técnica e reputação de fiabilidade. A diversificação de mercados deixou de ser apenas uma ambição de crescimento e passou a ser uma condição de resiliência.
Empreender nestas condições exige decisões mais intencionais. Desde cedo, importa desenhar modelos de negócio menos dependentes de um único mercado, reduzir dependências críticas e pensar a internacionalização não como um salto, mas como um percurso faseado. Significa também privilegiar parcerias estratégicas, capazes de acelerar entrada em novos mercados, em vez de tentativas isoladas e dispendiosas.
A própria noção de escala mudou. Crescer não é apenas aumentar vendas, mas construir organizações capazes de operar em contextos distintos, cumprir diferentes exigências regulatórias e adaptar processos rapidamente. Empresas mais leves, bem governadas e com capacidade de decisão clara tendem a responder melhor a ambientes instáveis do que estruturas excessivamente complexas ou rígidas.
Na Europa, estas escolhas ganham ainda maior peso. A aposta na autonomia estratégica, na proteção de tecnologia crítica e na resiliência económica está a redefinir prioridades. Para quem empreende, compreender este enquadramento permite alinhar investimento, inovação e posicionamento de mercado com tendências que são estruturais e não conjunturais.
Tudo isto exige um tipo de liderança diferente, mais informada, mais estratégica e menos reativa. Empreender num mundo fragmentado implica aceitar que não existem fórmulas universais, mas que boas decisões resultam de visão, planeamento e capacidade de adaptação contínua.
A ambição global continua a ser essencial, o que mudou foi a forma de a concretizar. As empresas que melhor irão prosperar serão aquelas que combinarem abertura ao mundo com escolhas claras, execução rigorosa e uma leitura atenta do contexto em que operam.
Num tempo de reorganização global, empreender é, acima de tudo, um exercício de posicionamento. Quem souber ler bem o mundo e agir com intenção não apenas cresce. Ganha relevância e constrói futuro.
* Associação Nacional de Jovens Empresários








