Opinião
Por que a ameaça de perder o cargo ou função gera conflito e stress na organização?
No cenário pós-pandemia de 2020, as organizações e os seus colaboradores passaram a dar mais atenção à saúde mental, ao equilíbrio entre a vida familiar e a profissional, à gestão do stress e às políticas de mitigação do burnout.
O stress, a exaustão profissional e os desafios de saúde mental enfrentados pelos colaboradores aumentaram, trazendo consequências ao nível da produtividade e da retenção de talentos.
O stress laboral geralmente resulta de fatores como carga de trabalho excessiva, conflitos interpessoais, ambiente negativo, insegurança no emprego, desequilíbrio entre vida profissional e pessoal e escassez de recursos. E quando se fala em recursos, fala-se também dos meios que proporcionam esses mesmos recursos, nomeadamente os cargos e as funções.
Neste artigo vamos tentar entender o comportamento stressante dos colaboradores nas organizações recorrendo à Teoria de conservação de recursos (TCR). Essa teoria é uma das mais influentes neste campo em explicar o stress no ambiente laboral.
Foi desenvolvida por Stevan Hobfoll em 1989 e foi um avanço relativamente às outras teorias que tentaram explicar o stress no ambiente laboral. De uma forma muito simples, neste contexto, o stress ocorre, quando os recursos são ameaçados ou perdidos.
A teoria que explica grande parte do comportamento humano com base na necessidade evolutiva de adquirir e conservar recursos para a sobrevivência. Portanto, as pessoas utilizam recursos essenciais não apenas para lidar com o stress, mas também para construir uma reserva de recursos sustentáveis para momentos de necessidade futura em situações de incerteza.
Conceito central de recursos:
Para perceber como surge o stress neste contexto e de acordo com essa teoria, recursos é qualquer coisa que possa ser valorizada por um indivíduo e que lhe permite alcançar seus objetivos. Concretizando, os principais tipos de recursos são saúde, autoestima, bens materiais, apoio social, senso de pertença, tempo, experiências, habilidades e energia emocional.
A teoria fundamenta-se em dois princípios fulcrais que regem a mente humana:
- A primazia da perda: o impacto negativo de perder um recurso é muito maior do que impacto positivo de ganhar o mesmo recurso. É por isso que lutam para conservar o que já têm.
- A caravana de recursos: os recursos nunca viajam sozinhos, movem-se em “caravanas”. Quando um colaborador perde um cargo ou função, ele não perde apenas um título: enquanto caravana, pode perder os contactos, as influências e as informações. Como diz o ditado, “uma desgraça nunca vem só”, ou como o princípio bíblico ilustra: “um abismo chama outro abismo” (Salmo 42:7). Quando a perda começa, ela gera uma espiral descendente que amplifica o stress e a vulnerabilidade. Por outro lado, o ganho de novos recursos potencia a aquisição de outros, criando espirais de sucesso.
Significa que todos lutam, alguns de forma literal, para conservar os recursos. Os colaboradores inventam estratégias para mitigar a perda de recursos, podendo buscar recuperar o que foi perdido ou encontrar maneiras de obter novos recursos.
Aplicações práticas: A luta pela sobrevivência hierárquica
Mas na realidade, muitos desses recursos (financeiros, materiais, reconhecimento social) só são conseguidos pela via de ocupações de posições de liderança formal hierárquica. A perda ou a ameaça de determinada posição na organização significa o fim desses benefícios, e é o tal causador de stress no trabalho, burnout, conflitos, falta de ética. Casos reais mostram o desespero deste fenómeno: profissionais na iminência da destituição que suplicam para manter o título, mesmo abrindo mão de tudo o resto, ou os que precisam de intervenção psicológica clínica para processar a tristeza da posição perdida.
Esta pressão extrema explica comportamentos que desafiam a ética: colaboradores podem recorrer a manobras obscuras ou conflitos desnecessários apenas para limitar a perda de recursos.
Considero que esta teoria ajuda a perceber o comportamento das pessoas dentro das organizações, quando se trata de ocupar e manter posições que dominam os recursos, especialmente em tempo de crise ou incerteza.
Conclusão
A Conservação de Recursos é mais do que um conceito teórico; é uma ferramenta estratégica para compreender motivação, stress e conflitos. Ao reconhecermos que o ser humano é programado para manter, defender e acumular o que valoriza, percebemos que a ameaça à caravana de recursos é o gatilho para comportamentos defensivos e conflitos interpessoais.
Um cargo ou uma função são os canais vitais que sustentam a segurança de um indivíduo dentro da organização e perante a sociedade.
Para as lideranças, compreender esta dinâmica é o primeiro passo para liderar com inteligência e construir ambientes saudáveis.
Referências bibliográficas:
Hobfoll, S. E. (1989). Conservation of resources: A new attempt at conceptualizing stress. American Psychologist, 44(3), 513–524. https://doi.org/10.1037/0003-066X.44.3.513
Lin, C.-Y., Lin, S.-H., Poulton, E. C., & Chi, N.-W. (2025). Do you want to hang out? Understanding the positive and negative consequences of receiving social activity invitations at work. Personnel Psychology. Advance online publication. https://doi.org/10.1111/peps.70009








