Opinião

Por que a ameaça de perder o cargo ou função gera conflito e stress na organização?

Carlos Rocha, economista e gestor

No cenário pós-pandemia de 2020, as organizações e os seus colaboradores passaram a dar mais atenção à saúde mental, ao equilíbrio entre a vida familiar e a profissional, à gestão do stress e às políticas de mitigação do burnout.

O stress, a exaustão profissional e os desafios de saúde mental enfrentados pelos colaboradores aumentaram, trazendo consequências ao nível da produtividade e da retenção de talentos.

O stress laboral geralmente resulta de fatores como carga de trabalho excessiva, conflitos interpessoais, ambiente negativo, insegurança no emprego, desequilíbrio entre vida profissional e pessoal e escassez de recursos. E quando se fala em recursos, fala-se também dos meios que proporcionam esses mesmos recursos, nomeadamente os cargos e as funções.

Neste artigo vamos tentar entender o comportamento stressante dos colaboradores nas organizações recorrendo à Teoria de conservação de recursos (TCR). Essa teoria é uma das mais influentes neste campo em explicar o stress no ambiente laboral.

Foi desenvolvida por Stevan Hobfoll em 1989 e foi um avanço relativamente às outras teorias que tentaram explicar o stress no ambiente laboral. De uma forma muito simples, neste contexto, o stress ocorre, quando os recursos são ameaçados ou perdidos.

A teoria que explica grande parte do comportamento humano com base na necessidade evolutiva de adquirir e conservar recursos para a sobrevivência. Portanto, as pessoas utilizam recursos essenciais não apenas para lidar com o stress, mas também para construir uma reserva de recursos sustentáveis ​​para momentos de necessidade futura em situações de incerteza.

Conceito central de recursos:

Para perceber como surge o stress neste contexto e de acordo com essa teoria, recursos é qualquer coisa que possa ser valorizada por um indivíduo e que lhe permite alcançar seus objetivos. Concretizando, os principais tipos de recursos são saúde, autoestima, bens materiais, apoio social, senso de pertença, tempo, experiências, habilidades e energia emocional.

A teoria fundamenta-se em dois princípios fulcrais que regem a mente humana:

  • A primazia da perda: o impacto negativo de perder um recurso é muito maior do que impacto positivo de ganhar o mesmo recurso. É por isso que lutam para conservar o que já têm.
  • A caravana de recursos: os recursos nunca viajam sozinhos, movem-se em “caravanas”. Quando um colaborador perde um cargo ou função, ele não perde apenas um título: enquanto caravana, pode perder os contactos, as influências e as informações. Como diz o ditado, “uma desgraça nunca vem só”, ou como o princípio bíblico ilustra: “um abismo chama outro abismo” (Salmo 42:7). Quando a perda começa, ela gera uma espiral descendente que amplifica o stress e a vulnerabilidade. Por outro lado, o ganho de novos recursos potencia a aquisição de outros, criando espirais de sucesso.

Significa que todos lutam, alguns de forma literal, para conservar os recursos. Os colaboradores inventam estratégias para mitigar a perda de recursos, podendo buscar recuperar o que foi perdido ou encontrar maneiras de obter novos recursos.

 Aplicações práticas: A luta pela sobrevivência hierárquica

Mas na realidade, muitos desses recursos (financeiros, materiais, reconhecimento social) só são conseguidos pela via de ocupações de posições de liderança formal hierárquica. A perda ou a ameaça de determinada posição na organização significa o fim desses benefícios, e é o tal causador de stress no trabalho, burnout, conflitos, falta de ética. Casos reais mostram o desespero deste fenómeno: profissionais na iminência da destituição que suplicam para manter o título, mesmo abrindo mão de tudo o resto, ou os que precisam de intervenção psicológica clínica para processar a tristeza da posição perdida.

Esta pressão extrema explica comportamentos que desafiam a ética: colaboradores podem recorrer a manobras obscuras ou conflitos desnecessários apenas para limitar a perda de recursos.

Considero que esta teoria ajuda a perceber o comportamento das pessoas dentro das organizações, quando se trata de ocupar e manter posições que dominam os recursos, especialmente em tempo de crise ou incerteza.

Conclusão

A Conservação de Recursos é mais do que um conceito teórico; é uma ferramenta estratégica para compreender motivação, stress e conflitos. Ao reconhecermos que o ser humano é programado para manter, defender e acumular o que valoriza, percebemos que a ameaça à caravana de recursos é o gatilho para comportamentos defensivos e conflitos interpessoais.

Um cargo ou uma função são os canais vitais que sustentam a segurança de um indivíduo dentro da organização e perante a sociedade.

Para as lideranças, compreender esta dinâmica é o primeiro passo para liderar com inteligência e construir ambientes saudáveis.

Referências bibliográficas:

Hobfoll, S. E. (1989). Conservation of resources: A new attempt at conceptualizing stress. American Psychologist, 44(3), 513–524. https://doi.org/10.1037/0003-066X.44.3.513

Lin, C.-Y., Lin, S.-H., Poulton, E. C., & Chi, N.-W. (2025). Do you want to hang out? Understanding the positive and negative consequences of receiving social activity invitations at work. Personnel Psychology. Advance online publication. https://doi.org/10.1111/peps.70009

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Carlos Rocha

Carlos Rocha

Carlos Rocha é economista e atualmente é vogal do Conselho de Finanças Públicas de Cabo Verde e ex-presidente do Fundo de Garantia de Depósitos de Cabo Verde. Foi administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi administrador executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária em Cabo Verde, pelo Instituto Superior de Economia e Gestão – Lisboa, é mestre em... Ler Mais..

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