Entrevista/ “O turismo deve manter um conhecimento diferenciado em relação ao resto da economia”
Estar na linha da frente do conhecimento é essencial para a transformação num setor que enfrenta desafios cada vez mais complexos. Quem o afirma é Roberto Antunes, diretor executivo do NEST, que, nesta entrevista, partilha a sua visão sobre o futuro do turismo e o legado que espera deixar com o BOOST.
Sob o tema “Seizing the Future”, a 4.ª edição do BOOST realiza-se no próximo dia 16 de janeiro, no Pavilhão de Portugal, em Lisboa, e vai explorar temas como a convergência entre inovação tecnológica e sustentabilidade, o papel das start-ups na transformação do turismo português, a captação de talento e a criação de experiências turísticas mais responsáveis sem comprometer a qualidade.
O BOOST 2026 promete ser a edição “mais visionária de sempre”. O que distingue esta edição das anteriores e que transformações concretas espera que os participantes levem para as suas organizações?
O objetivo passa por fazer uma prospeção do futuro, mas não de forma etérea. Esta edição está alavancada em áreas muito concretas, como o talento, a capacidade de desenvolvimento de inovação e a sua contribuição para a economia e para a sociedade, bem como a chamada dual transition: a transição para um turismo mais sustentável e, em simultâneo, a transição digital, com maior eficiência, gestão de dados e conhecimento. É neste contexto que vamos explorar diferentes temáticas, desde a inspiração trazida pelo nosso keynote speaker David Rowan até sessões mais orientadas para ferramentas de cenarização, que ajudam a preparar o setor para novas tendências e a crescer.
Para alguém que ainda está hesitante em participar no BOOST 2026, qual seria o seu argumento mais forte?
Destaco a essência do evento, que é a procura de impacto e de inspiração para o turismo. O BOOST acontece no início do ano precisamente por isso. Nunca foi um evento comercial, mas sim um encontro com uma bitola muito clara: ser relevante do ponto de vista do conteúdo e da forma, ao ponto de nos motivar a participar para ouvir, aprender e absorver conhecimento sobre inovação. Desde o primeiro dia de preparação, aplicamos uma curadoria rigorosa para garantir ângulos novos sobre temas como a sustentabilidade ou a digitalização.
“A transformação digital é exigente e não se faz apenas com um nível básico de conhecimento”.
Quando falamos em transformação digital no turismo português, onde estão as maiores dificuldades? Como pode o BOOST apoiar cada uma destas áreas?
A transformação digital é exigente e não se faz apenas com um nível básico de conhecimento. Exige capacitação contínua, investimento, experiência e espírito crítico. Implica questionar modelos operativos, torná-los mais ágeis e, muitas vezes, entrar em territórios onde ainda não existe oferta. O BOOST contribui para isto mesmo, tornando essas competências mais inteligíveis, através de exemplos concretos e da partilha das experiências dos keynote speakers. Além disso, promove espaços de aprendizagem e de interação, como o learning room ou Network Café, que potenciam a troca de conhecimento entre participantes.
Como é que o BOOST contribui para posicionar Portugal como hub global de inovação no turismo?
O BOOST promove uma cultura de inovação assente na ideia de que estar na linha da frente do conhecimento é essencial para a transformação. A isso juntam-se a capacitação, a cooperação, os programas de apoio e o alinhamento com grandes esforços europeus.
“O BOOST funciona como um verdadeiro kick-off dessa visão: não há inovação com impacto sem uma visão clara que a sustente”.
A sustentabilidade é um dos pilares do evento. Na sua perspetiva, como é que a inovação tecnológica e a sustentabilidade podem trabalhar em conjunto para criar experiências turísticas mais responsáveis sem comprometer a qualidade?
A sustentabilidade tem sido fortemente impulsionada pela inovação tecnológica, algo muito visível em ecossistemas como o de Silicon Valley. Existe uma proximidade natural entre estas áreas, motivada pela urgência dos desafios atuais. No turismo, esta convergência é inevitável, mas precisa de ser acelerada. Em Portugal, isso tem sido trabalhado através de programas nacionais e da atuação do NEST, que tem promovido ferramentas e iniciativas de inovação. Importa também sublinhar que, para o turista atual, a sustentabilidade não é um fator isolado: influencia a escolha de produtos e destinos e está ligada à imersão cultural, ao contacto com a natureza, à saúde e ao bem-estar, sem comprometer a qualidade da experiência.
Um dos objetivos é atrair talento para o turismo. Que competências serão essenciais para os profissionais do setor nos próximos anos e como é que eventos como este ajudam nessa formação?
O BOOST não é um evento de formação, mas de cultura de inovação, onde a formação surge como um passo fundamental para a transformação. O turismo é um setor muito atrativo, pela diversidade de competências que envolve, desde soft skills até competências técnicas altamente especializadas, e pela sua forte componente relacional e criativa. Por outro lado, não são apenas estas condições que tornam o turismo uma área da economia altamente cativante. Temos também em Portugal uma enorme capacidade de atrair talento, no sentido de fixar pessoas e trazê-las para Portugal, quer para aprender, quer para trabalhar. O estilo de vida e a qualidade de vida em Portugal são muito inspiradores e fazem do país um dos mais apetecidos entre os chamados nómadas digitais ou expatriados.
“Esta é também uma oportunidade para o próprio setor e para os profissionais de turismo atraírem talento, tanto nacional como internacional”.
Que papel vê para as start-ups na transformação do turismo português e que tipo de soluções ou áreas de inovação considera prioritárias?
O papel das start-ups é determinante. Todas as economias procuram beneficiar do seu contributo para o PIB, já que são de negócios focados em nichos, em mercados ainda pouco explorados, e fortemente alinhados com novas tendências. Resultam, em geral, de equipas com elevada literacia digital e capacidade de adaptação, o que lhes confere resiliência e agilidade nos modelos operacionais e de negócio, como ficou evidente durante a pandemia. Estas características tornam as start-ups relevantes para o desenvolvimento económico. Daí o crescente incentivo ao empreendedorismo, hoje mais estruturado, com programas específicos e fundos de apoio. O turismo integra plenamente esta lógica de transformação: é um setor com uma cadeia de valor extensa, fértil em necessidades e oportunidades de inovação, onde muitos pequenos projetos já se tornaram unicórnios.
“Em Portugal, este caminho tem sido apoiado por iniciativas como o FIT – Fostering Innovation in Tourism, do Turismo de Portugal, que mobiliza anualmente entre um e um milhão e meio de euros para atrair inovação e empreendedorismo para o setor”.
As start-ups têm, na sua opinião, apresentado ideias inovadoras?
Têm, sem dúvida. O grande desafio está em acelerar o caminho entre a ideia e a consolidação no mercado, garantindo escalabilidade e sustentabilidade do negócio. Portugal tem vindo a reforçar os seus mecanismos de apoio, embora enfrente limitações relacionadas com a dimensão do mercado e com redes de investimento menos robustas do que em países como os Estados Unidos. Isso exige um esforço adicional para tornar o ecossistema mais competitivo.
O setor do turismo costuma ser muito sensível a crises externas (económicas, ambientais, geopolíticas). Que estratégias de resiliência e adaptação considera prioritárias para tornar o setor mais robusto?
O turismo tem demonstrado uma enorme resiliência, como ficou claro durante a pandemia. O setor reajustou-se, capacitou-se, aplicou tecnologia e até reconverteu espaços para apoiar outras causas. No futuro, essa resiliência passa por uma leitura atenta da procura, da geopolítica, dos transportes e das mudanças geracionais, apoiada por competências de prospeção, metodologias de foresight, análise de dados e trabalho colaborativo entre empresas, academia e institutos.
“O turismo deve manter um conhecimento diferenciado em relação ao resto da economia, porque é fundamental para a sua capacidade de adaptação e resiliência”.
Que legado gostaria de deixar com o trabalho que tem desenvolvido com o BOOST?
O legado passa por ser um verdadeiro energizer para o arranque do ano, olhando para a inovação como uma oportunidade para responder aos grandes desafios e promover a transformação qualitativa e diferenciadora do nosso mercado e do nosso destino. Que seja uma fonte de inspiração para que as organizações e empresas do setor reflitam sobre a forma como a sua oferta pode estar mais alinhada com a visão dos clientes, questionando quem são estas gerações, como valorizam a sustentabilidade, de que forma é possível agilizar processos e facilitar a componente operacional, e como a experiência se pode tornar mais rica, mais profunda e, em última instância, inesquecível.
Em síntese, que o BOOST funcione como uma espécie de farol para esse turismo do futuro, impactante e positivo, cuja construção pode começar já hoje. Porque os frutos vão surgindo e essa transformação começa, efetivamente, a acontecer.
Esta entrevista foi desenvolvida no âmbito da parceria com o NEST – Centro de Inovação do Turismo.








