Opinião
O medo enquanto precursor da ação
Eça de Queiroz, nome maior da literatura portuguesa, acaba de ser transladado para o Panteão Nacional. De indiscutível talento, trouxe-nos romances que ficarão, para sempre, no que de melhor se escreveu em Portugal até hoje.
Muito haveria a dizer sobre a sua escrita direta (ou realista, se preferir) com os detalhes da época, mas gostava de trazer-lhe à memória uma das suas obras. Não me refiro a “Os Maias” nem ao “Crime do Padre Amaro”, mas sim a “O Primo Basílio”!
De uma forma resumida, em “O Primo Basílio”, Luísa e Jorge são um jovem casal burguês de Lisboa sem filhos. As páginas vão passando até que Jorge é destacado para o Alentejo (refira-se que Jorge é engenheiro num ministério). O primo Basílio, há muito a viver em França, regressa por um período e volta a aproximar-se de Luísa (já tinham tido um affair no passado). Luísa e Basílio acabam por viver um romance secreto antes de Jorge regressar do Alentejo. Por doença e tristeza, Luísa acaba por morrer com Basílio já em França.
O medo é, sem dúvida, um dos maiores – senão o principal – precursores da ação. Não só na nossa vida pessoal, como em atividades sociais, no mundo empresarial ou até mesmo em política! Este medo faz com que o Ser Humano procure uma figura de liderança. Alguém que assuma a responsabilidade, que nos mostre o caminho, que nos guie.
No livro “De Bom a Excelente” (2001), Jim Collins e a sua equipa analisaram cerca de 1500 empresas listadas na revista Fortune. Uma das conclusões desta análise foi que as empresas que passam de um nível de resultados “de bom a excelente” têm em comum uma liderança de nível cinco. Isto é, por definição do autor, lideranças com uma “mistura parodoxal de humildade pessoal e determinação profissional”. Atualmente, a academia continua a desenvolver várias abordagens diferentes de liderança, como a liderança situacional ou, mais recentemente, o conceito de servant leadership proposto por Robert Greenleaf.
Neste modelo de liderança, Greenleaf advoga que este tipo de líder é empático, com grande capacidade de ouvir quem o rodeia e o desejo profundo de criar um ambiente genuinamente saudável. Pergunto: o conceito “liderança de nível 5”, de Jim Collins, não residia em valores muito aproximados aos propostos por atualmente por Greenleaf? Isto é, aos olhos do que conhecemos hoje, a tal liderança de nível 5, mais não será do que o servant leader proposto por Greenleaf. Em suma, ambos advogam que o líder deve ser ouvinte, empático, humilde, empenhado e desprovido de ego, mas absolutamente determinado no seu objetivo!
Ora, estes modelos de liderança são bastante diferentes da visão romanceada do líder carismático, bem-falante, seguro e muitas vezes autoritário, mas admirado! Este estilo, diga-se, está presente não só no meio empresarial – onde sobressai a memória de Steve Jobs na Apple – como em política. Quer nas empresas quer em política, é bastante comum a necessidade de ter um líder forte, seguro, bom comunicador, fazedor (?!?) e – dizem hoje – empático!
De uma forma generalista, alguém que seja apresentado como “chefe de departamento” da empresa Y (ia utilizar a letra “X”, mas para evitar alguma ligação ao antigo Twitter, optei pelo neutral “Y”) que não exiba, ab initio, uma imagem segura e convicta, arrisco-me a dizer que será colocado à prova em todas as ocasiões pelos seus subordinados.
Situação muito similar à que se vê habitualmente em política. Quem nunca ouviu dizer sobre fulano “Ah, ele parece ser bastante sério. Mas não é seguro na fala!”. O Ser Humano é assim. Por medo do desconhecido, precisa daquela imagem de segurança transmitida pelo líder forte, de voz firme e quiçá autoritária (!!!) mesmo que isto lhe retire um pouco de liberdade.
É assim nas empresas ou na política, a emoção a sobrepor-se à razão. Raras vezes será diferente. É comum que seja puramente a emoção a levar milhares de investidores a comprarem ações da empresa W, apenas porque “toda a gente está a comprar” ou, em sentido contrário, a vender “porque toda a gente está a vender”, sem que a empresa W tenha tido qualquer alteração na sua análise fundamental. Ou seja, sem que haja uma justificação racional para a compra ou para a venda. Apenas a emoção a dominar a mente dos investidores ao invés da razão. É por isso que, sobre este tema, Warren Buffett defende que um dos requisitos fundamentais para o sucesso no setor de investimento seja precisamente… o temperamento! E ele sabe do que está a falar…
Em “O Primo Basílio”, Luísa cedeu ao medo e deixou Basílio voltar para França.
Como diria Benjamin Franklin, “quem abre mão da liberdade por um pouco de segurança, não merece nem liberdade nem segurança”.
Bruno Silvestre é o fundador e o searcher de serviço da SLY Capital. Nascido e criado em Coimbra, é engenheiro mecânico e engenheiro europeu e internacional de Soldadura, tendo, mais tarde, concluído o seu MBA Executivo na Faculdade de Economia de Coimbra, antes de se lançar no empreendedorismo por aquisição.
Com 15 anos de experiência profissional em indústrias de referência como a aeronáutica militar e civil, indústria petrolífera e indústria extrativa, participou em projetos com elevado impacto nacional e internacional, como a implementação da filosofia de gestão LEAN na Manutenção da Esquadra101 da Força Aérea Portuguesa, no projeto KAOMBO da petrolífera francesa TOTAL e, recentemente, no Projeto de Expansão de Zinco da Sociedade Mineira de Neves Corvo, sempre em contextos multidisciplinares e multiculturais.








