Opinião

Vivemos um teatro da liderança?

Ricardo Tomé, diretor-coordenador da Media Capital Digital

A reflexão surge no seguimento do livro “Deuses Americanos”, de Neil Gaiman (esse mesmo, o mesmo de “Sandman”).

Para quem não leu: uma roadtrip metafórica sobre uma América que se rendeu aos novos ‘deuses’ da tecnologia, do dinheiro, da performance, dos Media, no fundo de tudo o que nos retém a atenção; estes novos deuses substituíram os deuses de outrora, mitológicos, enraizados no sacrifício, em narrativas simbólicas, na guerra, no conflito, no renascimento…

… e a pergunta impõe-se: e na liderança de empresas e equipas?

Ao ler o livro de Neil Gaiman vamos percebendo que a história não é realmente sobre deuses. É sobre relevância. Sobre o medo de deixar de contar e importar.
Os deuses antigos, trazidos por imigrantes, vagueiam perdidos e a definhar pela atual América porque já ninguém acredita neles e também porque não sabem viver sem a adoração que os definia há séculos atrás.

O paralelo com a gestão surge de imediato. Como em muitas organizações que vemos onde este mesmo desconforto e desconexão vão surgindo: modelos de gestão, estruturas e rituais que já não criam valor real, mas continuam a existir porque dão identidade e poder a quem os herdou e deles sobrevive.

Os deuses antigos não morrem, mas vão ficando desempregados e sendo trocados pelos novos. Infelizmente, também alguns dos novos não são melhores. Apenas novos. Apenas diferentes.

Antigos ou novos: a tentação do culto

Nas empresas, os deuses antigos são fáceis de reconhecer: organogramas rígidos, planeamentos a cinco anos que ninguém cumpre, reuniões que existem porque sempre existiram, apresentações que substituem decisões.

Ao mesmo tempo, surgem os novos deuses: dados e data-mindset, inteligência artificial e a.i.-first, automação, plataformas, agilidade, framework da moda, mindset de start-up, …

São conceitos que fazem sentido, mas que muitas vezes entram nas organizações não como ferramentas estratégicas, mas como objetos de culto.

Já vimos disto.

Empresas que não adoptam tecnologia, rezam para ela. Indivíduos que a promovem porque sabem assim obter uma diferenciação e com que esperam endeusar outros e assim ascender, tornado simplesmente os restantes deuses obsoletos.

Compram-se soluções, fazem pilotos, criam buzz interno, mas não mexem em incentivos, processos ou modelos de decisão. Troca-se de deuses, mas mantêm intacto o altar e o caminho para a servil adoração.

Quando a urgência se torna vício

Um dos momentos mais interessantes do livro é a revelação de que a guerra entre deuses é, em grande parte, fabricada (desculpem o spoiler, mas ao mesmo tempo não creio estrague e até sirva de convite à leitura – recomendo mesmo!).

A guerra serve para gerar energia, sacrifício e relevância para quem a promove. Já ouvimos falar da narrativa da “crise permanente”… funciona muitas vezes da mesma forma. Estamos sempre atrasados, sempre ameaçados, sempre à beira de perder o comboio da inovação.

Essa urgência constante cria adrenalina, mas também legitima decisões apressadas, concentração de poder e pouca reflexão estrutural. A crise contínua torna-se confortável para quem lidera através da tensão. Nem todas as guerras nascem de conflitos reais. Algumas nascem da necessidade de alguém.

O valor das “Sombras” nas organizações

Shadow, o protagonista, não quer ser deus. Não quer o trono, não quer o exército, não quer a guerra. O seu papel é expor o jogo. Ao ler o livro, percebemos que há muitos “Shadows” nas empresas, pessoas que têm coragem de dizer: “isto já não faz sentido, mas continua porque convém a alguém”. Ou pior, dizem de forma discreta – ou pensam mas não dizem.

Questionar o dogma é visto como cínico, resistente ou “pouco alinhado”. E, no entanto, não raras vezes são estes que evitam que a empresa se torne refém das suas próprias narrativas. Ajustam a operação para simultaneamente fazer crer que a ideologia é seguida, mas na prática vão adulterando aqui e ali os procedimentos no que sabem faz diferença para os resultados aparecerem, sem dizer nada, para não estragar o mito. Depois, já se sabe, vem a confirmação da narrativa do powerpoint que se valida e confirma que o plano estava certo.

As organizações não precisam de mais deuses da gestão. Precisam de mais gente lúcida o suficiente para desmontar narrativas vazias, mesmo quando isso é desconfortável. E construírem juntos o propósito e os resultados. Precisam de pragmatismo.

Fazer a pergunta

No fim, “Deuses Americanos” deixa-nos a provocação de fazer sempre algumas perguntas: quem ganha com a história que se está a contar na reunião? Quem fica no centro quando declaramos uma “emergência estratégica”? Quem perde quando transformamos uma ferramenta num dogma?

O poder nas empresas não vive nos cargos; vive nas narrativas. É essa, aliás, a assinatura de Gaiman nos seus livros: o poder das histórias que se sobrepõem à realidade. Somos seres humanos. Adoramos ficção sobre factos. Adoramos histórias. Adoramos narrativas.

Talvez a verdadeira transformação não seja então adoptar o próximo grande “deus” da gestão ou da tecnologia, mas termos a coragem de perguntar a nós mesmos: que histórias nos estamos a contar para evitar mudar de verdade?

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Ricardo Tomé

Ricardo Tomé

Ricardo Tomé é Diretor-Coordenador da Media Capital Digital, empresa do grupo que gere a estratégia e operação interativa para as várias marcas – TVI, TVI24, IOL, MaisFutebol, AutoPortal, etc. – com foco especial na área mobile (Rising Star, MasterChef, SecretStory) e Over-The-Top (TVI Player), bem como ativação de conteúdos multiscreen em todas as plataformas e realizando igualmente a ponte com o grupo PRISA nas várias parcerias: Google & YouTube, Facebook, Twitter, Endemol, Shine, entre outras. Foi, até 2013, coordenador da... Ler Mais..

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