“Existem múltiplos conceitos financeiros que deveriam ser do conhecimento de empresários e empreendedores, dada a sua relevância na gestão dos seus negócios ou empresas. Afinal, ter lucros nem sempre é bom e ter prejuízos nem sempre é mau.”

Há uns tempos, ouvi um político da nossa praça indignado porque uma determinada empresa, com capitais públicos, tinha pago prémios de desempenho à sua equipa de gestão num ano em que aquela tinha apresentado prejuízo e se encontrava numa débil condição financeira.

Não me pronunciando sobre o caso em concreto, esta indignação incorre, a meu ver, num erro de raciocínio, na medida em que os resultados contabilísticos ou a condição financeira de uma empresa não devem ser critérios principais na decisão de atribuição de prémios de desempenho.

A criação de valor económico-financeiro, esse sim, parece-me ser o fator mais relevante para o efeito, sendo que esse valor poderá não ter qualquer correlação com os resultados contabilísticos ou condição financeira da respetiva empresa.

Afinal, focando nas equipas de gestão, qual será mais merecedora de um prémio pelo seu desempenho: aquela que cria valor (de verdade, não para “inglês ver”) numa empresa num contexto difícil ou em processo de recuperação (e que apresente prejuízos), ou a que destrói valor (ou não constrói tanto quanto poderia) numa empresa num contexto favorável ou que atue em setores pouco concorrenciais (e que apresente lucros)? A resposta parece-me evidente.

Existem múltiplos conceitos financeiros que deveriam, necessariamente, ser do conhecimento de empresários e empreendedores, dada a sua relevância na estruturação de projetos ou investimentos e na gestão de negócios e empresas.

Costuma dizer-se que uma empresa com lucros é sólida e saudável – ou, em sentido contrário, que uma empresa com prejuízos é frágil, não tem futuro e está condenada ao fracasso.

Estas afirmações não são necessariamente verdadeiras – pese embora, normalmente, ser preferível uma empresa ter lucros do que ter prejuízos.

De uma forma simples, a performance e condição financeira de uma empresa pode ser analisada a partir:

(I) Dos seus resultados (lucros ou prejuízos), que refletem o seu desempenho operacional e financeiro num determinado período de tempo (mensal, semestral ou anual, por exemplo), apurados com base em critérios contabilísticos, nem sempre intuitivos ou compreensíveis, que determinam a forma como são reconhecidos os seus ganhos e gastos;

(II) Do seu fluxo de caixa (receitas e despesas), ou seja, da quantidade líquida (positiva ou negativa) de dinheiro que é gerada a nível operacional e financeiro em igual período de tempo;

e, não menos importante,

(III) Do seu balanço (ou património) num determinado momento do tempo, que reflete o conjunto dos seus bens ou direitos (ativos) e responsabilidades ou obrigações assumidas perante terceiros (passivos), e cuja diferença (positiva ou negativa) representa a sua situação líquida patrimonial.

Assim, lucro e prejuízo são meras métricas contabilísticas, mas que pouco significado poderão ter quanto à capacidade de uma empresa em gerar dinheiro ou sobre a sua situação patrimonial ou condição financeira atual, muito menos futura.

A título de exemplo, um rendimento contabilístico não gera, necessariamente, um recebimento ou entrada imediata de dinheiro, da mesma forma que um custo contabilístico nem sempre resulta num pagamento ou saída imediata de dinheiro. Acresce que alguns pagamentos podem resultar de responsabilidades (dívidas) contraídas em períodos anteriores, não tendo, por isso, uma correlação direta com o período de tempo em análise.

Complicando um pouco mais, é possível que uma empresa com lucros esteja dispensada do pagamento de impostos (não por evasão fiscal, mas decorrente da conjugação de critérios contabilísticos e normas fiscais), da mesma forma que uma empresa com prejuízos poderá ter de os pagar. Afinal, resultados contabilístico e fiscal nem sempre andam de mãos dadas.

Em suma, uma empresa pode muito bem apresentar lucros, mas não ter dinheiro para pagar as suas contas ou encontrar-se numa situação de insolvência. Em sentido contrário, pode gerar prejuízos e, ainda assim, ter uma geração positiva de caixa e um futuro risonho pela frente. Por outras palavras, a capacidade de geração de caixa e a situação patrimonial de uma empresa são tão ou mais importantes do que esta ser ou não lucrativa.

Admito que se o teor do presente artigo possa ser básico para muitos dos que o leem, mas espero que seja útil para alguns.

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Sobre o autor

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Tiago Rodrigues conta com mais de dez anos em funções de gestão e administração em empresas de energia, infraestrutura, turismo e imobiliário e oito anos como consultor, tendo experiência de vida, profissional e académica em Portugal, Brasil, Reino Unido e... Ler Mais