O empreendedorismo é um dos principais fatores de dinamização empresarial, com reflexos muito positivos no desenvolvimento económico e no bem-estar social.

Acontece que, não obstante os progressos já alcançados a este nível, a sociedade portuguesa ainda não revela o espírito empreendedor e a capacidade de iniciativa de outras sociedades onde a economia de mercado está mais enraizada.

Em Portugal, o Estado tem historicamente um peso significativo na economia e continua a ser encarado por muitos cidadãos como providencial, ou seja, investido do dever de proteger e defender, em qualquer circunstância, cada um dos elementos da comunidade. Ora, esta omnipresença do Estado, aliada a um sistema de ensino que não promove o espírito empreendedor, pode estar a limitar a autonomia, a iniciativa e a capacidade de transformação da nossa sociedade.

Neste contexto, e apesar da recente vaga de empreendedorismo de base tecnológica, ainda predominam em Portugal os pequenos serviços e os negócios de proximidade. Trata-se de empresas que empregam menos de dez trabalhadores, têm baixa intensidade de capital e pouca sofisticação tecnológica, geram um volume de negócios reduzido e trabalham para nichos de mercado, muitas vezes locais ou regionais. Estamos, neste caso, perante um empreendedorismo low cost e low-tech, que nasce muitas vezes como reação às dificuldades económicas.

Não devemos, porém, desvalorizar este tipo de empreendedorismo. Estamos a falar de negócios que, na sua generalidade, oferecem produtos ou prestam serviços que vão de facto ao encontro das necessidades das pessoas. Por isso, estas micro e pequenas empresas são socialmente pertinentes e economicamente viáveis, com grande proximidade ao mercado e muita flexibilidade nos seus processos. Acresce que o empreendedorismo low cost e low-tech promove a coesão social, uma vez que gera autoemprego e assim garante meios de subsistência individual.

Há hoje uma grande atenção pública sobre as start-ups tecnológicas, o que é perfeitamente justificável à luz da sua importância para a modernização, competitividade e internacionalização do tecido empresarial português. Mas é também necessário valorizar e incentivar o empreendedorismo low cost e low-tech, de modo a que este tenha as mesmas oportunidades que o empreendedorismo de base tecnológica.

Desde logo oportunidades de financiamento, dado que, apesar das melhorias verificadas no setor financeiro nos últimos anos, o crédito bancário tradicional continua a ser difícil de obter e muito dispendioso para as micro e pequenas empresas. Importa, pois, encontrar instrumentos alternativos de financiamento, que não só substituam o crédito bancário como sejam, inclusivamente, mais adequados ao empreendedorismo de pequena escala. Ou seja, que garantam um apoio menos oneroso na criação das empresas e nas suas fases iniciais de desenvolvimento, como é o caso do microcrédito.

Mas há ainda que garantir outro tipo de apoios ao empreendedorismo low cost e low-tech, para além dos instrumentos e incentivos financeiros. Refiro-me, por exemplo, a programas de formação empresarial dirigidos a empreendedores que pretendam investir em micro e pequenas empresas, bem como a acompanhamento especializado dos negócios numa lógica de mentoria. Tudo isto para reforçar as competências destes empreendedores ao nível da liderança, negociação, gestão e finanças.

Creio que, desta forma integrada (formação + mentoria + incentivos), será possível impulsionar e capacitar os negócios de pequena escala, promovendo-se assim não só o desenvolvimento económico mas também a inclusão social, a integração no mercado de trabalho e o exercício pleno da cidadania.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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José Pedro Freitas foi presidente da ANJE-Associação Nacional de Jovens Empresários de abril de 2019 a fevereiro de 2020, tendo sido também vice-presidente desde janeiro de 2017 e integrado os órgãos sociais da Associação, mais concretamente o Conselho Fiscal, nos... Ler Mais