A Bussiness Roundtable, uma associação sem fins lucrativos com sede em Washington, D.C., anunciou neste verão uma alteração profunda do primado das atividades das suas associadas: a substituição do princípio que prioriza a obtenção de lucros para os acionistas por propósitos bem mais abrangentes que incluem clientes, trabalhadores, fornecedores, distribuidores, apoio social ou proteção do ambiente.

A promoção de “uma economia que serve todos os americanos” é o título pomposo desta declaração periodicamente assinada pelos CEOs das maiores empresas das terras do Tio Sam. Apelidam-na de “padrão moderno de responsabilidade corporativa”.

Ora, entre as renovadas guide lines sobre os objetivos de uma companhia encontramos algumas pérolas raras como “a entrega de valor aos clientes”, “a compensação justa dos trabalhadores” ou “o estímulo de benefícios, formação e educação”. Deparamo-nos também com conceitos avassaladores como “ética, inclusão, respeito, dignidade e diversidade”. Descobrimos ainda as civilizadas máximas “práticas sustentáveis”, “defesa do meio ambiente” e “engajamento comunitário”.

Um dos signatários afirmou que “esta é uma notícia tremenda. Pois é crítico que as empresas do século XXI estejam não somente concentradas em gerar valor a longo prazo para todas as partes interessadas, mas igualmente focadas em enfrentar os novos desafios. Tal postura resultará em progresso, prosperidade e sustentabilidade quer para as empresas, quer para a sociedade”. Darren Walker, presidente da Fundação Ford, dixit. Relembro-vos a data de hoje: 19 de setembro de 2019.

Confesso um misto de sentimentos agridoce! O regozijo pelo facto do motor da economia mundial finalmente compreender que apenas em comunhão plena com os stakeholders maximiza o investimento dos shareholders, isto de um lado. A desolação pelo constatar de que o país mais desenvolvido do mundo permanece atolado em conceções da Revolução Industrial em plena época da Inteligência Artificial, Realidade Aumentada, Realidade Virtual, Impressão 3D, Internet das Coisas, Big Data ou Manufactura 4.0., isto do outro lado.

Todavia, uma sensação de bem-estar, satisfação e prazer sobrepõe-se a qualquer outra: a certeza de pertencer a uma comunidade empresarial que, sem querer minimizar algumas fragilidades intrínsecas, sempre integrou na sua Carta de Princípios um conjunto de regras respeitadoras dos direitos e deveres de stakeholdersshareholders, sem quaisquer exceções. Uma pátria de empresários que ao longo dos tempos adotou comportamentos adequados às dinâmicas da sociedade, sem quaisquer hesitações. Uma nação de homens de negócios que procurou colocar no epicentro dos seus ofícios preocupações educacionais, laborais ou sociais.

E assim deverá manter o seu rumo! Um país com aspiração a promover uma economia que sirva a todos os portugueses terá que ter alicerce numa nação de agentes, gestores e dirigentes que, sem quaisquer vacilações, trabalhem incessantemente em prol do bem comum.

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Armindo Lourenço Monteiro é presidente do conselho de administração do Grupo COMPTA, a mais antiga tecnológica portuguesa. Licenciado em Gestão de Empresas pela Universidade de Évora, com pós-graduação no Mestrado em Estatística e Sistemas de Informação pelo ISEGI, da Universidade... Ler Mais