Antes de ter filhos, face à vida que escolhi de empreendedor, não conhecia a palavra “férias”, esta era apenas uma memória da minha juventude em que recordava as tardes a ver o “Agora Escolha”, a jogar futebol na rua ou no campo em tarefas agro-pecuárias com os meus avós.

Com a ida primeiro para o pré-escolar e depois a escola das minhas filhas esta palavra deixa de ser uma memória e transforma-se num problema com duas variáveis: a primeira é facto do calendário escolar enformar o calendário de férias dos pais; a segunda é que o calendário de férias legais dos pais não é suficiente, mesmo que não conjugadas em simultâneo, para todo o período de férias escolares.

A sociedade mudou, a proximidade de família de suporte nem sempre é a mesma, o aumento da idade da reforma, as oportunidades de trabalho geograficamente distantes, criam desafios muito complexos de resolver. No meu caso em particular, o meu dia-a-dia na estrada a visitar clientes ou parceiros, da minha esposa, profissional de saúde num contexto oncológico e responsabilidades ao nível nacional que exige mobilidade esporádica, ambos com horários complexos, nenhum dos dois tem um contexto profissional que consiga acomodar uma criança de dois e uma de cinco consigo no trabalho, quer com qualidade para prestar cuidados, quer para trabalhar.

Ainda me lembro de uma vez ter levado a minha filha mais nova, à data com quase um ano, para uma reunião na Portugal Ventures no Porto, em que amavelmente tive o apoio e suporte do secretariado com a minha filha, enquanto tinha uma importante reunião ou num evento a convite do TheNextBigIdea em Coimbra (https://vimeo.com/68483048). Mas confesso que não era fácil, mas sim particularmente exigente gerir as fraldas, a comida e o trabalho!

Esta é a dura realidade da incompatibilidade do calendário escolar e das férias dos pais, na medida em que somos obrigados a fazer férias no verão – menos mal que como beirão o interior tenha centenas de motivos e destinos interessantes – tem-me levado a questionar, por um lado, a complementaridade da oferta pública não-letiva de largo espetro para não afetar a produtividade e, por outro, que o tempo de férias de pais com filhos em idade escolar deveria ou poderia ser bonificado, porque, em larga medida, quando os nossos filhos são pequenos e ficamos em casa com eles, há uma coisa que não fazemos… férias!

Todo o efeito de relaxe e atividades de lazer, na verdade são uma ficção. Naturalmente há opções no privado, de que eu me socorro como cliente numa oferta educativa confecional diferenciada, mas o problema de base não me parece que esteja em discussão ou a ser equacionado. O 3.º período é o mais curto, não há pais nesta altura do campeonato que não se questionem sobre as opções de verão para os seus filhos, não porque não queiram estar com eles, mas porque não temos realisticamente como conciliar a vida profissional com as férias escolares.

Há as opções privadas e algumas associações de pais que promovem iniciativas de muito valor, mas o problema de base não é colocado ou refletido, ou pelo menos não tenho tido conhecimento destas discussões e formas de minorar estes desafios, cujo o meu contributo medieval é apenas o de sugerir bonificação de dias para os pais que têm a seu cuidado filhos em idade escolar com necessidade de acompanhamento, que os profissionais da área poderiam definir como idade base.

Esta minha sugestão, encontra em mim o seu contraditório, sou pai, mas também sou administrador de empresas com responsabilidades para com os seus clientes, fornecedores, colaboradores e investidores. E, naturalmente, com menos ativos a produtividade é naturalmente afetada e de que forma poderia ser resolvida. Não tenho a fórmula desta “Quimera”, apenas me debruço sobre ela e gostaria que, por um lado, os pais e os filhos fossem protegidos, por outro lado que houvesse de igual forma ferramentas que protegessem as empresas com colaboradores nestas condições.

Bem sei que é mais fácil regular piropos ou a entrada de animas em restaurantes, naturalmente questões que necessitariam de ser revolvidas, mas a educação e a produtividade exigem respostas mais completas e complexas.Julgo que os novos modelos económicos exigem ajustes entre os educandos, educadores, comunidade escolar e ecossistema do trabalho e geração de riqueza, e alterações que não diminuam produtividade.

Na minha vida passada fui professor contratado de História no Ensino Básico e Secundário, em ambientes e contextos tão diferentes como a E.B. 2,3/Secundária Clara Resende (Porto), E.B. 2,3 Padre António Luís Moreira (Pedroso). E.B. 2,3 D. Nuno Álvares Pereira (Tomar), E.B. 2,3 Dr. Bissaya Barreto (Castanheira de Pêra) ou E.B. 2,3 Dr. Fortunato de Almeida (Nelas), entre muitas outras. Bem sei que é impossível às escolas fazerem mais com os recursos que lhes estão afetos, humanos e de infraestruturas, mas agora que dizem que se aproximam os tempos do fim da austeridade, quero crer que poderá ser o momento para o arco democrático da governação começar a inovar em reformas que atualizem estes temas de acordo com as novas necessidades económicas e sociais ao tempo presente.

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Alexandre Pinto iniciou a sua carreira académica pela História, vida que abandonou para se dedicar ao empreendedorismo! Teve a oportunidade de liderar alguns projetos e ser cofundador de start-ups, com as quais em diferentes momentos angariou capital de risco de... Ler Mais