Opinião

Um bom líder não pode ter “mau feitio”

Diogo Alarcão, gestor
Foto: Diogo Alarcão

Seja em contexto profissional seja em contexto familiar ou social, todos nós já fomos vítimas ou agressores pela forma como comunicamos e reagimos.

Não me refiro, claro está, às situações mais extremas de violência física ou psicológica, mas às ocasiões em que reagimos de forma menos controlada face a algo que observamos ou quando o nosso interlocutor (seja chefe, familiar ou amigo) nos “brinda” com uma ofensa, uma injustiça ou uma acusação falsa e infundada.

Nestas situações, qual é a nossa reação habitual, ou se quiserem, natural?
Reagimos “pagando com a mesma moeda” o que, frequentemente, gera uma espiral de violência com mais acusações e agressões.

Se estas situações são difíceis de gerir em ambiente familiar e social (entre amigos), em ambiente profissional tornam-se ainda mais desafiantes e preocupantes. Na realidade, em contexto profissional, com relações hierárquicas e funcionais, essa expressão de violência pode traduzir e aproveitar-se de um desequilíbrio entre as partes envolvidas. Isto é, o superior hierárquico sente-se mais “legitimado” para dizer “o que sinto” e o reporte hierárquico sente-se mais intimidado para responder. Deixa, pois, de existir um “equilíbrio de forças” o que pode levar a situações de assédio, condicionamento, bem como falta de autonomia e auto-estima. Ora, todos nós sabemos o quão prejudicial é para uma organização ter pessoas limitadas na sua autonomia e com níveis de auto-estima baixos.

Um líder deve estar atento a vários sinais. Desde logo, os que dizem respeito a si mesmo. Como líder, tenho a obrigação de não transferir, para as minhas equipas, as minhas frustrações, as noites mal dormidas ou os meus complexos e inseguranças. E muito menos devo transformar essas minhas fragilidades em armas de arremesso contra as pessoas que trabalham comigo e que, muitas vezes, têm de me aturar. As minhas equipas não têm culpa e não podem ser vítimas do meu “mau-feitio”. Isso não é ser um bom líder!

Já tenho ouvido pessoas que lideram organizações e equipas dizer: “Eu sei que tenho mau feitio”. Desculpem-me… mas, um bom líder não pode ter mau feitio! Pode, obviamente, ter momentos de maior fragilidade e pode, certamente, cometer erros. Mas não pode fazê-lo por “feitio”!

Sei, por experiência própria, que não é fácil dominar os nossos instintos quando somos agressores e quando somos vítimas. No entanto, partilho algo que procuro viver e que me tem ajudado nas duas vertentes (como vítima e como agressor): à rudeza e amargura, responde-se com amor.

Se alguém é rude para comigo, devo responder com amor. Isto é, não devo responder com rudeza, mas sim procurar compreender o outro, afastar-me, deixar a situação acalmar e falar mais tarde. Repito: não é nada fácil. Sobretudo, quando se é vítima da rudeza e arrogância. Falo por experiência própria.

Mas, se estou amargurado, frustrado, irritado ou simplesmente cansado também tenho de fazer um esforço para não transferir esses sentimentos para as pessoas que trabalham comigo, especialmente se forem pessoas/equipas que respondem perante mim hierárquica e/ou funcionalmente. Repito: não é nada fácil. Sobretudo, quando se está em funções de gestão com capacidade decisória. Falo por experiência própria. Ao longo da minha vida profissional tenho deixado alguns estados de espírito toldar a minha liderança com efeitos negativos sobre os que trabalharam/trabalham comigo.

Em suma, como gosto de recordar, “o Bem gera o Bem” e o “Mal gera o Mal”. Por isso, a opção pelo Bem, quer por parte do agressor (não agredindo) quer por parte da vítima (não ripostando) poderão ajudar-nos a trilhar este caminho nas organizações em que trabalhamos. Esta opção poderá ajudar-nos a dar novas respostas à rudeza do Mundo em que vivemos e à amargura de tantos com quem nos cruzamos.

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Diogo Alarcão

Diogo Alarcão

Diogo Alarcão tem feito a sua carreira essencialmente na área da Gestão e Consultoria. Atualmente é Vogal do Conselho de Administração da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões. Foi Chairman da Marsh & McLennan Companies Portugal e CEO da Mercer Portugal. Foi Diretor da Direção de Investimento Internacional do ICEP, de 1996 a 2003. Foi assessor do Presidente da Agência Portuguesa para o Investimento de 2003 a 2006. Licenciado em Direito, pela Universidade de Lisboa, concluiu posteriormente... Ler Mais..

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