Numa destas manhãs de agosto, ao entrar na cozinha do hotel onde trabalho no coração interior do Alentejo, lembrei-me da música de Cazuza, esse grande cantor brasileiro que morreu em 1990, “O Tempo Não Pára”.

A dada altura dessa música uma das frases é: “a tua piscina está cheia de ratos”.

Não que a piscina ou a cozinha desse hotel estejam cheia de ratos, mas logo pensei que, se qualquer um dos autoproclamados donos de toda a verdade e donos de toda a tolerância dos dias de hoje ali entrasse, logo afirmaria que aquela Cozinha estava cheia de racistas.

O tema da conversa das senhoras que trabalhavam nessa cozinha era os ciganos. Enquanto uma contava que os ciganos lhe tinham roubado o cão e ela teve que pagar para ter o cão de volta, logo outra dizia que eles “têm lá um buraco onde metem os cães roubados e só devolvem se as pessoas pagarem”.

Ou seja, cambada de racistas as senhoras da cozinha que dizem mal dos ciganos.

Lá se eles lhes roubam os cães, se entram em casa de pessoas com elas lá dentro e se roubam televisões; se esses mesmos que nada fazem, que entram nos mesmos supermercados, onde vão as senhoras dessa cozinha, para roubar, e depois são vistos pelas mesmas senhoras dessa cozinha a ir receber aos CTT o rendimento mínimo, nada disso interessa.

O que interessa é que as senhoras dessa cozinha, que trabalham honestamente, que pagam os seus impostos, que lutam por aprender, que foram educadas e educam os seus filhos, são umas racistas aos olhos de qualquer ativista, comentador e defensor do politicamente correto.

Mas será que algum desses comentadores, ativistas e defensor do politicamente correto quer vir ao terreno ajudar as senhoras a recuperarem os seus cães? Quantas vezes por dia, por semana ou por ano, esses senhores enfrentam situações do género das descritas?

Claro que eu, ao escrever estas linhas, aos olhos desses ativistas, comentadores e defensores do politicamente correto, sou, só por esse facto, um extremista racista. Eu e os professores das escolas dessas localidades que tentam a integração das crianças dessas comunidades, mas que, pela inércia e falta de vontade de integração dos mesmos, desesperam e veem permanentemente o seu trabalho deitado por água abaixo e as crianças largadas a um futuro que poucos querem e que todos sabemos que nada de bom lhes trará.

Claro que não é uma árvore que faz a floresta, claro que não é por morrer uma andorinha que acaba a primavera, claro que não se pode nem deve entrar em generalizações, mas eu hoje gostava de perguntar aos donos da Tolerância se não seria um bom exercício sobre a mesma começar por tolerar a verdade?

Talvez se não se tentasse permanentemente tapar o sol com a peneira, talvez se houvesse coragem para admitir que os problemas existem e que não é por os identificarmos e chamar a atenção para os mesmos que somos racistas, xenófobos ou outra coisa qualquer, talvez se não chamássemos de populista quem diz o que muitos pensam, vivem e sabem, talvez a integração passasse a ser real e a tolerância fosse apenas e só aquilo que ela é: tolerarmo-nos uns aos outros e tolerar a verdade.

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Luís Ahrens Teixeira é Sócio-Gerente Herdade da Cortesia Hotel e Presidente da Federação Portuguesa de Remo. Licenciado em economia pela UNL, foi atleta de Alta Competição de Remo entre 1993 e 2004, onde venceu a medalha de bronze nos Mundiais de... Ler Mais