Nos quase 500 mil cargos de gestão das empresas portuguesas, só 29,8% são ocupados por mulheres, segundo um estudo da Informa D&B. Nas empresas públicas, nas empresas cotadas e nas grandes empresas privadas, a liderança feminina é já mais significativa e está em crescimento.

A este facto não é alheia a lei de quotas de género em empresas públicas e cotadas em bolsa, que impõe que 33,3% dos conselhos de administração e órgãos de fiscalização destas sociedades sejam ocupados por mulheres.

Apesar dos muitos avanços alcançados na paridade de género em Portugal, a verdade é que o maior sucesso escolar das mulheres ainda não tem cabal correspondência na sua realização profissional e na sua mobilidade social. No nosso país, as mulheres ganham cerca de 14% menos do que os homens, têm mais dificuldade de acesso ao mercado de trabalho e ocupam muito menos cargos executivos.

A imposição de quotas de género não é um sistema perfeito, desde logo porque limita a autonomia e a liberdade de gestão das empresas, princípio basilar de uma economia de mercado. Além disso, será sempre preferível que as mulheres assumam cargos de responsabilidade nas empresas pelas suas competências académicas e profissionais. Uma profissional competente poderá sentir-se menorizada por ascender a um órgão de administração ou de fiscalização através de um sistema de quotas, e não apenas por mérito próprio.

Ainda assim, os resultados noutros países mostram que a imposição de quotas paritárias é uma medida necessária e eficaz. Não só gera um justo equilíbrio entre homens e mulheres nas empresas, designadamente em cargos de chefia, como melhora a performance empresarial e promove um desenvolvimento socialmente mais sustentável. Quem o diz é a Organização Internacional do Trabalho (OIT), com base em estudos e análises de estatísticas.

Garantir a diversidade de género nas empresas é, pois, uma decisão tão justa quanto inteligente, na medida em que favorece o sucesso empresarial.  Mais mulheres nas administrações das empresas tende a promover decisões mais ponderadas, sustentadas e competentes. Não só por causa do elevado nível de competências das mulheres, mas também porque, no processo decisório, é importante envolver pessoas com diferentes experiências, trajetos, mundividências e valores.

Mas a mesma OIT reconhece que os sistemas de quotas não chegam para mudar mentalidades, quebrar barreiras culturais e extinguir arreigadas práticas de discriminação. Há todo um trabalho a ser feito quer nas próprias empresas, quer ao nível sectorial para promover a equivalência das condições de trabalho, das oportunidades de carreira e dos regimes remuneratórios. Neste sentido, a evolução paritária passa, a meu ver, por acordos sectoriais e por incentivos (benefícios fiscais, acesso a financiamento, majoração em concursos públicos, apoios à modernização tecnológica, programas de formação, etc.) às empresas que garantam, de facto, a igualdade de género na gestão dos seus recursos humanos.

Também para as empresárias é preciso pensar num outro ambiente de negócios, que seja simultaneamente motivador e facilitador da atividade empresarial. Por um lado, é importante criar um contexto que mobilize mais mulheres a abrirem empresas e, por outro, devem ser desenvolvidas políticas que favoreçam o sucesso do empreendedorismo feminino.

Se as mulheres representam mais de 50% do universo de estudantes do ensino superior português, há todo um potencial humano que não está a ser devidamente canalizado para a atividade empreendedora. A criação de empresas por mulheres é um fator de desenvolvimento socioeconómico ainda subaproveitado, apesar de existir massa crítica entre a população feminina para gerar novos negócios, nomeadamente nos sectores de elevada especialização.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais