Opinião

Transição energética: a maior oportunidade de negócio da década

João Machado, fundador e CEO da Savearth*
Foto: João Machado

Durante muitos anos, a sustentabilidade foi vista pelas empresas como uma obrigação. Era uma questão de cumprir a legislação, responder a auditorias ou incluir um capítulo no relatório anual.

Hoje, esse paradigma mudou profundamente. A sustentabilidade passou a ser um fator de competitividade, de inovação e, sobretudo, de criação de valor.

Basta olhar para a forma como os investidores, os clientes e as cadeias de fornecimento tomam decisões. Atualmente, uma empresa é avaliada não só pelo que vende, como também pela forma como produz, consome energia, gere recursos e mede o seu impacto. Ora, este novo contexto está a acelerar uma transformação sem precedentes na economia e a abrir espaço para uma nova geração de empresas.

Há um sinal que o mercado já deixou de discutir: o capital mudou de direção. Os números da BloombergNEF apenas confirmam aquilo que já se sente na economia real, revelando que o investimento global na transição energética atingiu um recorde de 2,3 mil milhões de dólares em 2025, crescendo 8% num único ano. Aliás, pelo segundo ano consecutivo, o investimento em energia limpa ultrapassou o investimento em combustíveis fósseis. A Comissão Europeia estima ainda que serão necessários 660 mil milhões de euros por ano até 2030 para concretizar a transição energética europeia. Ou seja, o capital já escolheu para onde está a caminhar a economia.

Com efeito, a transição energética representa uma das maiores oportunidades económicas das próximas décadas. Mas onde estão, concretamente, estas oportunidades?

Naturalmente, continuamos a falar de energias renováveis, embora o mercado vá hoje muito além disso.

Há um enorme potencial em soluções de armazenamento de energia, gestão inteligente de redes elétricas, eficiência energética em edifícios e na indústria, mobilidade elétrica, valorização de resíduos, economia circular, monitorização ambiental, inteligência artificial aplicada à energia e plataformas digitais que ajudam as empresas a reduzir os seus consumos e emissões. Muitas destas oportunidades desenvolvem novas tecnologias e/ou combinam tecnologias já existentes de forma mais inteligente, acessível e escalável.

Conforme o World Economic Forum e o Boston Consulting Group, a economia verde deverá ultrapassar os 7 mil milhões de dólares anuais até 2030, o que demonstra que a sustentabilidade e o crescimento económico caminham lado a lado.

Quando um mercado cresce a este ritmo, surgem inevitavelmente novas oportunidades para quem consegue inovar mais depressa. É precisamente aqui que entram as startups, que têm uma capacidade única para identificar problemas específicos, testar soluções rapidamente e adaptar-se às necessidades do mercado. Não estão condicionadas por processos pesados nem por estruturas rígidas e conseguem experimentar, falhar depressa, aprender e voltar ao mercado com uma solução melhor.

É por isso que vemos tantas startups a liderar áreas como as comunidades de energia, a gestão descentralizada da produção elétrica, a digitalização da eficiência energética ou plataformas que ajudam as empresas a cumprir os objetivos ESG através de dados em tempo real. Acredito que a próxima fase passa por utilizar de forma muito mais inteligente a energia e os recursos que já temos. Será nesta camada de eficiência, suportada por dados, inteligência artificial e monitorização em tempo real, que surgirão algumas das maiores oportunidades económicas da próxima década.

No entanto, nenhuma startup cresce isoladamente. A inovação acontece quando existe um ecossistema capaz de conectar empreendedores, empresas, universidades, investidores, municípios e entidades públicas.

Nesse sentido, as cidades assumem um papel absolutamente decisivo, pois são elas que funcionam como verdadeiros laboratórios vivos para testar novas soluções de mobilidade, eficiência energética, edifícios inteligentes, comunidades de energia ou gestão de recursos. Quando uma cidade cria condições para experimentar e escalar a inovação, está também a atrair investimento, talento e novas empresas.

Da mesma forma, os ecossistemas de inovação tornam-se aceleradores desta transformação ao aproximarem quem desenvolve a tecnologia de quem precisa dela. A transição energética não será feita por uma única empresa ou setor. Será, sim, construída através de parcerias, de inovação aberta e da capacidade para transformar desafios ambientais em oportunidades de negócio.

No final, é essa a verdadeira mudança que estamos a viver. Além de debater como reduzir emissões, falamos de criar novos mercados, de desenvolver novos modelos de negócio, de aumentar a competitividade das empresas e de construir uma economia mais resiliente. As organizações que perceberem isto mais cedo terão uma vantagem competitiva difícil de recuperar por quem continuar a olhar para a sustentabilidade apenas como uma obrigação regulatória. Durante anos, perguntámos quanto custava ser sustentável. Nos próximos anos vamos perceber quanto custa não o ser.

*Savearth é uma start-up que está incubada na Startup Leiria

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