Não é a primeira vez que escrevo sobre este tema, mas no rescaldo da Web Summit e da House of Beautiful business, que ocorreram em Lisboa, sinto vontade de voltar a ele.

Hoje é factual que os próximos 5 anos serão mais disruptivos para qualquer indústria que os últimos 50. Este cenário de mudança e crescimento exponencial, originado em grande parte pela transformação digital, é o canvas da atividade de governos, empresas, start-ups.

Os desafios são enormes e simultâneos: alterações profundas no cenário competitivo, supply chain, modelos de negócio, logística, novas formas de governance e cidadania, clientes ativistas, cada vez mais exigentes, que alteram rapidamente hábitos de consumo/compra ou adotam novas formas de se relacionar com marcas, empresas, governos.

Definir estratégias e prioridades é relevante, executar é urgente, tudo num cenário de incerteza política e económica global. São tempos claramente desafiantes, mas entusiasmantes também na minha perspetiva.

Entusiasmantes porque a transformação digital tem o enorme potencial de acelerar a igualdade de oportunidades para pessoas, mas tem também, como começamos a perceber o poder de acentuar diferenças e clivagens na sociedade.

Redes globais, apps sobre voz, formas de pagamento inteligentes, dados, inteligência artificial, robots, comportamentos preditivos, tudo faz parte da nova realidade e todos estamos obrigados a olhar para elas.

Mas a diferença está na forma como o faremos e aqui a dimensão humana assume-se como primordial.

As empresas, start-ups ou scale-ups têm mais do que nunca um papel fundamental neste campo. Elas são hoje o principal motor de crescimento tecnológico, ditam comportamentos e hábitos de vida. São também pela sua dimensão planetária, mais influentes que muitos países.

As empresas deverão assim ser charneira nesta transformação digital humanizada. Começando de dentro para fora, pela forma como se organizam e como pensam os seus produtos e serviços.

Os desafios passam por se estruturar em torno das pessoas, os clientes, claro, mas também os colaboradores e todas as outras com a quais uma empresa se relaciona, que hoje cabem dentro do guarda-chuva desumanizado que é a expressão stakeholders.

As empresas que conseguirem transformar-se em comunidades, organismos humanos e vivos que potenciam o melhor de cada um para o benefício de todos serão as que seguramente levarão maior vantagem neste movimento imparável da transformação digital. Esse é na minha perspetiva o caminho a ser seguido.

Pensar em transformação digital apenas pelo prisma da tecnologia, não só vai deixar muitas empresas pelo caminho, como acima de tudo terá consequências nefastas para a sociedade e para a forma como vivemos.

Voltando ao início do texto, olhando para as últimas quatro edições da Web Summit em que estive presente e para as duas últimas duas da House of Beautiful Business, sinto que esta consciência está cada vez mais presente nos discursos.

Cabe sempre a cada um de nós passar do discurso à prática.

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Diogo Teixeira é cofundador da Beta-I desde janeiro de 2018, e Head of Growth da empresa. Anteriormente, foi fundador e sócio da Couture, Head of Strategy,Business Development e Client Services.

Com bacharelado em Estudos da Comunicação, antes de fundar a Couture em 2010, Diogo Teixeira trabalhou para a PT Multimedia, RTP, Euronews e Euro 2004. Foi diretor-geral de uma agência digital, a Sitebysite, e de 2006 e 2009 foi diretor de Planeamento Estratégico da Brandia Central, uma agência criativa portuguesa.

Ainda é sócio da TorkeCC, uma agência criativa internacionalmente premiada, e fundador da Billy The Group, uma aceleradora de start-ups que investe em negócios disruptivos. É professor na Católica Lisbon School of Business Economics e speaker frequente em conferências de Inovação e Marketing Estratégico.

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