Quando em 2018 Larry Fink (CEO da BlackRock, o maior fundo de investimento do mundo) enviou uma carta intitulada “A Sense of Purpose” a todos os CEO das empresas nas quais a BlackRock investe, o mundo dos negócios começou a perceber que algo de muito forte teria de mudar no que se refere ao papel das empresas na sociedade.

Larry Fink alertava para que “a Sociedade está a exigir que as empresas, tanto públicas como privadas, sirvam um propósito social. Para prosperar ao longo do tempo, cada empresa necessita não apenas de evidenciar performance financeira, mas também de demonstrar que dá um contributo positivo para a sociedade. As empresas têm de beneficiar todos os seus stakeholders, incluindo acionistas, trabalhadores, fornecedores, clientes e as comunidades em que operam”. E, quando a BlackRock fala, (pelo menos) as grandes empresas ouvem.

Se aquela missiva foi já uma enorme “pedrada no charco”, a carta do CEO da BlackRock de 2019, desta vez denominada “Purpose and Profit”, foi ainda mais longe, dissipando quaisquer dúvidas sobre a importância que o tema está a assumir (pelo menos) para os grandes investidores. Nela, pode ler-se que “o propósito não é um mero slogan ou campanha de marketing; é a razão fundamental de uma empresa. É o que ela faz todos os dias para gerar valor para os seus stakeholders. O propósito não é só a busca pelo lucro, mas é a força motriz para conquistá-lo. O lucro não é de forma alguma inconsistente com propósito; de facto, lucro e propósito estão intimamente associados. As empresas que cumprirem o seu propósito e as suas responsabilidades para com os seus stakeholders colhem frutos no longo prazo. Aquelas que não o fizerem, ficarão pelo caminho”.

Movidos ou não pela pressão que estas duas cartas puseram sobre as empresas – pelo menos sobre aquelas que se querem manter atrativas para investidores relevantes – quase 200 CEOs americanos, dos mais diversos sectores, subscreveram uma declaração pública através da Business Roundtable, uma organização que congrega a maior parte das “gigantes americanas”, declaração essa na qual procuram comprometer-se com uma redefinição do papel das suas empresas na Sociedade.

Assumindo explicitamente que estavam a cortar com muitas décadas de defesa expressa da primazia da criação de valor acionista, neste novel “Business Roundtable Pledge” as empresas signatárias comprometem-se a desenvolver os seus negócios no interesse de todos os stakeholders, nomeadamente colaboradores, fornecedores e as comunidades em que se inserem (incluindo o ambiente) e não apenas em benefício do interesse dos acionistas – por outras palavras, comprometem-se a substituir a criação de share value pela criação de shared value.

As reações não se fizeram esperar, entre louvores e críticas.

Se muitos salientaram o caráter relevante deste compromisso e alertaram para o simbolismo que ele encerra em si mesmo – quem trabalha no mundo corporate, sabe quão difícil pode ser assumir publicamente uma declaração nesta natureza, com um texto apto a ser assinado por quase duas centenas das empresas mais relevantes do mundo (e consta que demorou quase um ano a atingir um texto consensual!) – são também muitos aqueles que consideraram que “foi curto” (e tardio).

Entre os mais críticos, surge o movimento BCorp (que integra empresas como a Danone, a Ben&Jerry, a Patagonia e muitas outras), que foi ao ponto de publicar nos mais importantes jornais americanos um anúncio de página inteira, sob a forma de carta aberta dirigida aos CEOs da Business Roundtable, exortando-os a converter as suas empresas em Benefit Corporations, com as obrigações legais inerentes a este estatuto.

No mesmo sentido, foi a Business for Social Responsibility (a organização homóloga do GRACE nos EUA), cujo CEO, entre outras críticas, considerou incompreensível que esta nova declaração da Business Roundtable não fizesse alusão expressa ao tema das alterações climáticas e às ameaças que estas colocam à estabilidade social e económica, considerando que nenhum CEO responsável pode isentar-se de definir uma estratégia climática/ambiental com objetivos claros, dotados de sentido de urgência. E houve também quem criticasse a ausência, no novo “credo” agora publicado, de qualquer referência aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e ao papel fundamental das empresas na respetiva prossecução.

Pelo meu lado, admito que tudo isto possa de facto parecer “too little, too late”. Mas, não só acredito que “mais vale tarde do que mais tarde”, como que são cada vez em maior número e mais fortes os sinais de que, como Larry Fink escreveu na carta de 2019, apenas “as empresas que cumprirem o seu propósito e as suas responsabilidades para com os seus stakeholders colhem frutos no longo prazo” e que “aquelas que não o fizerem, ficarão pelo caminho”. E isso acabará por ser compreendido de uma forma que necessariamente mudará o “mundo dos negócios”.

Em Portugal, o GRACE, tudo fará para que as empresas assimilem a convicção de que o seu papel na sociedade se tem de alterar e que essa consciencialização é o primeiro passo de que depende a sua sustentabilidade no longo prazo. Cientes de que o caminho é longo e sinuoso, o facto de serem cada vez mais as empresas que se associam ao GRACE, reforça a nossa confiança, ao mesmo tempo que nos responsabiliza (ainda) mais pelo sucesso da nossa missão!

 

*Presidente do GRACE em representação da Vieira de Almeida & Associados – Sociedade de Advogados

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Sobre o autor

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Margarida Couto é licenciada em Direito e pós-graduada em Estudos Europeus, pela Faculdade de Direito da Universidade Católica de Lisboa. Integra a Sociedade de Advogados Vieira de Almeida & Associados (VdA) desde 1988, sendo a sócia que lidera a área... Ler Mais