Em junho de 2011 a Google lançava a sua nova tentativa de entrar no mundo das redes sociais e enfrentar o Facebook com o Google+. A mais forte característica era os “círculos”, uma forma que cada um tinha de delimitar em círculos de amigos o que era possível ver. Durante quase uma década a rede lutou, mas foi ao Facebook que todos continuaram a aderir. Mas o insight estava correto. Talvez aplicado cedo demais, ou na forma menos própria, mas poder criar limites e muros está hoje a moldar o futuro das redes 2.0

É preciso perceber que estas coisas têm um tempo. Em 2011 queríamos lá saber de muros! Queríamos era encontrar toda a gente. O tempo era de libertinagem. De descoberta. De experimentação. Era o tempo do tudo é possível e tudo é bom. As festas online faziam-se às claras. Sem pudores. Dizia-se o que se queria. E a toda a hora pela casa dentro entravam pessoas novas a quem recebíamos com mil sorrisos e sem pestanejar. Muitas delas sem sequer as conhecermos, mas aceitávamo-las na rede. Afinal, senão para que serve isto?

Hoje todos queremos muros. Já não aceitamos qualquer um. Já ouvimos histórias de assédios, burlas, até mesmo de raptos. As notícias de outrora, percebemos, foram começando a tentar vingar por espaço frente a pseudo-notícias, criações falsas que nem damos por elas, tentando manipular-nos e à nossa opinião e decisões. Das notícias falsas já estamos a entrar na realidade alterada, com as ‘deepfake’, adulterações que tornam como reais vídeos e imagens como se fossem reais e impercetíveis a olho nu.

Já nos chateámos nos comentários com alguém. Já tivemos de expulsar um ou outro. Fugimos do Facebook para o Instagram, onde tudo é belo e a vida dos outros é perfeita. Até que a rede cresce e mesmo ali começa tudo a parecer-se igual. Mais gente. Mais comentários. Mais confusão e invasão.

O Regulamento Geral da Proteção de Dados alertou-nos e o escândalo da Cambridge Analytica ilustrou-nos.

Continuámos a trocar SMS, mas em grupo, iMessages e Whatsapps e Messengers, e começámos a criar grupos para tudo. Do jantar de Natal à festa da empresa. Do grupo de trabalho à grupeta de faculdade. Alguns morreram findo o evento, outros prevaleceram e foram moldando-se às conversas, memes, artigos partilhados e fotos do dia a dia, gerando-se uma micro-comunidade nova e viva.

Estes novos círculos tomaram de assalto ano após ano o tempo que passamos nas redes. Na sua maioria sabemos que cada grupo tem um aglutinador, um tema, um perfil de pessoas, e se não conhecemos todos conhecemos pelo menos a maior parte. Dedicamos-lhes mais tempo porque sabemos ao que vamos e que todos comungam do assunto. As paredes estão erguidas e ainda que dê para espreitar, apreciamos esta aparente segurança e organização, ao invés de deitar piada ou faísca num feed onde tudo cabe e tudo se mistura na panela.

O Google+ pode ter terminado e obrigado a reinventar-se como rede B2B, mas sem dúvida o conjunto de redes de Mark Zuckerberg está atento. Para 2020 virá a fusão das mensagens de Instagram, Messenger e Whatsapp e a tentativa de converter os grupos de Facebook em unidades mais fortes na rede já começou.

Poderemos não deixar de ir à praça pública e visitar a feira, mas mais como olheiros e curiosos e contribuindo menos para o pregão. Comentaremos os posts aqui e ali e deixaremos um sorriso com um Like nesta ou naquela foto ou story. Mas onde o envolvimento está a crescer de facto, onde conversamos cada vez mais, partilhamos cada vez mais, é dentro das muralhas de cada grupo, no relativo e soalheiro terraço murado do nosso pequeno espaço onde sabemos que não cabem muitos mas cabem apenas os que lá deixamos entrar.

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Ricardo Tomé é Diretor-Coordenador da Media Capital Digital, empresa do grupo que gere a estratégia e operação interativa para as várias marcas – TVI, TVI24, IOL, MaisFutebol, AutoPortal, etc. – com foco especial na área mobile (Rising Star, MasterChef, SecretStory)... Ler Mais