Vas Christodoulou, diretor de programas da The School of Life, em Londres, vai estar em Lisboa, no próximo fim de semana, para partilhar a sua experiência e conhecimento com os jovens portugueses.

The School of Life não é uma escola como as outras, mas o que lá se aprende marca uma vida ou, pelo menos, faz o que pode para marcar. Esta escola foi criada em Inglaterra, em 2008, por Alain de Botton, filósofo, contador de experiências e psicólogo nos tempos livres que quis divulgar o uso da Filosofia no quotidiano através de aulas, escritas e outras ações, com o objetivo de provocar os alunos a pensarem na vida.

Vas Christodoulou, responsável pelos programas da The School of Life, estará em Lisboa para participar como orador na Go Youth Conference. Mas dias antes partilhou com o Link To Leaders algumas das suas experiências sobre esta escola, a sociedade inglesa e sobre o tempo que viveu na China.

Quais os desafios do programa The School of Life?
A terapia e a inteligência emocional não são ideias que estejam na ordem do dia no Reino Unido, da mesma forma como podem estar digamos em Nova Iorque ou em Los Angeles. A ideia de que uma pessoa deve ser formal e rígida continua aqui a estar muito presente, mesmo que já não o assumamos. Um dos nossos principais desafios é suavizar as atitudes das pessoas através de sessões de terapia, bem como tornar o estudo da inteligência emocional em algo tão comum como ir a locais comerciais high street ou ao cinema.

Como consegue desenvolver o programa público do Reino Unido?
Acabámos de lançar um currículo inteiramente novo. Até aqui contávamos com 33 aulas que desenvolvemos ao longo de 10 anos e que cobriam todo o tipo de desafios existenciais – desde descobrir o amor até enfrentar a morte. Agora temos apenas 12 aulas inteiramente novas que cobrem os principais pontos críticos da vida. Estas aulas são mais ricas, mais filosóficas e, esperamos, mais úteis do que qualquer outra coisa que tenhamos disponibilizado anteriormente. São aulas que representam um corpo coeso de pensamentos que desenvolvemos enquanto organização, em vez de uma apenas interessante combinação de conceitos. Espero que sejam seguidas sequencialmente e que realmente produzam uma real diferença na vida daqueles que empreendem a viagem.

Terá o Brexit impacto neste programa?
A política tornou-se num assunto mais emocional do que era há dois anos atrás. Há um sentimento forte entre as pessoas em geral de que não nos podemos dar ao luxo de ser complacentes e de deixar a ação política para os outros. Temos todos sentimentos muito fortes, não apenas opiniões sobre o Brexit, sobre Trump e sobre o estado da Nação em geral. O programa providencia um espaço para explorar essas emoções, bem como todo um conjunto de ideias de como canalizar algumas dessas energias para coisas com muito significado.

O que pode Portugal aprender com o programa The School of Life?
Acho que todos podem beneficiar com a aprendizagem de algumas das competências que fazem parte da inteligência emocional, mesmo os portugueses! Vamos fazer uma conferência em Lisboa neste outono, pelo que terão a oportunidade de ouvir em primeira mão algumas das nossas melhores ideias. Subscrevam a nossa base de dados e sejam os primeiros a saber mais.

O que faz a diferença na curadoria de eventos?
É graças à tecnologia digital que estamos a viver uma era dourada no entretenimento, em que qualquer curador de eventos transmitidos em direto tem de competir com o Netflix, com os TED e muitas outras plataformas com irresistíveis e brilhantes conteúdos mesmo ali no seu bolso. Numa cidade movimentada como Londres, competimos ainda com uma série de outros eventos em direto. Por tudo isto, temos de providenciar algo único: o painel de oradores, formatos e ideias genuinamente originais e desafiadores e que não estejam disponíveis em mais nenhum lugar.

Antes de enveredar por uma carreira no setor cultural foi professor de inglês numa escola de Wuhan, na China. O que o levou a fazer esta mudança de vida?
Isso foi um ano sabático. Não sei se têm em Portugal, mas a ideia é que antes ou depois da universidade as pessoas viajem durante um ano para ganhar alguma experiência com outras culturas. Fui para a China, porque é o sítio mais interessante do mundo e tornar-se-á cada vez mais, à medida que assuma um papel cada vez maior no palco do mundo. Wuhan é uma cidade muito industrial e que mudou imenso durante a minha estadia ali. Em seis meses, vi um bairro inteiro a ser demolido e um novo a lá nascer. O meu melhor amigo da escola cresceu ali, tendo-se mudado para a Inglaterra aos 11 anos, estando a cidade hoje quase irreconhecível face ao que era aquando criança.

Quais as principais lições que aprendeu com essa experiência?
Tive consciência do quão privilegiado sou por ter nascido e sido educado no Reino Unido. Aprendi a dar valor às coisas que dou como garantidas, como ter o inglês como primeira língua, o que tem sido muito benéfico para mim.

Liderou o festival HowTheLightGetsIn Philosophy promovido pelo Institute of Art and Ideas, que ajudou a tornar no maior evento desse género no mundo. O que tornou possível esse crescimento?
Há uma preocupante falta de debates sérios nos media sobre ter ideias ou, pelo menos, havia quando começámos a fazer este festival. Mas existia uma grande apetência global por novas formas de pensar, pelo que crescemos rapidamente, visto estarmos a alimentar isso mesmo. Claro que há outras organizações que vão na mesma linha e de que sou um grande fã, como o Big Think nos Estados Unidos, a revista Aeon na Austrália…

Lançou um canal de televisão digital e uma revista. Quais foram os maiores desafios com que se deparou?
Monetizar o conteúdo digital, o mesmo desafio que enfrenta qualquer organização no mundo que tenha algo interessante a dizer.

Respostas rápidas:

O maior risco: Gerir uma loja de arte contemporânea no País de Gale em novembro. Foi um grande sucesso, mas é fácil perceber porque poderia facilmente não o ter sido…
O maior erro: Correr poucos riscos.
A melhor ideia: A minha ideia preferida é a teoria de Iain McGilchrist sobre o cérebro, que explora no livro The Master and his Emissary. Este propõe que a relação entre o hemisfério direito e o esquerdo do cérebro pode explicar a grande chacina da história da humanidade e a sua cultura. Este provavelmente é também a pessoa mais inteligente com que alguma vez estive. Mesmo que a sua ideia tenha sido desmentida em última análise, acredito que sobreviva como uma metáfora muito forte e mobilizadora do que significa estar vivo.
A maior lição: Não dê às pessoas aquilo que pensa que estas querem; faça-as quererem aquilo que tem para lhes oferecer.
A maior conquista: Ultrapassar as organizações nossas concorrentes no mercado (tanto o Institute of Art and Ideas como o The School of Life).

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