Os temas relacionados com o trabalho remoto ou teletrabalho, ou ainda o trabalho a partir de casa, têm dividido muitas opiniões em Portugal.  Debrucemo-nos nos números disponíveis.

Em termos europeus, e segundo o Eurostat, a percentagem de pessoas com emprego entre os 15 e os 64 anos na União Europeia (UE) que habitualmente trabalham em casa era de 5,0% em 2017. Este valor foi mais elevado nos Países Baixos (13,7%), seguido pelo Luxemburgo (12,7%) e  pela Finlândia (12,3%) e menor na Bulgária (0,3%) e na Roménia (0,4%). O trabalho a partir de casa aumentou mais ligeiramente na Zona Euro (5,7% do pessoal ocupado) do que no conjunto da UE.

Nesta estatística, Portugal aparece com cerca de 5% de pessoas com emprego que habitualmente trabalham a partir de casa. Não querendo fazer nenhuma comparação forçada entre termos semelhantes (trabalho remoto, entre outros), mas que podem refletir realidades diferentes, as relações de trabalho em Portugal formalmente qualificadas como teletrabalho, embora se reportem a 2016, apontavam para um número próximo dos 850 contratos. Um valor em queda, quando comparado com anos anteriores, e em contraciclo com o número apresentado nas estatísticas europeias.

Os países do Norte e Centro da Europa são aqueles onde esta forma de trabalho é mais comum, muito por causa das questões relacionadas com a dispersão geográfica, a boa rede de transportes e, particularmente, com as condições climatéricas. Embora julgue que as questões climatéricas contribuem para a sua popularidade, não me parece que isso seja a principal causa para o seu sucesso.

A principal razão do seu sucesso reside, penso, essencialmente na forma como o trabalho se encontra organizado e, sobretudo, nas práticas, ferramentas e cultura de gestão empregues. Acredito que este seja um dos dominadores comuns para o seu sucesso. Torna-se, assim, imperativo revisitar este tema em Portugal e encontrar incentivos, novas perspetivas, e até se necessário refletir sobre nova legislação laboral para podermos contar com mais este importante instrumento.

Na indústria das Tecnologias de Informação, esta forma de trabalho começa a ser prática. Aliás, em certos casos é um requisito do colaborador poder por acordo contar com um ou mais dias por semana de trabalho a partir de casa, sendo encarado como um atrativo para desempenhar a função que lhe é destinada. Claro está que muitas funções pela sua natureza não podem aqui ser incluídas. Contudo, naquelas que exista acordo e faça sentido, penso que se deva estimular esta relação de trabalho.

A produtividade reside em múltiplos fatores. Todavia, um colaborador motivado é meio caminho para uma produtividade maior, sendo adicionalmente um fator de fixação ao território aonde nasceu, aonde reside… Esta pode ser uma forma de mitigar as distâncias e permitir a fixação fora dos grandes eixos urbanos com tudo o que isso implica e com o bónus de se poder combater a desertificação do interior, reter talento e riqueza e poder inclusivamente fixar e levar oportunidades de emprego, nacionais e internacionais, para outras zonas do território e com isso potenciar e distribuir a riqueza pelo país.

E com tudo isto proceder ainda à construção de uma relação de trabalho que incontornavelmente será uma realidade crescente.

Salvaguardados todos os direitos, chame-se o que se quiser desde que seja trabalho!

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O percurso profissional de Jorge Martins Delgado esteve sempre ligado à indústria das Tecnologias de Informação e Comunicação, universo onde consolida a carreira desde 1982. Presidente da comissão executiva da COMPTA até meados de 2019, Jorge Martins Delgado exerceu funções... Ler Mais