A sua empresa está a operar no mercado há algum tempo. Começa agora a pensar em lançar-se num novo desafio empresarial. Não avance sem antes responder a estas seis perguntas.

Nada melhor que o sucesso de um primeiro negócio para servir de motivação para novos projetos empresariais. Mas nem sempre, pelas mais variadas razões, a “receita” do primeiro se aplica ao segundo. Por isso, e antes de avançar para um novo desafio, equacione os prós e contras e questione-se se vale mesmo a pena. Veja as dicas de profissionais que passaram por essa experiência.

  1. Porque é que quero um segundo negócio?

“Ter mais do que um negócio é bom. Que o digam os empreendedores mais aventureiros, amantes da diversidade e que acreditam que parar é estagnar.” diz Ignacio Santamartina, diretor do mestrado de Empreendedorismo da EAE Business School.

Também o professor dos departamentos de Contabilidade e Control e de Iniciativa Empreendedora do IESE, Alberto Fernández, acredita que antes de pensar em montar um novo negócio, é fundamental refletir sobre o que o faz querer crescer. “É preciso analisar bem as motivações para que a decisão não acabe em desastre.” explicou o professor ao El País. Por exemplo, talvez os nossos clientes estejam a exigir um maior número de serviços ou de produtos que poderíamos oferecer através de um novo negócio.

Outro bom argumento, de acordo com Fernandez, poderia ser se o nosso negócio tendesse a ser cíclico. Diversificar diminuiria esse risco. “Essa diversificação poderia ser um serviço, um produto ou até, oferecer o mesmo em outros países.” Um bom exemplo é o da construção, em que é comum optar-se por acrescentar outras atividades ou mercados de acordo com o momento do ciclo que a empresa atravessa.

  1. Quando sei que chegou a hora de ponderar o crescimento?

“Se vejo que o meu negócio cresce, que a faturação aumenta e que, pouco a pouco, o meu trabalho está a ter um bom eco no mercado, provavelmente chegou a hora de dar o salto. Contudo, não é apenas o facto de ter clientes ou ir em busca deles que dita o momento. É, antes, ter uma carteira estável e contínua que permite um crescimento equilibrado.” aconselha Juan Luis González, professor da ESIC e diretor geral da Orange3.

“É sempre tempo de crescer. Este deve ser o leitmotiv de qualquer empreendedor” acrecenta Ignacio Santamartina. “Muitas vezes não crescer significa começar a cair. Vivemos numa época em que tudo acontece muito rapidamente: não temos outra opção senão mantermo-nos na vanguarda. O normal é ter uma estratégia de crescimento sustentável.” No entanto, Santamartina não acredita que exista uma escala fixa que indique qual a melhor altura para o fazer. “Cada negócio é diferente. O que é certo para uns pode não ser o aconselhável para outros.”

  1. Qual o principal risco que enfrento?

Para Santamartina, o principal é não perder o foco para evitar o fracasso. “É aqui que se encontra o ‘tendão de Aquiles’ de muitos negócios.” acrescenta.

Para Juan Luis González, o problema está quando “o crescimento não é o adequado ou não está controlado”, o que pode levar a, por exemplo, à perca do pulso diário do negócio ou ao contacto direto com os clientes que se podem sentir abandonados.”

“Há empresas mais escaláveis que outras e realidades que exigem um crescimento rápido para sobreviver. Antes de aceitar o desafio de crescer, o que é vital é que o nosso negócio esteja testado e provado. Assim, é necessário não perder de vista a missão e a estratégia para poder fazer as escolhas certas ao longo do percurso.  Desenhar uma estratégia é saber dizer ‘não’” explica Joan Riera, professora do departamento de estratégia e direção geral da ESADE. Riera defende a criação de um plano diretor. “É importante para a orientação das nossas equipas e para uma avaliação de rendimentos e desvios”, diz.

  1. A minha equipa tem talentos suficientes? Sou capaz de atraí-los?

Riera recorda que, “no plano pessoal, crescer implica delegar. Estruturar a organização de forma profissionalizada com funções, responsabilidades, sistemas de compensação coerentes e sistemas de supervisão, avaliação e desenvolvimento são aspetos fundamentais. O líder deve assumir que precisa de pessoas de extrema confiança que o acompanhem no processo.”

Para Alberto Fernández é imprescindível contar com talento para avançar. Segundo ele, para o manter “há que lançar desafios à equipa. Se continuam a fazer o mesmo de sempre, desmotivam. Joan Riera crê que atrair os melhores talentos nem sempre está relacionado com salários ou compensações mais elevadas. Na realidade, “partilhar uma visão ou um sonho possui um grande poder de atração. Contudo, precisamos de saber que perfil necessitamos e devemos como encontrá-lo.”

  1. Possuo recursos financeiros suficientes?

“Sou dos que acredita que os negócios devem sempre estar assentes em capital próprio. Contudo, em momentos de crescimento e expansão, este pode não ser suficiente. É quando devemos recorrer a outras fontes”, esclarece Juan Luis González, professor da ESIC “Procurar alianças poderia ser uma forma de crescimento sem necessidade de arriscar, numa primeira fase, todo o capital.”

Para se lançar num novo negócio é imprescindível “controlar muito bem as finanças, sobretudo a tesouraria. É essencial entender as dinâmicas dos fluxos de caixa (que, quanto mais vendemos, mais nos levam a necessitar de mais dinheiro) para poder enfrentar o crescimento com garantias.” adverte Joan Riera.

Este especialista em contabilidade e control da IESE destaca a importância de contar com os recursos de caixa para acompanhar a expansão. “O plano de negócio deve ter muito claro qual vai ser o gasto mensal, já que as vendas não serão imediatas. Há que garantir recursos para um período de, pelo menos, entre 6 a 12 meses”. Durante esse tempo, o que é gerado pelo primeiro negócio deverá fazer face às possíveis perdas do segundo durante o período de consolidação.

  1. Que grandes mudanças terei de enfrentar?

Muitas vezes, criar um novo negócio significa deixar de ser autónomo e transformar-se em empresa, algo que pode apresentar vantagens e inconvenientes. Juan Luis González lembra que converter-se em PME pode servir de “escudo” a nível pessoal já que não se correm riscos no que diz respeito a responsabilidade”. Efetivamente, a principal diferença de quando se é autónomo é que o administrador de uma empresa só responde com o seu património pessoal em caso de má gestão.

As diferenças também são significativas no campo tributário. “Para uma pessoa singular, existe um imposto progressivo, proporcional aos ganhos. Ou seja, quanto maior o rendimento, maior a taxa de imposto. Por oposição, uma PME tem uma taxa fixa de imposto.”

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