Antes de abril de 2020, eram muitos os gestores que tinham medo de dar passos rápidos e ágeis no mundo digital. A introdução de tecnologias capazes de potenciar o negócio e até para criar novos modelos de negócio era vista como distante na grande maioria do tecido empresarial português.

Até abril, as empresas estavam acorrentadas ao que conheciam e ao que “sempre assim fizeram”. Viam outras empresas a darem passos digitais, viam novas empresas 100% digitais a aparecerem, mas continuavam “presas e limitadas” pelo medo de falhar e de darem o passo num caminho desconhecido.

Até que … surgiu uma revolução, que no caso não foi a dos Cravos, mas a do “Covid digital”!

Esta é uma revolução que dá início a uma liberdade digital!

Esta revolução retirou o medo do desconhecido e das amarras do “sempre se fez assim”. A animação e as ideias de que o mundo digital era de facto bom e com um enorme potencial, passou a ser uma certeza. As várias equipas das empresas, com exceção das atividades de mão de obra intensa, continuaram bastante operacionais como normal. Algumas empresas conseguiram inclusive migrar, muito rapidamente, processos de venda para modelos online.

E … tudo funcionou!

Todos começaram a acreditar e a investir bastante no digital! Passou a haver um deslumbramento digital!

Tudo o que fizessem passou a ter uma aplicação. A maioria das equipas já se considerava conhecedora e dona da sua liberdade digital, sem olhar ao que tinham à sua volta. Consideravam que tudo era digital e que os outros também tinham de ser digitais, desde que fosse à sua maneira.

A felicidade era enorme. O radicalismo digital começava a florescer. A subjugação ao digital passava a ser obrigatória. As interações das pessoas tinham sempre um ecrã no meio. A privacidade pessoal dos clientes passou a estar em risco. As fronteiras do que era negócio e do que era pessoal passou a estar demasiado “nebuloso”.

Algumas empresas começaram a entender que tinham instalado tecnologias desnecessárias. Investido em demasia e sem grande alinhamento. As equipas começavam agora a estar desmotivadas e a diminuir a sua produtividade, apesar de tudo estarem a fazer a ambição de um sonho 100% digital.

Várias empresas começavam a ter graves problemas de eficácia, não tendo o retorno dos investimentos realizados expectáveis.

Após algum tempo, talvez já fosse novembro, se fez luz… as empresas entenderam que o digital é certamente uma mais-valia, mas que necessita de ter um Plano Estratégico Digital e um alinhamento com o seu negócio e com a tecnologia. Acresce que a tecnologia tem um papel de escalabilidade e modularidade essencial para a evolução e sustentabilidade no mercado, pelo que precisa de identificar quem o saiba fazer.

Fazer bem este Plano Estratégico Digital é essencial para garantir equilíbrios e interesses de negócio inerentes ao ecossistema empresarial. Certamente várias empresas desaparecerão, ou por não se terem adaptado ao digital, ou por terem ficado retidas no radicalismo digital e não ter entendido que o equilíbrio com o social e com o negócio são chave, ou pelo facto de não terem uma estratégia digital e por isso foram ziguezagueando sem rumo. Mas outras florescerão e nascerão alicerçadas na perspetiva do que é o contexto e evolução de hábitos  dos seus clientes, tal como na capacidade de saber criar parcerias do mundo tecnológico com o mundo dos negócios, capazes de criar valor para todo o seu ecossistema.

Saibamos nem criar deslumbramentos, nem acharmos que “tudo voltará ao normal”. Uma liberdade digital com sucesso, no mundo empresarial, é feita de equilíbrios entre negócio, tecnologia e pessoas.

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Atualmente é diretor-geral da IPTelecom, tendo sido antes Diretor Comercial da Infraestruturas de Portugal S.A., Diretor de Sistemas de Informação na EP – Estradas de Portugal S.A. e Professional Services Manager da Sybase Inc. em Portugal. Na academia é Diretor... Ler Mais